Crítica: Em Normal People a luta de classes também é o motor da história


Reflexão sobre as relações modernas, Normal People adapta à televisão o premiado romance de Sally Rooney, que valeu à escritora irlandesa de 27 anos a nomeação para um Booker Prize.

Em “capítulos” de meia-hora seguimos a complexa e intermitente relação entre Marianne  e Connell, desde o final do ensino secundário na pacata vila irlandesa onde cresceram até ao mundo universitário de Dublin, onde ambos prosseguem os estudos numa universidade de elite.

Connell (Paul Mescal) é um aluno muito inteligente, bem-parecido e bastante “popular”, que é colega de turma de Marianne (Daisy Edgar-Jones), com quem acaba por se envolver romanticamente. A protagonista cresceu numa casa conhecida por “a mansão”, onde Lorraine (Sarah Greene), a mãe de Connell, trabalha como empregada doméstica. Mãe solteira, Lorraine tem com o filho uma relação próxima, ao contrário de Marianne, que cresceu numa família onde escasseia o afeto.

Apesar de ser tão bem-sucedida nos estudos quanto Connell, a protagonista não é considerada bonita pelos colegas, que também a consideram intimidante e confrontativa. Como as equações de corredor de liceu não têm incógnita, Marianne está longe de ser considerada “popular”, o que faz com que Connell esconda a relação que ambos mantêm. 

Chegados a Dublin, os papéis invertem-se e Connell, o rapaz com sotaque de província que vem de uma vila longínqua tem pela primeira vez de lutar para se integrar, rodeado pelas calças-chino e mocassins dos filhos da elite irlandesa. Já Marianne está no seu “meio” e floresce, acolhida por um grupo de amigos intelectuais. É ela quem ajuda Connell a sentir-se acolhido, e durante os quatro anos seguintes acompanhamos a evolução do seu relacionamento, melhores amigos um do outro nos momentos em que não tentam ser um casal. 

DR

 

 

 

 

 

 

 

 

Sally Rooney também é argumentista desta versão televisiva do seu livro, uma coprodução entre a BBC e o serviço de streaming Hulu. O seu estilo já foi descrito como “Jane Austen para millenials”, comparando-a com a escritora inglesa do início de século XIX exímia em documentar as dinâmicas de poder nas relações entre homens e mulheres. Esta capacidade de integrar questões de status e elitismo nas relações amorosas ajuda a que Normal People ultrapasse a previsibilidade do drama adolescente ou de corredor de liceu.

Realizada por Lenny Abrahamsson e Hettie Macdonald, a série perde, contudo,  por se manter excessivamente fiel ao livro durante os episódios iniciais, focando-se demasiado nos protagonistas. Mesmo que a banda-sonora (com temas de Nick Drake, Elliott Smith ou Tycho) seja muito bem aproveitada e as cenas de nudez nada gratuitas e filmadas com gosto, as restantes personagens deveriam ter maior tempo de ecrã. A literatura permite apartes e contextualizações que os produtores evitaram numa versão filmada, mas que fazem falta para não gerar alguma claustrofobia ao espetador.

Ultrapassada essa reserva inicial, a série acaba por se revelar uma boa história de entrada na vida adulta, com o seu tom alternando entre sensibilidade e aspereza (não fosse Abrahamsson o realizador do consagrado Quarto, de 2015, um filme perfeito nesse equilíbrio). Tanto Daisy Edgar-Jones como Paul Mescal têm prestações imaculadas e sente-se a química entre ambos na interpretação de personagens por quem é fácil gerar empatia – seja com Connell, que encapota as dúvidas de um aspirante a escritor que estuda num milieu ao qual não pertence num manto de falsa segurança; ou com Marianne, alguém do lado favorável na questão do privilégio sócio-económico mas com uma infância e adolescência que são cicatrizes recentes, minando-lhe a autoestima enquanto passa de um relacionamento abusivo para o seguinte.

Além das questões de status, notoriedade ou “sucesso”, a narrativa de Normal People também é bem-sucedida em desvendar um primeiro amor que vai além da fugaz paixão adolescente, ao mesmo que nos faz imergir na psicologia das personagens pela forma empática com que deixam transparecer as suas fragilidades – parafraseando Karl Marx, além da “luta de classes”, esses são também os motores desta história.

 

Classificação TIL: 7/10

Entradas gratuitas na reabertura dos espaços culturais de Leiria


A Câmara Municipal de Leiria apresentou o plano de reabertura dos seus museus e espaços culturais, que voltam a receber visitantes já no próximo dia 25. Mas as boas notícias não ficam por aqui – quatro desses lugares terão entrada gratuita.

“Queremos garantir a segurança e a confiança junto dos funcionários e do público”, explica Anabela Graça, vereadora da Cultura, de forma a  justificar as medidas do plano de reabertura dos espaços culturais do município. A estratégia foi  anunciada esta quinta-feira na página oficial da câmara, e no texto, a responsável não esquece  a débil situação financeira da população, que “nunca poderá ser entrave à fruição cultural”. Desta forma, os museus Moinho do Papel, mimo, Agromuseu Municipal e Museu de Leiria terão entrada gratuita até 30 de setembro.

