Crítica: Em Normal People a luta de classes também é o motor da história


Reflexão sobre as relações modernas, Normal People adapta à televisão o premiado romance de Sally Rooney, que valeu à escritora irlandesa de 27 anos a nomeação para um Booker Prize.

Em “capítulos” de meia-hora seguimos a complexa e intermitente relação entre Marianne  e Connell, desde o final do ensino secundário na pacata vila irlandesa onde cresceram até ao mundo universitário de Dublin, onde ambos prosseguem os estudos numa universidade de elite.

Connell (Paul Mescal) é um aluno muito inteligente, bem-parecido e bastante “popular”, que é colega de turma de Marianne (Daisy Edgar-Jones), com quem acaba por se envolver romanticamente. A protagonista cresceu numa casa conhecida por “a mansão”, onde Lorraine (Sarah Greene), a mãe de Connell, trabalha como empregada doméstica. Mãe solteira, Lorraine tem com o filho uma relação próxima, ao contrário de Marianne, que cresceu numa família onde escasseia o afeto.

Apesar de ser tão bem-sucedida nos estudos quanto Connell, a protagonista não é considerada bonita pelos colegas, que também a consideram intimidante e confrontativa. Como as equações de corredor de liceu não têm incógnita, Marianne está longe de ser considerada “popular”, o que faz com que Connell esconda a relação que ambos mantêm. 

Chegados a Dublin, os papéis invertem-se e Connell, o rapaz com sotaque de província que vem de uma vila longínqua tem pela primeira vez de lutar para se integrar, rodeado pelas calças-chino e mocassins dos filhos da elite irlandesa. Já Marianne está no seu “meio” e floresce, acolhida por um grupo de amigos intelectuais. É ela quem ajuda Connell a sentir-se acolhido, e durante os quatro anos seguintes acompanhamos a evolução do seu relacionamento, melhores amigos um do outro nos momentos em que não tentam ser um casal. 

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Sally Rooney também é argumentista desta versão televisiva do seu livro, uma coprodução entre a BBC e o serviço de streaming Hulu. O seu estilo já foi descrito como “Jane Austen para millenials”, comparando-a com a escritora inglesa do início de século XIX exímia em documentar as dinâmicas de poder nas relações entre homens e mulheres. Esta capacidade de integrar questões de status e elitismo nas relações amorosas ajuda a que Normal People ultrapasse a previsibilidade do drama adolescente ou de corredor de liceu.

Realizada por Lenny Abrahamsson e Hettie Macdonald, a série perde, contudo,  por se manter excessivamente fiel ao livro durante os episódios iniciais, focando-se demasiado nos protagonistas. Mesmo que a banda-sonora (com temas de Nick Drake, Elliott Smith ou Tycho) seja muito bem aproveitada e as cenas de nudez nada gratuitas e filmadas com gosto, as restantes personagens deveriam ter maior tempo de ecrã. A literatura permite apartes e contextualizações que os produtores evitaram numa versão filmada, mas que fazem falta para não gerar alguma claustrofobia ao espetador.

Ultrapassada essa reserva inicial, a série acaba por se revelar uma boa história de entrada na vida adulta, com o seu tom alternando entre sensibilidade e aspereza (não fosse Abrahamsson o realizador do consagrado Quarto, de 2015, um filme perfeito nesse equilíbrio). Tanto Daisy Edgar-Jones como Paul Mescal têm prestações imaculadas e sente-se a química entre ambos na interpretação de personagens por quem é fácil gerar empatia – seja com Connell, que encapota as dúvidas de um aspirante a escritor que estuda num milieu ao qual não pertence num manto de falsa segurança; ou com Marianne, alguém do lado favorável na questão do privilégio sócio-económico mas com uma infância e adolescência que são cicatrizes recentes, minando-lhe a autoestima enquanto passa de um relacionamento abusivo para o seguinte.

Além das questões de status, notoriedade ou “sucesso”, a narrativa de Normal People também é bem-sucedida em desvendar um primeiro amor que vai além da fugaz paixão adolescente, ao mesmo que nos faz imergir na psicologia das personagens pela forma empática com que deixam transparecer as suas fragilidades – parafraseando Karl Marx, além da “luta de classes”, esses são também os motores desta história.

 

Classificação TIL: 7/10