Crítica: Dois Perfeitos Estranhos ou a fábula brutal dos tempos raciais que vivemos


A curta metragem está indicada aos Óscares e não é difícil perceber o porquê. A crítica construtiva a Dois Perfeitos Estranhos, a nova ficção da Netflix.

Se há mensagens subliminares que devemos tirar dos filmes, algo que possamos refletir e mudar a nossa mentalidade, eu, na perspetiva de um “homem branco privilegiado”, consegui sentir tudo isto em apenas 30 minutos de Dois Perfeitos Estranhos, a nova curta em streaming da Netflix.

Desde o dia 9 de abril na plataforma, esta curta metragem foi esquematizada com um propósito muito subtil de nos relacionarmos com algo que é mais evidente e “promovido” nos últimos anos: o racismo. E a verdade é que é impossível ficar indiferente à brutalidade que se passa sucessivamente – sim, porque o argumento da história está centrado na repetição de tempo, também conhecido como looping. Um filme que faz lembrar o mítico “O Feitiço do Tempo” ou os recentes “Boneca Russa” ou “Palm Springs”. Porém, aqui o assunto é tão sério que não há espaço para qualquer tipo de comédia.

O rapper Joey Bada$$ interpreta Carter James, um cartoonista afro-americano que acorda na cama de uma mulher desconhecida, que se afigura ter sido uma one night stand. O objetivo da personagem principal é bastante simples: despachar-se para conseguir ir passear o seu cão. Mas, à saída do apartamento e após um mal entendido, um polícia branco interpela-o e age agressivamente acusando a personagem de vender drogas. Como Carter tenta resistir, o polícia age de uma maneira completamente visceral apertando-lhe o pescoço. A personagem só consegue dizer “I can’t breath”, morrendo segundos depois.

As referências são mais que óbvias à situação racial que fez ecoar todo o mundo nas palavras desvanecidas de George Floyd, no momento em que a polícia não controlava a sua fúria e lhe acabaria por tirar a vida…

Voltando ao filme, após a sua “primeira morte” acorda exatamente no mesmo sítio, na mesma cama e com as situações a acontecerem-lhe repetidamente. O que infelizmente também se repete são diferentes formas de o polícia lhe continuar a intercalar, agredir e acabar por matá-lo uma e outra vez.

Uma curta metragem pesada, que vai ganhando forma à medida que Carter James tenta arranjar novas formas de sobreviver!

 

Esta curta metragem está indicada ao prémio de melhor Óscar na categoria com o mesmo nome. E é certo que num ano de 2020 completamente atípico, vença uma história tão pertinente neste mesmo ano!

 

Classificação TIL: 8,5 / 10