Quanto às medidas sanitárias, estas incluem a disponibilização de desinfetante, obrigatoriedade do uso de máscara, reforço da higienização dos espaços, instalação de separadores físicos e de sinalização, controlo do fluxo de visitantes, redução da lotação das salas de espetáculos, criação de circuitos promotores do distanciamento social e de alternativas interativas.

Os teatros José Lúcio da Silva e Miguel Franco, e a Galeria Banco das Artes são outros dos espaços encerrados devido à pandemia da COVID-19 que também serão reabertos, complementa o comunicado.

Entre os eventos que podem ser visitados na reabertura dos museus municipais, contam-se a exposição “Plasticidade: Uma História dos Plásticos em Portugal”, no Museu de Leiria, a exposição de Bryan Shutmaat, no mimo, ou ainda a exibição “Ernesto Korrodi: Além da Arquitetura”, no Banco das Artes Galeria, que inaugurará também trabalhos de Mircea Albutio.

m|i|mo acolhe exposição vencedora dos New York Photo Awards

Foto: DR

Quizz: Só os verdadeiros “reis” sabem responder a pelo menos metade destas perguntas sobre castelos do distrito de Leiria


Invasões; personagens ilustres; lendas; terras que ficavam na costa, mas que com o recuo do mar perderam importância; fatos marcantes da história de Portugal e um distrito inteiro de fortalezas. Vem fazer o nosso Quizz sobre os castelos do distrito de Leiria.

Boa sorte!

 

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Crítica: Unorthodox – Shira Haas é magnética nesta história sobre outro género de confinamento


O principal tema do novo lançamento Netflix é a fuga da sua protagonista a um passado de totalitarismo religioso que lhe espartilha a individualidade.

“Deus esperava demasiado de mim”, afirma Esty Shapiro (Shira Haas) a certa altura de Unorthodox, como forma de justificar a fuga ao seu passado. A personagem principal desta mini-série em quatro episódios nasceu no seio dos Satmar, grupo de judeus ultra-ortodoxos estabelecido em Brooklyn, que faz da rejeição da modernidade um valor fundamental.

Aos 19 anos de idade, e após um ano de matrimónio com Yanky (Amit Rahav), foge para Berlim, cidade onde vive a mãe, que por sua vez também escapara a um casamento combinado e à comunidade Satmar. Não sabe bem o que procura com esse passo no desconhecido, mas tem a certeza que não pode continuar a viver como até aí.

Dito assim, pode pensar-se que Unorthodox é “apenas” a história de uma adolescente nova-iorquina que decide libertar-se de uma existência espartana e tentar a conquista de uma individualidade que lhe era negada. Mas a forma como nos faz refletir sobre o panorama psicológico do povo judeu, a interpretação magnética de Shira Haas e a dinâmica da narrativa, fazem com que esta seja mais que uma história de “passagem de idade” atípica.

Baseada em “Unorthodox – The Scandalous Reject of my Hasidic Roots”, livro de memórias de Deborah Feldman (em quem a personagem de Esty é inspirada), a ação começa no momento da fuga da protagonista, com o retrato da sua nova vida em Berlim, momentos alternados por flashbacks onde é mostrado o seu passado recente – os preparativos e a cerimónia do casamento, a relação com o marido e a família deste, e os constrangimentos da sua vida anterior.

Como noutras comunidades ultra-religiosas, o papel da mulheres Satmar é serem boas esposas e conceberem o maior número de filhos possível. Esta mentalidade patriarcal é “personificada” pela família do marido da protagonista, que a pressiona para ser mãe, e transposta para a narrativa, de forma pitoresca, através das conversas com a conselheira matrimonial que lhe é imposta após alguns meses de casamento.

Já muito se escreveu (Philip Roth, Saul Bellow) sobre o panorama psicológico dos judeus enquanto povo, especialmente nas relações entre gerações, com pais muitas vezes super-protetores. Afinal este é um grupo que foi perseguido ao longo de milénios e sofreu a maior atrocidade do século XX. Desta forma entende-se que tenham excesso de zelo pela noção de posteridade geracional  – isto no caso de judeus seculares, imagine-se numa comunidade como a que é retratada em Unorthodox, onde num dos episódios é dito que “Estamos a recuperar os seis milhões de judeus mortos no Holocausto”.

Esta sensação de confinamento pela tradição e pela História, a principal razão de Esty fugir à vida que conhece, é especialmente bem retratada através dos diálogos em iídiche, a língua dos Satmar; pela cinematografia e guarda-roupas imaculados dos rituais de casamento e purificação; e por quase toda as cenas nova-iorquinas de Unorthodox serem realizadas em interiores, incluindo a cena onde é rapado o cabelo à protagonista, por razões “de decoro” inerentes a uma mulher Satmar casada.

