Rita de Carvalho, psicóloga clínica – “Se com tudo isto não aprendermos a ser pessoas melhores, então precisamos de questionar as nossas capacidades de aprendizagem”


Rita de Carvalho é psicóloga clínica e, além de especialista na saúde mental de adultos, crianças e adolescentes, também trabalha em avaliação psicológica e emocional. Conversou com a TIL sobre medos, ansiedades e formas de gerir o isolamento causado pela COVID-19. E como este deve ser um momento de reflexão para o futuro.

  • Temos visto este esforço de confinamento ser apresentado de forma simplista nas redes sociais. Compara-se esta crise, onde as pessoas só têm de “ficar sentadas no sofá” com outras crises da história, que geralmente envolviam guerras. Custa mais ao ser humano fazer uma coisa realmente muito difícil, como combater uma guerra, ou ficar em casa sem fazer “nada”?

Ainda que possam parecer situações muito diferentes, há algo que têm em comum. Apesar de estarmos perante um fenómeno biológico, este não deixa de ter uma componente humana, de também ser uma consequência dos nossos actos ao longo dos tempos. Mas acima de tudo, a maior guerra está a ser a de valores. Este é, e será, o momento em que as pessoas podem vir a questionar tudo e todos de uma forma reflexiva e por sinal, bastante evolutiva. Se com tudo isto não aprendermos a ser pessoas melhores, então precisamos de questionar as nossas capacidades de aprendizagem.

O ficar em casa sem fazer nada é muito subjetivo. Na verdade, todos os dias temos profissionais de saúde, operadores de supermercado, seguranças, forças policiais, vendedores, empregados de limpeza, entre outros, a irem para a “guerra”. A esses não lhes foi pedido que ficassem no sofá! Noutras crises da história que envolveram guerras, os maridos iam para a frente e as mulheres ficavam em casa a tomar conta dos filhos. Nesta guerra, há muitos pais que nem com os filhos estão, e muitos maridos que deixaram de ver as esposas, como forma de se protegerem. Também não lhes foi pedido que ficassem no sofá. Apesar de biológica, esta não deixa de ser uma guerra. E o objetivo é comum a muitos outros momentos da história – a vitória.

  • Quais são as melhores estratégias para uma pessoa se sentir viva, dentro de quatro paredes, ao longo do dia? Será o estabelecimento de rotinas, por exemplo?

As rotinas são extremamente importantes. Ainda que esta possa ser uma fase transitória das nossas vidas, é importante que as pessoas se adaptem, adotando uma nova rotina – quer em termos pessoais, quer em termos relacionais. O que distingue esta crise é a facilidade que temos em manter contacto com aqueles que nos são mais significativos. Estar dentro de quatro paredes não precisa de ser sinónimo de estar isolado do mundo. Essa questão não se coloca. É tempo de aproveitarmos para fazermos aquilo que dizíamos nunca ter tempo para fazer. É altura de nos reinventarmos, ainda que o possamos fazer na nossa zona de conforto, o nosso cérebro é absolutamente fantástico sempre que o conseguimos usar a nosso favor.

É importante assumirmos que tudo isto é uma fase que se faz necessária, e que, quer queiramos quer não, temos de nos submeter a ela. Enquanto isso, podemos e devemos perspetivar o futuro, imaginando coisas que gostaríamos de colocar em prática assim que tudo isto terminar. Quatro paredes não precisam de ser sinónimo de ficar o dia todo de pijama. Não tem de ser, nem deve ser. Devemos tratar de nós da mesma forma que trataríamos antes da pandemia. Devemos investir em nós, sobretudo intelectualmente, mas para isso é necessário que nos disponibilizemos a que tal aconteça. É tempo de apostar em formações, na aprendizagem online, na matéria familiar, refletir sobre o que é bom e menos bom, sobre os que nos são mais ou menos significativos, sobre os bons tempos que passámos juntos e o que fazíamos quando éramos felizes e não sabíamos. Há uma infinidade de coisas capazes de amenizar a angústia a que este vírus nos submeteu.

  • Pensar que ao nos isolarmos, estamos a prevenir a disseminação da doença é uma boa estratégia para lidar com o confinamento?

Claro que sim. O confinamento é sobretudo uma responsabilidade social. E a verdade é que ninguém deseja estar rodeado de quadro paredes de forma involuntária. Acima de tudo, este confinamento pode e deve ser visto como um ato de consciência. É esta que leva as pessoas a adotarem determinado tipo de comportamentos. E é também a falta dessa mesma consciência que conduz as pessoas ao não confinamento, exceto nos casos em que tenham de continuar a exercer a sua atividade fora de casa.

