Crítica: The Literary Man – O restaurante do país com mais livros tem ainda mais sabor


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Óbidos e literatura são praticamente sinónimos. Eu, como criação de um dos melhores autores portugueses de sempre, não poderia deixar de visitar esta vila tremendamente singular.  

Já com as muralhas atrás de mim, e com o sabor a ginja no palato, deparo-me com um edifício inusitado e faço o que qualquer jovem faria: pesquiso no meu smartphone do que se trata (posso ser conservador, mas há modernices que dão muito jeito). Aí descubro que se trata de The Literary Man Óbidos Hotel.

A decisão de entrar foi altamente encorajada por outras razões que gastronómicas, pois é através das fotografias que nos apercebemos que esta não é uma casa qualquer: há livros por todo o lado. Na verdade, são cerca de 45 mil exemplares espalhados pelas prateleiras, estantes e mesas de apoio, por todo o hotel.

Aliciado pelos livros, aventurei-me e sentei-me à mesa do Literary Restaurant; ou do Book & Cook – é meio esquizofrénico o restaurante, cujo nome ainda não consegui apurar… ainda bem que têm pratos alusivos à obra de Fernando Pessoa.

Nesta que é a maior biblioteca dentro de uma unidade hoteleira em Portugal, o impacto visual dos livros é partilhado com o dos pratos. Por isso, foi com muita satisfação que pude confirmar que o sabor dos pitéus no Literary Man Óbidos Hotel é tão intenso como aparentam.

A carta apresenta títulos a rigor, com nomes de grandes obras nacionais e mundiais e outras mais duvidosas (não, não me apanham a pedir um prato baptizado com um dos romances do José Rodrigues dos Santos). Por isso, voltei-me para os clássicos: Portugal Contemporâneo, de Oliveira Martins e Orgulho e Preconceito, de Jane Austen.

E que é que isto quer mesmo dizer?

 

O primeiro trata-se de Lombo de Bacalhau no Kamado com Brás de Azeitona e o segundo de Barriga de Leitão com tomate confitado. E estavam ambos espetaculares! Menos interessante estava a entrada, mas também ninguém me mandou pedir uma obra do Miguel Sousa Tavares; em Equador, há Mini Pregos de Camarão grelhado – quantidade é boa, a qualidade está abaixo dos pratos principais (outra coisa não era de esperar de um calhamaço). Mais valia ter optado por A Mensagem, que nunca desilude.

 

                            

O atendimento entre a troca de pratos é muito cordial e atencioso, condizente com o ambiente no espaço. Se bem que tive a oportunidade de ser atendido por dois profissionais com abordagens muito diferentes. O principal, que me pareceu chefe de sala, muita qualidade no serviço de mesa apresenta; já um segundo, com responsabilidades de levantar mesa, aparentava falta de formação na restauração – talvez por isso depois o encontrei ao telefone na recepção.

Para saciar a minha indelével vontade inebriante, optei por um fresco que conjugasse tanto com camarão, bacalhau e leitão. A escolha recaiu para um branco nada caro e tão bom que cujo nome não me ocorre.

Por fim, valeu ainda a pena ir até ao gin bar, ainda dentro do mesmo edifício. Ali, há livros até ao tecto mas não se deixem enganar: muitos são repetidos e outros de qualidade, no mínimo, duvidosa. De qualquer das formas, há literatura da boa disponível, tal como uma variada carta de gins.

Já agora, não sei se por estar habituado a grandes repastos em Paris e proporcionais contas, achei bastante acessível, dada a qualidade e quantidade dos pratos, o valor final a pagar. Por isso, recomendo bastante a ida a este espaço, caso o objetivo seja sofisticação, requinte e singularidade.

 

Nota Basilar: 8,5/10

Crítica: O Chico Esperto da Praça Rodrigues Lobo

Chico Lobo

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O nosso Primo Basílio tem os seus gostos e feitios muito bem vincados e, por isso, não gosta de surpresas. Esta foi a sua experiência no gastropub Chico Lobo.

Entrar no Chico Lobo é como entrar noutra casa qualquer que seja bem decorada, com intensidade de luz ideal e música catchapum no ar, ao som da qual é sempre possível trautear “panados com pão” (é mesmo verdade – ouse experimentar) e também ter algumas dores de cabeça.