Em Berlim, na sua nova vida, Esty conhece um grupo de estudantes de música e, mesmo com os poucos estudos a que lhe foi possível almejar, passa a ter como objetivo a admissão no conservatório onde os amigos estudam. Essa abertura de horizontes é marcada por uma cena que representa o seu batismo na heterodoxia, quando  mergulha no Wannsee, um lago urbano onde os estudantes se costumam divertir, deixando a peruca a boiar enquanto exibe o cabelo rapado aos companheiros. Pode parecer irónico que alguém de ascendência judia procure na capital alemã uma libertação do passado, mas talvez a ideia implícita seja estar-se em paz com o que aconteceu.  

Ao contrário dos flashbacks da vida anterior da protagonista, as cenas berlinenses desenrolam-se geralmente em cenários exteriores, têm diálogos em inglês e aproveitam a arquitetura moderna da cidade alemã. A certa altura, a narrativa leva um toque de thriller devido à chegada do marido e de um primo da protagonista, que a perseguem, tentando-a convencer a voltar a Brooklyn.

O melhor de Unorthodox é a forma como se esquiva a moralismos – realizada pela alemã Maria Schneider, a série tem um tom feminista que nunca é esfregado de forma gratuita na cara do espetador. Da mesma forma que o argumento se recusa a diabolizar as personagens do passado nova-iorquino de Esty. É uma narrativa honesta, que nos apresenta pessoas que têm motivações culturais e não agem por mesquinhez nem egoísmo, apenas por aquele ser o único mundo que conhecem. Mesmo que estejam sempre a tempo de lhe fugir.   

Classificação TIL: 8/10

Rita de Carvalho, psicóloga clínica – “Se com tudo isto não aprendermos a ser pessoas melhores, então precisamos de questionar as nossas capacidades de aprendizagem”


Rita de Carvalho é psicóloga clínica e, além de especialista na saúde mental de adultos, crianças e adolescentes, também trabalha em avaliação psicológica e emocional. Conversou com a TIL sobre medos, ansiedades e formas de gerir o isolamento causado pela COVID-19. E como este deve ser um momento de reflexão para o futuro.

  • Temos visto este esforço de confinamento ser apresentado de forma simplista nas redes sociais. Compara-se esta crise, onde as pessoas só têm de “ficar sentadas no sofá” com outras crises da história, que geralmente envolviam guerras. Custa mais ao ser humano fazer uma coisa realmente muito difícil, como combater uma guerra, ou ficar em casa sem fazer “nada”?

Ainda que possam parecer situações muito diferentes, há algo que têm em comum. Apesar de estarmos perante um fenómeno biológico, este não deixa de ter uma componente humana, de também ser uma consequência dos nossos actos ao longo dos tempos. Mas acima de tudo, a maior guerra está a ser a de valores. Este é, e será, o momento em que as pessoas podem vir a questionar tudo e todos de uma forma reflexiva e por sinal, bastante evolutiva. Se com tudo isto não aprendermos a ser pessoas melhores, então precisamos de questionar as nossas capacidades de aprendizagem.

O ficar em casa sem fazer nada é muito subjetivo. Na verdade, todos os dias temos profissionais de saúde, operadores de supermercado, seguranças, forças policiais, vendedores, empregados de limpeza, entre outros, a irem para a “guerra”. A esses não lhes foi pedido que ficassem no sofá! Noutras crises da história que envolveram guerras, os maridos iam para a frente e as mulheres ficavam em casa a tomar conta dos filhos. Nesta guerra, há muitos pais que nem com os filhos estão, e muitos maridos que deixaram de ver as esposas, como forma de se protegerem. Também não lhes foi pedido que ficassem no sofá. Apesar de biológica, esta não deixa de ser uma guerra. E o objetivo é comum a muitos outros momentos da história – a vitória.

  • Quais são as melhores estratégias para uma pessoa se sentir viva, dentro de quatro paredes, ao longo do dia? Será o estabelecimento de rotinas, por exemplo?

As rotinas são extremamente importantes. Ainda que esta possa ser uma fase transitória das nossas vidas, é importante que as pessoas se adaptem, adotando uma nova rotina – quer em termos pessoais, quer em termos relacionais. O que distingue esta crise é a facilidade que temos em manter contacto com aqueles que nos são mais significativos. Estar dentro de quatro paredes não precisa de ser sinónimo de estar isolado do mundo. Essa questão não se coloca. É tempo de aproveitarmos para fazermos aquilo que dizíamos nunca ter tempo para fazer. É altura de nos reinventarmos, ainda que o possamos fazer na nossa zona de conforto, o nosso cérebro é absolutamente fantástico sempre que o conseguimos usar a nosso favor.

É importante assumirmos que tudo isto é uma fase que se faz necessária, e que, quer queiramos quer não, temos de nos submeter a ela. Enquanto isso, podemos e devemos perspetivar o futuro, imaginando coisas que gostaríamos de colocar em prática assim que tudo isto terminar. Quatro paredes não precisam de ser sinónimo de ficar o dia todo de pijama. Não tem de ser, nem deve ser. Devemos tratar de nós da mesma forma que trataríamos antes da pandemia. Devemos investir em nós, sobretudo intelectualmente, mas para isso é necessário que nos disponibilizemos a que tal aconteça. É tempo de apostar em formações, na aprendizagem online, na matéria familiar, refletir sobre o que é bom e menos bom, sobre os que nos são mais ou menos significativos, sobre os bons tempos que passámos juntos e o que fazíamos quando éramos felizes e não sabíamos. Há uma infinidade de coisas capazes de amenizar a angústia a que este vírus nos submeteu.