“Quatro paredes não precisam de ser sinónimo de ficar o dia todo de pijama. Não tem de ser, nem deve ser. Devemos tratar de nós da mesma forma que trataríamos antes da pandemia. Devemos investir em nós, sobretudo intelectualmente […] refletir sobre o que é bom e menos bom, sobre os que nos são mais ou menos significativos, sobre os bons tempos que passámos juntos e o que fazíamos quando éramos felizes e não sabíamos”

 

  • Os media ficaram monotemáticos – temos telejornais de mais de 1h30m onde o único assunto é a COVID-19. Será a altura certa para passarmos a fazer uma gestão mais saudável da forma como consumimos informação?

Penso que as pessoas já começaram a perceber o impacto da informação no dia a dia. Claro que é importante mantermo-nos informados. Ainda assim, é mais importante sermos contidos na forma como processamos essa mesma informação. Uma coisa é estarmos informados, outra coisa é absorvermos o noticiário de forma excessiva e abusiva. Há que conter e sobretudo limitar o tempo que dedicamos aos telejornais, fazer uma gestão saudável. Não precisamos de estar sempre atrás da informação, ela própria tem o poder de chegar até nós. O que é importante acaba por ser partilhado vezes sem conta, e repete-se sem qualquer tipo de contenção. Os telejornais assumem o seu papel, e nós enquanto seres humanos que precisamos de preservar a nossa saúde mental, teremos de assumir o nosso.

  • O pânico, que se manifestou através do açambarcamento, é uma reação de grupo expectável? Pensa que pode voltar a manifestar-se, ou as pessoas já entenderam que não é necessário correr aos supermercados, que a cadeia de abastecimento está garantida?

O pânico não foi imediato e não foi um ato isolado. Foi consequência da forma como os media transmitiram as notícias. Num dia o vírus não chegaria a Portugal, e no “dia seguinte” já tínhamos o primeiro caso confirmado no País.

Claro que tudo isto gerou confusão, dúvidas e inúmeros questionamentos, assim como a imagem de um povo desacreditado e desconfiado com base em acontecimentos anteriores. Enquanto chegavam as primeiras noticias a Portugal, já existiam imagens de outros países com “atropelamentos” em redes de abastecimento. Claro que este tipo de imagens conduz a um tipo de pensamento alarmista. A sensação era a de que de repente o país e o mundo podiam parar, e o ser humano quando se permite descansar das necessidades secundárias e supérfluas, recorre às necessidades básicas, àquelas que são essenciais à sua sobrevivência. De acordo com as mensagens e telefonemas que me têm chegado, esta não tem representado uma preocupação. Penso que as pessoas já perceberam que os bens essenciais são algo dado como garantido.

“Claro que é importante mantermo-nos informados, ainda assim, é mais importante ainda sermos contidos na forma como processamos essa mesma informação. Uma coisa é estarmos informados, outra coisa é absorvermos o noticiário de forma excessiva e abusiva”

 

  • Os americanos têm uma expressão – cabin fever – para designar o choque que se dá entre membros de um grupo de pessoas, como uma família, quando vive demasiado tempo em reclusão. O que é que as famílias podem fazer para atenuar esse tipo de efeitos?

O problema das famílias vai de encontro à crise de valores que já referi anteriormente. A maior parte das famílias, devido à azáfama do dia a dia, foram-se esquecendo ao longo do tempo como era viver no seio familiar. Ninguém ia prever que este dia ia chegar – que o dia em que as pessoas se iam ver obrigadas a conviver umas com as outras, 24 horas por dia, ia representar um desafio. Não era suposto ser visto como uma obrigação, mas as prioridades fora deste contexto é que deram significado ao termo “obrigação”. É aqui que mais uma vez, entra o tempo e o termo da reflexão. De reaprendermos a conviver com aqueles que estiveram e estão lá todos os dias, percebendo que para além deste seio existe muito pouco, e que esta é, sem duvida alguma, a base de tudo. O ser humano, enquanto ser individual, precisa de se reinventar para que no seio familiar a reinvenção também aconteça.

As pessoas reclamavam das rotinas, referiam que as relações terminavam porque entravam num circulo vicioso, e agora é o momento oportuno para perceber que essas rotinas eram a nossa vida normal; que as rotinas em modo de quarentena é que são as “desajustadas”, mas absolutamente necessárias.