Tomada a corajosa decisão de sentar (só vai quem quer, claro), é com gosto que se bebem, neste já consagrado espaço, bons refrescos alcoólicos, como gin, mojito e cerveja da boa tirada no momento – sim, estou a pensar numa Erdinger fresquinha.

Abertas as hostilidades, nem se pensa duas vezes: “Mais uma rodada, por favor”; e eis então que surge o diálogo da noite.

– Qual era o gin?
– Hendricks com citrinos
– Tem mesmo de ser Hendricks?
– Sim.

Calma, caro leitor que já imagino em sobressalto – “O quê? Hendricks com citrinos?? Mas está-se tudo a passar, ou quê? Não chega já 2020 ser o que é… vai-se agora pedir Hendricks com aromas de laranja e/ou limão quando toda a gente sabe que é com pepino!” Foi nisto que pensou quando leu o curto diálogo, certo? Não? Oh diabo! Tem de se educar!

Felizmente, não foi preciso perguntar “Há algum professor na sala?”. Ele estava atrás do balcão, a fazer gins.

Por isso, ao ser-lhe passado o pedido, e qual paladino da mixologia centenária do pairing do gin com o aroma perfeito, o inteligente educador não deixou escapar a oportunidade, ao ter o presumível desabafo mental: espera lá que já te digo. Vais beber um gin desta qualidade porque este é que casa com citrinos e assim é que é.

Chegado o santo graal à mesa, é notória a diferença em relação ao antecessor. O gin é diferente. Não há volta a dar; prova-se uma, duas, três vezes. Não sabe ao mesmo.

O que fazer nesta situação? Depende sempre do humor, não é? Já diz o ditado: Muitas vezes engolimos; outras queremos mesmo é Hendricks.

Portanto, como escudeiros insensatos em defesa do paladar e gosto pessoal (haverá outro?), decidiu-se indagar o mixologista valente sobre a qualidade (tipo) do gin.
– É Hendricks – diz, com máscara no queixo, que é onde os jovens radicais a usam
– Olhe que não.
– Olhe que sim, que fui eu que o fiz – diz, já exaltado
– Olhe que não tem nada a ver com o primeiro e a pergunta inicial até deu a entender que já não havia.
– O meu colega terá perguntado isso porque não fica bem Hendricks com citrinos e nós tentamos… pronto… educar o cliente.
– Educar o cliente?
– Não vos estou a chamar burros mas eu tenho 3 cursos em Londres e até vos posso mostrar os certificados, o meu nome é Chico Esperto [o nome mencionado foi outro, o original, mas juro que foi isto que ouvi.]

Bem, não será necessário continuar em discurso direto para dizer que dali ao Chico ter ido buscar material para fazer o gin à nossa frente, depois de os perdigotos de exaltação me atingirem o braço (álcool gel para cima, logo), foi um ápice.

Agitado e já com uma atitude no limiar da agressividade (juro pelas minhas boas maneiras que achei que levava com uma garrafa na cabeça), continuava com uma prepotência daquelas que só se aprendem num curso de gin em Londres.  

Porém, há que ser justo e não se pode ilustrar falta de pedagogia do Chiquinho espertalhão: “Quando vou ao médico não lhe digo como tem de me curar”. Ele é que sabe. Portanto não venhas para cá pedir um gin desta maneira que eu é que sei.

Fez-me lembrar um icónico sketch do Gato Fedorento, que, em duas linhas, é assim:
– “Doutor, caiu-me um braço!”, constata, evidentemente, um paciente sem braço.
– “Mau! Mas quem é o médico aqui? Eu é que sei se lhe caiu um braço!”- atira com desconfiança o prestigiado doutor. – “Deixe cá ver isso.” – o Dr. vê – “Olhe, caiu-lhe um braço.”

Não deixa de ser curiosa esta ternurenta comparação com o médico: é para muita gente a entidade suprema, sobretudo para os chicos espertos, que sabem que nunca poderão ser assim tão inteligentes mas que dificilmente outros o serão também.

Ao longo desta surreal interação, interpelei sobre tal exaltação e agressividade, tendo recebido mais do mesmo de volta, mas com uma sugestão que não esperava: que se não estava a gostar, havia muitas casas em Leiria para frequentar.

Nesse momento, tive de aceitar ser educado pelo Chico Esperto e concordar em não voltar ao Chico Lobo.