  • Pensar que ao nos isolarmos, estamos a prevenir a disseminação da doença é uma boa estratégia para lidar com o confinamento?

Claro que sim. O confinamento é sobretudo uma responsabilidade social. E a verdade é que ninguém deseja estar rodeado de quadro paredes de forma involuntária. Acima de tudo, este confinamento pode e deve ser visto como um ato de consciência. É esta que leva as pessoas a adotarem determinado tipo de comportamentos. E é também a falta dessa mesma consciência que conduz as pessoas ao não confinamento, exceto nos casos em que tenham de continuar a exercer a sua atividade fora de casa.

“Quatro paredes não precisam de ser sinónimo de ficar o dia todo de pijama. Não tem de ser, nem deve ser. Devemos tratar de nós da mesma forma que trataríamos antes da pandemia. Devemos investir em nós, sobretudo intelectualmente […] refletir sobre o que é bom e menos bom, sobre os que nos são mais ou menos significativos, sobre os bons tempos que passámos juntos e o que fazíamos quando éramos felizes e não sabíamos”

 

  • Os media ficaram monotemáticos – temos telejornais de mais de 1h30m onde o único assunto é a COVID-19. Será a altura certa para passarmos a fazer uma gestão mais saudável da forma como consumimos informação?

Penso que as pessoas já começaram a perceber o impacto da informação no dia a dia. Claro que é importante mantermo-nos informados. Ainda assim, é mais importante sermos contidos na forma como processamos essa mesma informação. Uma coisa é estarmos informados, outra coisa é absorvermos o noticiário de forma excessiva e abusiva. Há que conter e sobretudo limitar o tempo que dedicamos aos telejornais, fazer uma gestão saudável. Não precisamos de estar sempre atrás da informação, ela própria tem o poder de chegar até nós. O que é importante acaba por ser partilhado vezes sem conta, e repete-se sem qualquer tipo de contenção. Os telejornais assumem o seu papel, e nós enquanto seres humanos que precisamos de preservar a nossa saúde mental, teremos de assumir o nosso.

  • O pânico, que se manifestou através do açambarcamento, é uma reação de grupo expectável? Pensa que pode voltar a manifestar-se, ou as pessoas já entenderam que não é necessário correr aos supermercados, que a cadeia de abastecimento está garantida?

O pânico não foi imediato e não foi um ato isolado. Foi consequência da forma como os media transmitiram as notícias. Num dia o vírus não chegaria a Portugal, e no “dia seguinte” já tínhamos o primeiro caso confirmado no País.

Claro que tudo isto gerou confusão, dúvidas e inúmeros questionamentos, assim como a imagem de um povo desacreditado e desconfiado com base em acontecimentos anteriores. Enquanto chegavam as primeiras noticias a Portugal, já existiam imagens de outros países com “atropelamentos” em redes de abastecimento. Claro que este tipo de imagens conduz a um tipo de pensamento alarmista. A sensação era a de que de repente o país e o mundo podiam parar, e o ser humano quando se permite descansar das necessidades secundárias e supérfluas, recorre às necessidades básicas, àquelas que são essenciais à sua sobrevivência. De acordo com as mensagens e telefonemas que me têm chegado, esta não tem representado uma preocupação. Penso que as pessoas já perceberam que os bens essenciais são algo dado como garantido.

“Claro que é importante mantermo-nos informados, ainda assim, é mais importante ainda sermos contidos na forma como processamos essa mesma informação. Uma coisa é estarmos informados, outra coisa é absorvermos o noticiário de forma excessiva e abusiva”

 

  • Os americanos têm uma expressão – cabin fever – para designar o choque que se dá entre membros de um grupo de pessoas, como uma família, quando vive demasiado tempo em reclusão. O que é que as famílias podem fazer para atenuar esse tipo de efeitos?

O problema das famílias vai de encontro à crise de valores que já referi anteriormente. A maior parte das famílias, devido à azáfama do dia a dia, foram-se esquecendo ao longo do tempo como era viver no seio familiar. Ninguém ia prever que este dia ia chegar – que o dia em que as pessoas se iam ver obrigadas a conviver umas com as outras, 24 horas por dia, ia representar um desafio. Não era suposto ser visto como uma obrigação, mas as prioridades fora deste contexto é que deram significado ao termo “obrigação”. É aqui que mais uma vez, entra o tempo e o termo da reflexão. De reaprendermos a conviver com aqueles que estiveram e estão lá todos os dias, percebendo que para além deste seio existe muito pouco, e que esta é, sem duvida alguma, a base de tudo. O ser humano, enquanto ser individual, precisa de se reinventar para que no seio familiar a reinvenção também aconteça.