  • Outra questão que se coloca é o oposto: a solidão. Será que estávamos a educar indivíduos com capacidade para enfrentar períodos em que estivessem sozinhos sem se sentirem solitários?

Os tempos que nos sucedem não são certamente os melhores em termos de saúde mental. As pessoas não estavam preparadas para algo desta dimensão. No seu dia a dia viviam de acordo com o que viam, deixando para segundo plano aquilo que sentiam, não davam espaço às emoções. Muitas achavam que estavam bem, mesmo não estando; e muitas estavam bem sem terem consciência disso. A diferença é que o isolamento anterior era voluntário.

Toda esta incerteza, a obrigação de isolamento em termos sociais e os riscos de contaminação, podem vir a agravar ou a gerar alguns problemas ao nível da saúde mental. Os níveis de ansiedade têm vindo a aumentar de forma significativa. Por isso, mais do que nunca, é importante estarmos atentos à saúde mental da população, e este impacto será tanto menor quanto maior a capacidade de quem nos governa arranjar soluções para as várias insuficiências de forma a evitar a rutura dos serviços de saúde públicos. Também precisamos de estar preparados para a crise que se sucede, a económica, e para essa vamos precisar de saúde mental.

“O problema das famílias vai de encontro à crise de valores que já referi anteriormente. A maior parte das famílias, devido à azáfama do dia a dia, foram-se esquecendo ao longo do tempo como era viver no seio familiar. Ninguém ia prever que um dia este dia ia chegar – que o dia em que as pessoas se iam ver obrigadas a voltar a conviver umas com as outras, 24 horas por dia, ia representar um desafio”

 

  • Quem vive sozinho deve manter mais contacto online para se sentir são/útil?

Claro que sim. Todo e qualquer contacto que faça sentido para a pessoa deve ser mantido. A utilidade é relativa, o mais importante nesta questão é o fator valorização. É normal que as pessoas se sintam mais sozinhas, estando muitas delas afastadas de quem mais gostam, apresentando sentimentos de frustração e de tédio, por se sentirem incapazes de realizar aquelas que eram as suas rotinas habituais, sendo de extrema importância não só manterem esses contactos, como também manterem horários de descanso e de sono, praticando atividade física de acordo com o permitido e possível e fazendo uma alimentação equilibrada e cuidada.

Mais do que nunca as pessoas precisam de sentir que são importantes e para quem são importantes; que os outros sentem a sua falta e que agora têm tempo para se aproximarem daqueles com quem nunca tinham tempo para estar. Ou talvez não tivessem disponibilidade. Tenho-me apercebido de casos que me chegam via tele medicina, em que as pessoas se submetiam a isolamento voluntário. Agora perante um isolamento involuntário, de acordo com o aumento da fragilidade, do medo e da incerteza, a necessidade de se manterem em contacto com colegas, amigos ou familiares, parece ter vindo a aumentar.

Sempre que possível é importante a realização de atividades prazerosas sem nunca esquecer que o confinamento é uma medida temporária.

  • O que acha que pode vir a criar maior ansiedade – enfrentar o isolamento, ou o seu rescaldo, especialmente no que diz respeito à questão da economia?

Parece-me que ambas as situações são indissociáveis. O isolamento acaba por combinar com um tempo de reflexão e como tal, não é possível viver o isolamento sem considerar a questão económica. Os portugueses já faziam contas, agora mais contas estão a fazer. Ainda assim, com o aumento do numero de casos em isolamento profilático, o medo, a preocupação e a ansiedade aumentam proporcionalmente. À medida que esta situação for evoluindo positivamente, e assim que os dias da normalidade estiverem mais próximos para todos nós, a questão económica vai ser cada vez mais considerada e vai ter um grande impacto em termos de saúde mental.

Por isso é que referi anteriormente que mais do que nunca vamos precisar de saúde mental para conseguirmos combater a crise que se adivinha e avizinhará. O rescaldo é o momento em que tudo parece já estar resolvido, mas surgem todos aqueles se’s até aí adormecidos.

  • Será que depois desta situação as pessoas irão valorizar o cara a cara e deixar os gadgets mais de parte?

Ainda que queira acreditar que sim, temo que possa ser algo temporário. O facto de as pessoas estarem dentro de casa a consumir tecnologia pode fazer com que esse nível de consumismo aumente mais ainda.

