Ao Largo: Comida, amigos e muito calor

restaurante ao largo

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Primo Basílio
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Há vários sábados que a calçada portuguesa que ladeia o Mercado Santana não sentia tanta gente. A noite estava quente, convidativa ao desconfinamento e a isso ninguém diz que não.

Enquanto muitos saboreavam a nova vida e velhos paladares na rua, sentei-me dentro do restaurante Ao Largo. Visualmente, o espaço é quente, alaranjado das paredes que contagia a pequena casa; e ainda mais calor se sentia dentro – felizmente optei por não vestir colete, ficando apenas em mangas de camisa.

Tal estratégia, calculo involuntária, apontou para uma única possibilidade líquida: Vinho Branco. A escolha é sui generis: Não há carta de vinhos – não se percebeu se é regra ou excepção, por causa da Covid -, e, por isso, a escolha é junto à garrafeira.

Depois de alguns momentos junto da recheada prateleira, com do Douro ao Alentejo – tintos, brancos, maduros ou verdes, e rosés -, optou-se pelo Pomares. E bem! Bom preço, boa qualidade, boa escolha.

Para acompanhar – sim, a comida acompanhou a bebida e não o contrário – juntaram-se na mesa vários petiscos. A saber: Pica pau de atum com cebola caramelizada e pickles; Polvo à galega; Camembert com mel e Espargos grelhados.

Enquanto não chegavam, houve oportunidade para apreciar de dentro a assimetria do restaurante: algumas cadeiras e copos da escola primária, mas não em tanta quantidade para que se torne em tema, nem de conversa. Um apontamento, talvez.

Ainda assim, a aleatoriedade parece não ser defeito mas feitio, o que em si é uma proeza. Vários estilos, mobiliário e peças que nos remetem para um universo familiar, mesmo sem saber qual.

Os pitéus chegaram sucessivamente e a mesa individual revelou-se, sem surpresas, pequena. As garrafas de vinho e de água passaram para um dos vários bancos do restaurante – pobre alma de quem tiver de ficar ali sentado à refeição.

Os espargos foram a escolha mais memorável, estaladiços e saborosos. O queijo com mel estava também óptimo mas dada a força do sabor, talvez seja bom petisco para dividir por mais do que dois.

Pela sua natureza insólita, há que provar o pica-pau de atum. E o nome não engana: apresenta-se tal e qual como o de carne. O truque deste prato, dizem os entendidos, é estar malpassado – o que infelizmente não aconteceu. Ainda assim, estava bem saboroso.

Quanto a polvo à galega, ficou mais na memória a quantidade de batatas que o acompanhavam.

O serviço é muito prestável e próximo. As carteiras da primária até poderiam indicar que haveria necessidade de levantar o braço para chamar a profes… empregada de mesa. Mas nunca foi preciso e isso é de valor: raros são os restaurantes em que não temos de chamar o ensimesmado empregado de mesa.

A tudo isto somam-se duas águas, um café e uma conta de cerca de 40 euros. Bom valor.

Costumo dizer que há tantos restaurantes em Portugal que não vale a pena repetir. Quanto a este, fiquei com vontade de o fazer para experimentar pratos completos invés de pitéus.

Antes de sair, reparei num azulejo, bem português, claro, onde assim se escreve: “Que deus te dê o dobro do que desejas.”. Certo. Mas eu só queria mesmo era a metade do calor.