As pessoas reclamavam das rotinas, referiam que as relações terminavam porque entravam num circulo vicioso, e agora é o momento oportuno para perceber que essas rotinas eram a nossa vida normal; que as rotinas em modo de quarentena é que são as “desajustadas”, mas absolutamente necessárias.

  • Outra questão que se coloca é o oposto: a solidão. Será que estávamos a educar indivíduos com capacidade para enfrentar períodos em que estivessem sozinhos sem se sentirem solitários?

Os tempos que nos sucedem não são certamente os melhores em termos de saúde mental. As pessoas não estavam preparadas para algo desta dimensão. No seu dia a dia viviam de acordo com o que viam, deixando para segundo plano aquilo que sentiam, não davam espaço às emoções. Muitas achavam que estavam bem, mesmo não estando; e muitas estavam bem sem terem consciência disso. A diferença é que o isolamento anterior era voluntário.

Toda esta incerteza, a obrigação de isolamento em termos sociais e os riscos de contaminação, podem vir a agravar ou a gerar alguns problemas ao nível da saúde mental. Os níveis de ansiedade têm vindo a aumentar de forma significativa. Por isso, mais do que nunca, é importante estarmos atentos à saúde mental da população, e este impacto será tanto menor quanto maior a capacidade de quem nos governa arranjar soluções para as várias insuficiências de forma a evitar a rutura dos serviços de saúde públicos. Também precisamos de estar preparados para a crise que se sucede, a económica, e para essa vamos precisar de saúde mental.

“O problema das famílias vai de encontro à crise de valores que já referi anteriormente. A maior parte das famílias, devido à azáfama do dia a dia, foram-se esquecendo ao longo do tempo como era viver no seio familiar. Ninguém ia prever que um dia este dia ia chegar – que o dia em que as pessoas se iam ver obrigadas a voltar a conviver umas com as outras, 24 horas por dia, ia representar um desafio”

 

  • Quem vive sozinho deve manter mais contacto online para se sentir são/útil?

Claro que sim. Todo e qualquer contacto que faça sentido para a pessoa deve ser mantido. A utilidade é relativa, o mais importante nesta questão é o fator valorização. É normal que as pessoas se sintam mais sozinhas, estando muitas delas afastadas de quem mais gostam, apresentando sentimentos de frustração e de tédio, por se sentirem incapazes de realizar aquelas que eram as suas rotinas habituais, sendo de extrema importância não só manterem esses contactos, como também manterem horários de descanso e de sono, praticando atividade física de acordo com o permitido e possível e fazendo uma alimentação equilibrada e cuidada.

Mais do que nunca as pessoas precisam de sentir que são importantes e para quem são importantes; que os outros sentem a sua falta e que agora têm tempo para se aproximarem daqueles com quem nunca tinham tempo para estar. Ou talvez não tivessem disponibilidade. Tenho-me apercebido de casos que me chegam via tele medicina, em que as pessoas se submetiam a isolamento voluntário. Agora perante um isolamento involuntário, de acordo com o aumento da fragilidade, do medo e da incerteza, a necessidade de se manterem em contacto com colegas, amigos ou familiares, parece ter vindo a aumentar.

Sempre que possível é importante a realização de atividades prazerosas sem nunca esquecer que o confinamento é uma medida temporária.

  • O que acha que pode vir a criar maior ansiedade – enfrentar o isolamento, ou o seu rescaldo, especialmente no que diz respeito à questão da economia?

Parece-me que ambas as situações são indissociáveis. O isolamento acaba por combinar com um tempo de reflexão e como tal, não é possível viver o isolamento sem considerar a questão económica. Os portugueses já faziam contas, agora mais contas estão a fazer. Ainda assim, com o aumento do numero de casos em isolamento profilático, o medo, a preocupação e a ansiedade aumentam proporcionalmente. À medida que esta situação for evoluindo positivamente, e assim que os dias da normalidade estiverem mais próximos para todos nós, a questão económica vai ser cada vez mais considerada e vai ter um grande impacto em termos de saúde mental.

Por isso é que referi anteriormente que mais do que nunca vamos precisar de saúde mental para conseguirmos combater a crise que se adivinha e avizinhará. O rescaldo é o momento em que tudo parece já estar resolvido, mas surgem todos aqueles se’s até aí adormecidos.

  • Será que depois desta situação as pessoas irão valorizar o cara a cara e deixar os gadgets mais de parte?

Ainda que queira acreditar que sim, temo que possa ser algo temporário. O facto de as pessoas estarem dentro de casa a consumir tecnologia pode fazer com que esse nível de consumismo aumente mais ainda.

Ao mesmo tempo que as pessoas não estavam preparadas para algo desta dimensão, já estavam bastante familiarizadas com a questão das redes sociais, sendo que muitas das vezes estas se sobrepunham. Tudo dependerá da forma como as pessoas aproveitarem este tempo. O que fizerem com o tempo é que poderá fazer toda a diferença. Conforme sabemos, a tecnologia permite-nos chegar a pontos muito diferentes – estar uma hora a fazer uso de um computador para criar conhecimento é completamente diferente de estar uma hora a navegar as redes sociais. Em termos psicológicos faz toda a diferença, sendo que o primeiro pode ser evolutivo e acrescentar algo ao indivíduo, e o segundo pode ser deprimente (conforme se tem vindo a comprovar ao longo dos tempos).