 

Fotografia: Chico Lobo

Crítica: Cervejaria Imperial – uma casa de serviço bipolar


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O Primo Basílio além de sucesso nos romances, também se deixa levar pelas estradas do distrito. Desta vez  parou por Monte Redondo onde a qualidade dos produtos convenceu-o mais que o próprio serviço.

Nas minhas habituais deslocações à Figueira da Foz, percorrendo a Nacional 109, passo pela vila de Monte Redondo. Por muitos desconhecida – para mim também o era – deixou de ser por ali estar o café/cervejaria Imperial, de que desde cedo me tornei fã.

Sei que é um choque para muitos, pois não é em qualquer cadeira que me sento e muito me recordo dos bons repastos em Paris. Mas devo confessar que este é um espaço inusitado.

A primeira visita, já há largos anos, deixou-me surpreendido, pois vi dois imponentes cilindros de mil litros, para a cerveja (ao invés de barril), ali, numa pequena vila e já distante de Leiria; não resisti e ao mesmo tempo que pedia uma imperial, questionava-me sobre a necessidade de tal instalação. Porém, rapidamente me apercebi da qualidade da tiragem, do sabor da cerveja e da saída que tinha.

Lembro-me de que numa segunda passagem (a uma sexta-feira), por volta das 19h, o parque de estacionamento estava cheio. A curiosidade e boa experiência anterior levaram-me a parar. Lá consegui estacionar e… outra surpresa: amendoins por todo lado e… cascas no chão, propositadamente! Nunca vira igual… Mas que grande ambiente que ali se instalara!

À medida que o tempo foi passando, tornei-me cliente habitual. E não podia deixar de notar pequenas e constantes remodelações, tal como de me aperceber de novas contratações para o staff.

A dada altura torna-se então evidente uma intenção de ser mais do que o café da vila, e de implementar um serviço mais vocacionado para a restauração. Para isso, além dos saborosos petiscos sempre disponíveis e do marisco à quinta-feira, começam a servir-se bifes – estilo steakhouse – com diferentes preparações.

Até aqui, continuava a usufruir de um serviço eficaz e bastante comercial (é de agradecer neste tipo de casas – o cliente nunca deve ter o copo vazio), mas também mais rotação/substituição na equipa de sala.

Passados alguns meses, o acto foi consumado: o café deu lugar ao restaurante. Saboreio uma cerveja enquanto noto que contrasta com mesas postas uma ausência daquele ambiente heterogéneo, tantos dos velhos da raspadinha como dos trabalhadores que ao final do dia ali se refrescavam com uma inigualável imperial. Afinal, não se pode ter tudo, não é?

A certo dia, regressando dos meus negócios na Figueira da Foz, lá parei, antes de seguir para Leiria. Surpresa! A casa agora oferece bifes de qualidade superior – carne Angus. E constato a novidade ao ver umas imponentes costeletas cruas a serem apresentadas ao cliente.

Naturalmente, também quis provar; e ainda antes do confinamento, ali jantei com Alphonsine, pois não se desfruta duma costeleta daquelas sozinho.

Uma noite memorável: tábua de presunto e queijos cortado no momento para entrada e costeletas Angus, no seu ponto, acompanhadas de um bom vinho, sem esquecer as duas imperiais mal chegámos.

Quanto ao serviço, não foi mau, mas, sinceramente, e com tempo para apreciar certos movimentos, notaram-se alguns desencontros empregado/cliente, esperas prolongadas sem motivo aparente… não propriamente na nossa mesa, mas como facto generalizado.

Mais vezes fui parando para tomar imperiais únicas (experiente, mesmo!) e mais vezes me ia apercebendo que beber uma cerveja não bastava para ter um bom serviço. Na verdade, a pouco e pouco o serviço indicava que outra pessoa merecia estar ali sentada mas, por alguma razão, não eu.

Porquê? Posso já ter ido a muitos restaurantes e ter visto casas a falir e a vingar, mas este deterioramento do serviço em contextos específicos é das poucas coisas que não consigo explicar.

Dito isto, chegamos àquela que foi e será a minha última visita, já numa reabertura pós-confinamento.

Ainda a vários metros e dentro do carro, vejo uma grande e agradável esplanada. Parei a viatura no parque anexo (com a instalação da esplanada ficaram três ou quatro lugares de estacionamento frente ao local) e sento-me na esplanada. É mais uma nova cara a atender e a juntar-se às dezenas que por ali fui vendo.