Ao mesmo tempo que as pessoas não estavam preparadas para algo desta dimensão, já estavam bastante familiarizadas com a questão das redes sociais, sendo que muitas das vezes estas se sobrepunham. Tudo dependerá da forma como as pessoas aproveitarem este tempo. O que fizerem com o tempo é que poderá fazer toda a diferença. Conforme sabemos, a tecnologia permite-nos chegar a pontos muito diferentes – estar uma hora a fazer uso de um computador para criar conhecimento é completamente diferente de estar uma hora a navegar as redes sociais. Em termos psicológicos faz toda a diferença, sendo que o primeiro pode ser evolutivo e acrescentar algo ao indivíduo, e o segundo pode ser deprimente (conforme se tem vindo a comprovar ao longo dos tempos).

“O rescaldo é o momento em que tudo parece já estar resolvido, mas surgem todos aqueles se’s até aí adormecidos”

 

  • Acha que estes podem ser tempos conturbados para os artistas, tendo em conta que há menos fontes de inspiração à vista?

Pelo contrário. Parece-me que para quem cria, este pode ser um autêntico desabrochar de novas ideias (já todos nós tivemos oportunidade de visualizar algumas criações repletas de lógica e emoções), e mais uma vez tudo dependerá da forma como irão aproveitar este tempo. O que vão fazer com ele. Há quem não possa parar em casa, mas a todos os que assim se viram obrigados, hoje em dia podem chegar a quase todas as casas, tudo depende das asas que derem à imaginação. Já todos devem ter tido a oportunidade de ver concertos online; makeups; aulas de guitarra; trabalhos manuais e outros, aqui a grande preocupação passa sobretudo pelos apoios em termos económicos, em especial, para os artistas – e esse sim, pode ser um fator desmotivacional. Mas uma coisa é certa, parados valemos menos!

“O facto de as pessoas estarem dentro de casa a consumir tecnologia, pode fazer com que esse mesmo nível de consumismo possa vir a aumentar mais ainda”

 

  • Os portugueses têm sido apontados por alguma imprensa internacional como exemplo de um povo cumpridor das regras do recolhimento. Em jeito de psicologia de grupo, será que ainda somos o povo do “respeitinho”, por termos vivido quase meio século sob o jugo paternalista de uma ditadura, ou é tudo uma questão de bom-senso?

O povo português sempre foi um povo com necessidade de ficar bem na fotografia. Sobretudo quem nos governa. Ficar bem sempre foi e sempre será um posto. Quero acreditar que os dados que nos chegam são reais, mas ainda assim o “respeitinho” não é geral. Ainda há quem goste de desafiar as normas, de criar a imagem do engraçadinho ou do corajoso que foi para a rua desafiar os mais frágeis e menos informados. O bom senso também é relativo, existe realmente quem o tenha, mas também existe a versão do “faço porque ele faz e se ele faz é porque eu também devo fazer”.

Existe um pouco de tudo, e ao longo das décadas conseguimos perceber como somos um povo de influências e de modas. O melhor exemplo é o das máscaras. Até para sairmos de máscara precisamos de ir bonitos? Com uma máscara cheia de bonecos ou borboletas? Estamos a falar de prevenção ou de moda? Ou bem que nos protegemos e respeitamos todos aqueles que estão em confinamento e isolamento, ou não estaremos a falar de um esforço comum e muito menos de bom senso! Há que olhar para o outro na mesma medida em que olhamos para nós. Mais do que nunca precisamos de ser o que nunca fomos, na medida em que conseguimos dar o que nunca demos.

  • Há quem imagine um cenário para rescaldo desta situação em que vamos ficar mais próximos enquanto seres humanos, mais dispostos a combater desigualdades económicas, ou que vamos respeitar mais o planeta. Pensa que este período, que se espera ser breve, vai deixar marcas positivas?

Quero acreditar que sim, mas penso que não será geral. Aqueles que vão aprender mais com isto serão os que foram para a linha da frente, que contactaram com o inevitável. A dada altura, penso que muitas pessoas vão ter de se adaptar, descendo alguns degraus, e talvez nessa altura adquiram a capacidade de olhar mais o outro em termos humanos, e menos em termos materialistas.

Ainda assim é preciso ter um nível mínimo de consciência. Aqueles que não o tinham, dificilmente o vão ter, contudo acredito profundamente que muitos serão uma versão melhor deles próprios – refiro-me àqueles que adotaram a responsabilidade social e humana, que estão a olhar para este tempo como um momento de reflexão e reinvenção. Dos inconscientes pouco espero, a não ser que o período não seja assim tão breve e que tenham de mudar não por uma questão de exigência, mas por uma questão de necessidade e sobrevivência.