“O rescaldo é o momento em que tudo parece já estar resolvido, mas surgem todos aqueles se’s até aí adormecidos”

 

  • Acha que estes podem ser tempos conturbados para os artistas, tendo em conta que há menos fontes de inspiração à vista?

Pelo contrário. Parece-me que para quem cria, este pode ser um autêntico desabrochar de novas ideias (já todos nós tivemos oportunidade de visualizar algumas criações repletas de lógica e emoções), e mais uma vez tudo dependerá da forma como irão aproveitar este tempo. O que vão fazer com ele. Há quem não possa parar em casa, mas a todos os que assim se viram obrigados, hoje em dia podem chegar a quase todas as casas, tudo depende das asas que derem à imaginação. Já todos devem ter tido a oportunidade de ver concertos online; makeups; aulas de guitarra; trabalhos manuais e outros, aqui a grande preocupação passa sobretudo pelos apoios em termos económicos, em especial, para os artistas – e esse sim, pode ser um fator desmotivacional. Mas uma coisa é certa, parados valemos menos!

“O facto de as pessoas estarem dentro de casa a consumir tecnologia, pode fazer com que esse mesmo nível de consumismo possa vir a aumentar mais ainda”

 

  • Os portugueses têm sido apontados por alguma imprensa internacional como exemplo de um povo cumpridor das regras do recolhimento. Em jeito de psicologia de grupo, será que ainda somos o povo do “respeitinho”, por termos vivido quase meio século sob o jugo paternalista de uma ditadura, ou é tudo uma questão de bom-senso?

O povo português sempre foi um povo com necessidade de ficar bem na fotografia. Sobretudo quem nos governa. Ficar bem sempre foi e sempre será um posto. Quero acreditar que os dados que nos chegam são reais, mas ainda assim o “respeitinho” não é geral. Ainda há quem goste de desafiar as normas, de criar a imagem do engraçadinho ou do corajoso que foi para a rua desafiar os mais frágeis e menos informados. O bom senso também é relativo, existe realmente quem o tenha, mas também existe a versão do “faço porque ele faz e se ele faz é porque eu também devo fazer”.

Existe um pouco de tudo, e ao longo das décadas conseguimos perceber como somos um povo de influências e de modas. O melhor exemplo é o das máscaras. Até para sairmos de máscara precisamos de ir bonitos? Com uma máscara cheia de bonecos ou borboletas? Estamos a falar de prevenção ou de moda? Ou bem que nos protegemos e respeitamos todos aqueles que estão em confinamento e isolamento, ou não estaremos a falar de um esforço comum e muito menos de bom senso! Há que olhar para o outro na mesma medida em que olhamos para nós. Mais do que nunca precisamos de ser o que nunca fomos, na medida em que conseguimos dar o que nunca demos.

  • Há quem imagine um cenário para rescaldo desta situação em que vamos ficar mais próximos enquanto seres humanos, mais dispostos a combater desigualdades económicas, ou que vamos respeitar mais o planeta. Pensa que este período, que se espera ser breve, vai deixar marcas positivas?

Quero acreditar que sim, mas penso que não será geral. Aqueles que vão aprender mais com isto serão os que foram para a linha da frente, que contactaram com o inevitável. A dada altura, penso que muitas pessoas vão ter de se adaptar, descendo alguns degraus, e talvez nessa altura adquiram a capacidade de olhar mais o outro em termos humanos, e menos em termos materialistas.

Ainda assim é preciso ter um nível mínimo de consciência. Aqueles que não o tinham, dificilmente o vão ter, contudo acredito profundamente que muitos serão uma versão melhor deles próprios – refiro-me àqueles que adotaram a responsabilidade social e humana, que estão a olhar para este tempo como um momento de reflexão e reinvenção. Dos inconscientes pouco espero, a não ser que o período não seja assim tão breve e que tenham de mudar não por uma questão de exigência, mas por uma questão de necessidade e sobrevivência.

Crítica: Milagre na Cela 7 – o tearjerker da Netflix que nos leva até à Turquia


A versão original de Milagre na Cela 7 é um filme sul-coreano de 2013 cujo guião foi adaptado posteriormente na Índia, Filipinas e Indonésia – o que atesta sobre o apelo universal deste enredo. Uma questão diferente é perceber se a versão da Netflix fica para a história do cinema.

Esta adaptação turca  realizada por Mehmet Ada Öztekin é o quarto remake da história de Memo (Aras Bulut Iynemly), um pai que sofre de um distúrbio intelectual e é acusado de um homicídio que não cometeu; e da sua relação com a filha, Ova (Nisa Sofiya Aksongur), que anda na escola primária, mas tem a mesma idade mental que Memo.