Depois de muita insistência e persistência para ser atendido, saio, pela primeira vez, com a certeza de que o serviço não satisfaz, de todo.

Além de um certo desconforto pelas regras de segurança a aplicar e a falta de rigor que, ainda assim, estava habituado a ver no estabelecimento, a sincronização no serviço era terrível.

Os clientes não estavam a ser bem atendidos. Era um final de tarde e a afluência levou a que o serviço, que já estava em notas medíocres, descesse ao negativo – ao ponto de dar a sensação de que mais vale não pedir nada, mais vale não consumir, mais vale não visitar.

Casas assim não merecem qualquer tipo de cliente e, infelizmente, assim vi a transformação desta peculiar cervejaria abeirada de uma nacional num restaurante que falha tanto ou mais do que os outros.

Caro leitor que chega ao final deste texto, naturalmente pode não concordar com as opiniões aqui veiculadas. Até pode ser esta uma das suas casas preferidas, mas perdoe-me a ousadia: um estabelecimento que apenas é bom de vez em quando nunca atinge a excelência pretendida.

 

Nota Basilar: 5/10 (metade sustentada pela qualidade dos produtos)

Crítica: Restaurante Muralhas – vista para uns, delícias para outros

Restaurante Muralhas Leiria

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O Primo Basílio continua à descoberta dos melhores restaurantes para fazer as suas delicadas e boémias refeições. Desta vez escolheu o Restaurante Muralhas e nem só de vistas se deliciou…

Fora da cidade, o restaurante Muralhas ergue-se magnificamente para uma vista desafogada. Porém, antes há que saber onde colocar o veículo – e aqui lhe dou uma dica: ignore o estacionamento da frente na margem da curva. Opte pelo aparcamento na parte mais baixa e já dentro da propriedade.

A paisagem, como dizia, é espectacular. Ainda no exterior, qualquer cliente não terá pressa em entrar, pelo menos, sem antes perder ali uns minutos a encher os olhos com a beleza da zona.

Eu e a minha entourage fomos bem recebidos e, pouco depois, estava sentado com bebidas e entradas à minha frente.

Muralhas reabre pelas mãos de Chef João Pereira: “Serei cozinheiro a minha vida toda, um cozinheiro vai sempre aprendendo todos os dias.”

O espaço interior está bem decorado, com mesas de tamanho razoável que deviam ser mais bem fixas às bases (algumas oscilam nervosamente), sendo a vidraça o ex-líbris do espaço – esta será útil para os clientes que fiquem de frente para o desafogo de vista.

Mas e o que fazer quando há quem fique de costas?

Esta é uma questão que tenho sempre quando entro num espaço altamente encantador num lado, mas enfadonhamente normal no noutro. Dado o contraste, a normalidade torna-se ainda mais banal. Por isso, não compreendo a ausência de astúcia para tornar paredes menores em pormaiores.

Ao utilizar a casa de banho, noto imediatamente a falta de uma remodelação que as deixe mais actual e até em harmonia com o resto do espaço – ao contrário da sala principal, ali sente-se frio e desconforto. Também não se compreende a falta de um dispensador de toalhetes de papel que, especialmente agora, é mais seguro do que as higiénicas toalhas individuais, que se encontram ao lado do lavatório.

Com nomes claros e sugestivos, o cardápio apresenta-se simples e direto; através do mesmo pode-se escolher uma quantidade de iguarias suficiente para este tipo de restaurante – com qualidade.

Ao recebermos os pedidos, os nossos olhos ficam maravilhados: apresentação com gosto em louça bem escolhida, quantidade a condizer com o preço (um dos erros em restaurantes similares é a redução da quantidade) e qualidade nos produtos: bem cozinhados, temperados e com acompanhamentos bem escolhidos.

Porém, toda a regra tem excepção e o pato não sabia assim tão a pato: talvez um confitado ficaria melhor na carta e na boca.

Curioso foi ainda o meu comentário ao chefe sobre tal pato sensaborão, em contraste com as restantes iguarias, ter parecido cair em saco vazio. Isto é, ter entrado por um ouvido e saído por outro. Mas pode ser erro de análise.

O que não é erro nenhum é pedir sobremesa. Bem se sabe que o bicho do açúcar pede sempre por mais e, às vezes, tendemos a querer contrair o ímpeto. Tudo certo, menos aqui. Peça sem medo e com orgulho. Peça, que vai ter uma explosão de sabor dificilmente inigualável.