A família protagonista vive num vilarejo que fica à beira-lago, algures na Turquia profunda, na altura em que o país vivia o rescaldo do golpe militar de 1980. O início do filme tem o condão de nos levar “a viajar”, ao mesmo tempo que faz uma belíssima reconstituição de época que aproveita este enquadramento histórico.   

A lei marcial vigora mas isso parece não incomodar Memo que é pastor e vive com a filha e a avó. Até que por um torvelinho de mal-entendidos, a sorte desta família muda, quando o protagonista é acusado de assassinar uma das colegas de escola de Ova. Para piorar tudo, o pai da criança que morreu é um tenente do exército turco, condição que, devido às circunstâncias que o país atravessa, lhe garante controlo sobre o poder judiciário.

Ova passa a contar apenas com o apoio da bisavó e da sua professora para lidar com a distância forçada entre si e o seu pai, ao mesmo tempo que luta pela inocência de Memo, tentando encontrar a testemunha que o pode ilibar em julgamento.

 

Enquanto isso, o filme mostra também a luta de Memo na prisão, com a sua candura e alegria em contraste com a crueldade dos condenados que o tratam como um assassino de crianças. Até que entendem que não pode ter sido o companheiro de cela a cometer o crime por que está acusado.

O filme aguenta-se bem até esta altura, que é quando a história se começa a enredar numa repetição de lugares-comuns, sejam a pouco credível humanização dos companheiros de cela, a diabolização do tenente do exército que a todo custo procura a condenação de Memo à pena capital, ou a série de episódios rocambolescos que fazem com que Ova seja temporariamente transportada para a cela de Memo.

A música é especialmente intrusiva – se o espetador tiver dúvidas, ali estão piano e violino a lembrar que é naquela cena  que deve sacar do pacote de lenços para limpar as lágrimas.

Existe uma palavra em jargão cinematográfico americano – tearjerker – para um filme que de forma deliberada se propõe levar a audiência às lágrimas. À falta de uma boa correspondência em português para esse vocábulo, pode dizer-se que durante boa parte da sua duração, Milagre na Cela 7 consegue ser um bom drama, mas apenas até se tornar num “dramalhão”.

Classificação TIL: 5.5/10

Leiria duplica investimento em passadeiras de piso tátil


O Município de Leiria prevê investir um total aproximado de 120 mil euros na colocação de piso tátil, junto a passadeiras, em várias zonas da cidade.

“Entre 2017 e 2019, foram colocadas 46 superfícies desta natureza, com um investimento de cerca de 61.300 euros, num plano que prevê a execução de mais pontos até ao final do ano”, refere um comunicado da página de internet da Câmara Municipal de Leiria.

Para 2020, o valor do investimento será de aproximadamente 62 mil euros, com a criação de 38 pisos, principalmente nas Avenidas Nossa Senhora de Fátima, General Humberto Delgado e da Comunidade Europeia. Encontram-se ainda em fase de projeto, nove arruamentos, incluindo em zonas fora da cidade.

Este tipo de superfície, que se caracteriza pelas suas faixas em alto relevo, tem como objetivo principal auxiliar a circulação de pessoas com deficiência visual, permitindo-lhes uma mais fácil identificação dos locais de passagem para peões.

O Município pretende, assim, criar melhores condições de mobilidade a todos os cidadãos, contribuindo para a eliminação de barreiras arquitetónicas.

Não há pandemia que pare os concertos para bebés do maestro Paulo Lameiro


Dos Pousos para o resto do mundo – os Concertos Para Bebés organizados por Paulo Lameiro vão continuar, desta vez em formato streaming. A Musicalmente, promotora fundada pelo maestro leiriense, vai transmitir os concertos a partir da sua sede já a partir deste domingo, às 11h. Bebés em Transe será o tema do primeiro espetáculo, que terá como solista Daniel Reis.

“Os bebés não sabem o que é o COVID 19, e não compreenderiam porque não se realizam os seus concertos este fim de semana”, refere um comunicado da empresa, que tem apresentado regularmente espetáculos nos teatros Stephens (Marinha Grande) ou Miguel Franco (Leiria), no Convento de São Francisco (Coimbra), ou no Centro Cultural Olga Cadaval (Sintra).

Se quiser assistir à transmissão dos espetáculos basta enviar um e-mail até às 10h de domingo para producao@musicalmente.pt, recebendo também um guia para “preparar o melhor ambiente em vossas casas que permita intensificar esta experiência com os vossos bebés”.

Quanto aos Concertos Para Bebés que foram adiados, a promotora informa que o reembolso do valor dos bilhetes pode ser feito contatando as bilheteiras das salas onde se realizariam. No caso de terem sido comprados através da Ticketline.pt, o reembolso deverá ser solicitado para o endereço ticketline@ticketline.pt.

Super Bock traz Surma à Stereogun com bilhetes ao preço de uma caneca


O circuito Super Bock Super Nova volta à Stereogun a 14 de Março, uma passagem marcada pelo regresso de Surma a Leiria. A mostra de talentos emergentes da música portuguesa serve de oportunidade para ouvir ao vivo as músicas do novo EP do projeto de Débora Umbelino, editado em novembro.