A carta de vinhos, com quantidade reduzida e preços atrativos é apresentada a seu tempo e, após a escolha, é servido com elegância, mas cautela: todas as garrafas que são servidas devem ser abertas e o vinho dado a provar, mesmo que seja igual ao anteriormente bebido.

Os colaboradores do Restaurante Muralhas são bastante agradáveis e o serviço acima da média, notando-se pequenas falhas por falta de atenção e um pouco de informação apressada sobre o menu. A simpatia é bem-vinda e nota-se que é uma marca da casa.

Com um terraço onde gostaria que o relógio parasse, pena é o tempo nem sempre ajudar, como foi o caso. Mas aí já nada podemos esperar que se faça, apenas estar à mercê de outras vontades.

A visita ao Restaurante Muralhas contribuiu para um agradável serão; a comida estava óptima – fora a excepção – e o preço está dentro do normal, talvez um pouco inflacionado devido à paisagem que nem todos os clientes podem desfrutar.

 

Nota Basilar: 8/10

Crítica: Ao Largo – comida, amigos e muito calor

restaurante ao largo

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Há vários sábados que a calçada portuguesa que ladeia o Mercado Santana não sentia tanta gente. A noite estava quente, convidativa ao desconfinamento e a isso ninguém diz que não.

Enquanto muitos saboreavam a nova vida e velhos paladares na rua, sentei-me dentro do restaurante Ao Largo. Visualmente, o espaço é quente, alaranjado das paredes que contagia a pequena casa; e ainda mais calor se sentia dentro – felizmente optei por não vestir colete, ficando apenas em mangas de camisa.

Tal estratégia, calculo involuntária, apontou para uma única possibilidade líquida: Vinho Branco. A escolha é sui generis: Não há carta de vinhos – não se percebeu se é regra ou excepção, por causa da Covid -, e, por isso, a escolha é junto à garrafeira.

Depois de alguns momentos junto da recheada prateleira, com do Douro ao Alentejo – tintos, brancos, maduros ou verdes, e rosés -, optou-se pelo Pomares. E bem! Bom preço, boa qualidade, boa escolha.

Para acompanhar – sim, a comida acompanhou a bebida e não o contrário – juntaram-se na mesa vários petiscos. A saber: Pica pau de atum com cebola caramelizada e pickles; Polvo à galega; Camembert com mel e Espargos grelhados.

Enquanto não chegavam, houve oportunidade para apreciar de dentro a assimetria do restaurante: algumas cadeiras e copos da escola primária, mas não em tanta quantidade para que se torne em tema, nem de conversa. Um apontamento, talvez.

Ainda assim, a aleatoriedade parece não ser defeito mas feitio, o que em si é uma proeza. Vários estilos, mobiliário e peças que nos remetem para um universo familiar, mesmo sem saber qual.

Os pitéus chegaram sucessivamente e a mesa individual revelou-se, sem surpresas, pequena. As garrafas de vinho e de água passaram para um dos vários bancos do restaurante – pobre alma de quem tiver de ficar ali sentado à refeição.

Os espargos foram a escolha mais memorável, estaladiços e saborosos. O queijo com mel estava também óptimo mas dada a força do sabor, talvez seja bom petisco para dividir por mais do que dois.

Pela sua natureza insólita, há que provar o pica-pau de atum. E o nome não engana: apresenta-se tal e qual como o de carne. O truque deste prato, dizem os entendidos, é estar malpassado – o que infelizmente não aconteceu. Ainda assim, estava bem saboroso.

Quanto a polvo à galega, ficou mais na memória a quantidade de batatas que o acompanhavam.

O serviço é muito prestável e próximo. As carteiras da primária até poderiam indicar que haveria necessidade de levantar o braço para chamar a profes… empregada de mesa. Mas nunca foi preciso e isso é de valor: raros são os restaurantes em que não temos de chamar o ensimesmado empregado de mesa.

A tudo isto somam-se duas águas, um café e uma conta de cerca de 40 euros. Bom valor.

Costumo dizer que há tantos restaurantes em Portugal que não vale a pena repetir. Quanto a este, fiquei com vontade de o fazer para experimentar pratos completos invés de pitéus.

Antes de sair, reparei num azulejo, bem português, claro, onde assim se escreve: “Que deus te dê o dobro do que desejas.”. Certo. Mas eu só queria mesmo era a metade do calor.