 

 

O Super Bock Super Nova vai na sétima edição e é organizado pela cervejeira em colaboração com a associação portuense Maus Hábitos. A caminho de Braga e depois de ter passado por Porto, Viseu, Vila Real e Beja, o evento desvia-se de Lisboa, apostando na descentralização. Os bilhetes custam três euros e incluem a oferta de duas cervejas.      

A acompanhar a artista leiriense está IVY, projeto a solo de Rita Sampaio, que vem apresentar “Over and Out”, editado no ano passado. Íntimo, soturno e povoado por teclados e sintetizadores, o disco da ex-vocalista dos Grandfather’s House também foi influenciado por Leiria, através de um retiro da artista bracarense na CASOTA dos First Breath After Coma, que ajudaram na sua produção.

Os Meera são o resultado da junção de Jonny Abbey (músico e produtor), Cecília (vocalista e baterista) e Goldmatique (produtor). Absorveram o que de melhor se fez na soul e disco dos anos 70, para fazer um som gingão, de linhas de baixo saltitante, com sintetizadores animados que prometem devolver o sufixo apropriado à pista da Stereogun.

 

Mitea Bar – o Bubble Tea chega a Leiria acompanhado por doces e iguarias orientais


Escrito por: Fotografia por:
Sónia Pereira
Sónia Pereira
                       

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    Bubble Tea, Mochi ou Bolas de Arroz Pegajoso são nomes de especialidades exóticas, cuja degustação exigia ora um voo para oriente ora a sorte de se ter uma família inter-racial, com um elemento que soubesse cozinhar à moda de Pequim ou Taipé. Ou pelo menos muita curiosidade na preparação de receitas orientais.

    Graças ao Sr. Ji, estas iguarias já se podem degustar na Rua Machado dos Santos, nas traseiras do mercado de Santana, mesmo em frente à Casa do Benfica de Leiria.

    O Sr. Ji diz que o seu apelido “ia ser uma coisa difícil de escrever”. Após alguma insistência, aceitámos a sua decisão, mas com a ressalva de lhe pormos o título de “senhor” antes do nome próprio, mesmo que o proprietário do Mitea Bar tenha menos de 30 anos de idade. Ele concorda, possivelmente depois de ter concluído que estamos apaixonados por sílabas, e começa a dizer-nos em que consiste o Bubble Tea – a especialidade da casa – “A bebida nasceu em Taiwan e é uma mistura de chá, leite, extrato de frutas e adoçante natural. Pode ser bebido quente, mas a maioria das pessoas prefere a versão gelada, especialmente no verão”. O refresco pode levar chá preto, verde e matcha ou manga, baunilha, melão, banana, inhame e feijão vermelho. Experimentámos a variedade original gelada, que confirma a presença do chá preto, com o travo da teína a misturar-se com a consistência do leite, com um resultado muito refrescante.

    O proprietário do Mitea Bar nasceu em Wenzhou, cidade do leste da China com quase tantos habitantes como Portugal. Vive em Leiria desde 2010, ano em que os pais decidiram emigrar para abrir um bazar chinês na Rua Paulo VI. Uma família chinesa vir quase dos antípodas para abrir uma loja na “Calçada do Bravo” confirma a impressão de o mundo ser do tamanho de uma casca de noz; mas agradecemos a vinda e o facto de, dez anos depois, Ji se ter estabelecido por conta própria com o Mitea.

    A sua estratégia para o “snack-bar” está bem delineada – “não quis abrir um restaurante chinês com pratos iguais aos que os outros servem. Por isso, decidi apostar nos doces, como o Mochi ou as Bolas de Arroz Pegajoso; no Bubble Tea e restantes chás de sabores; nos iogurtes com frutas; waffles e granizados. Mas, também, temos menus para almoço ou jantar”.

    Mochi é uma sobremesa de mistura de farinhas de trigo e arroz com pasta de feijão vermelho que no Mitea Bar é normalmente enfeitada com topping de bolacha de Oreo desfeita. Já as Bolas de Arroz Pegajoso também levam farinha de arroz, mas misturada com leite de coco e açúcar mascavado. Quanto aos granizados, há-os de todas as castas de sabores – da goiaba ao mirtilo, passando pela framboesa, líchia, kiwi ou maracujá, além dos sabores mais “tradicionais”.

    Como nem só de doces vive o Mitea, também se podem aproveitar os menus de almoço e jantar, que têm preços médios de 8 euros e servem especialidades como Massa de Wudong Salteada com carne de frango, porco, vaca ou marisco; giozas; Espetadas de Coração de Frango; Carne de Vaca Picante salteada ou Asas de Frango com Molho Coreano – “quisemos aproveitar a lacuna de não haver um KFC em Leiria. E os estudantes gostam especialmente das nossas asas de frango”, acrescenta o proprietário.

    O Mitea Bar está aberto todos os dias das 11:30 até às 23:00.
    Os pagamentos por Multibanco não estão disponíveis.