Crónica Collippo: Para o Natal quero um contrato normal

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A Collippo está em espírito natalício mas não esquece a condição de muitos dos jovens adultos portugueses. Nesta crónica escreve uma carta aberta ao Pai Natal.

Querido Pai Natal, este ano tenho um desejo especial: quero um contrato de trabalho normal!

Acho que me tenho portado bem nestes últimos anos porque:

– Mal concluí o meu percurso escolar, enviei muitos currículos e fui a muitas entrevistas (ou vá, fui às que me chamaram para ir!);

– Fiz um estágio não remunerado na minha área, para adquirir experiência;

– Trabalhei em part-times não relacionados com a minha área, sem contrato, recibo ou qualquer vínculo laboral. Uma vez, até me ofereceram a possibilidade de me inscrever num emprego, através de um estágio do IEFP, mas não queria usar essa oportunidade num trabalho fora da área;

– Trabalhei por uns tempos na minha área, recebia pouco e até fiz horas a mais, muitas, todos os dias, para que vissem que me dedico ao trabalho, não vá alguém dizer que não tenho melhores condições porque não me esforço! Eu cá não sou piegas!

Eu só gostava de ter um contrato de trabalho normal, onde, sei lá, pudesse, depois do período experimental considerar-me efectiv@ na empresa, o que me iria abrir um mundo de possibilidades, como conseguir pedir um empréstimo de habitação, por exemplo.

Um contrato onde me pagassem horas extra ou me retribuíssem o trabalho prestado em dias de descanso. É que isto de não ter um horário definido, ou ter só “hora para entrar”, às vezes torna-se difícil de gerir, levando-me a sentir que a minha única prioridade na vida é o trabalho.

Sei que não peço demais, mas também gostava que me fossem pagos subsídios de férias e de Natal em tempo próprio ou então, decidir por acordo se quero que os paguem por duodécimos. Ouvi dizer que o direito a escolher é coisa que vem na lei, mas disso não compreendo muito…

Para além do contrato normal, adorava comunicar facilmente com o meu empregador para, por exemplo, não ter de ir trabalhar com febre ou deixar de ir ao dentista porque ele só atende em horários laborais. E também acho meio tolo ter de pedir férias para ir ao dentista, está bem que estou estendid@ numa cadeira, mas o som da broca e luz das lâmpadas são um conceito de praia bem fraco.

Dentro deste barco, há outra coisa que me traz ansiedade e algum desânimo: é possível com o contrato normal, vir um pacote de direitos a ele associados, que também dizem estar previstos na lei? Falo de horas anuais de formação profissional contínua, para que continue a evoluir na minha carreira. Ou… sei lá, poderei pensar em ter filhos sem sofrer pressões de nenhuma espécie, nomeadamente, sem ter receio de não ter tempo de os acompanhar no seu percurso escolar?

E poderia estar aqui a escorrer mais um monte de situações mas para tristezas já me chegou este ano. E só agora reparo que nem me apresentei, afinal quem sou eu?

Eu sou alguém que neste 2020 ficou em lay-off simplificado e sem um terço do vencimento normal, alguém cujo contrato a termo não foi renovado porque o motivo justificativo “deixou de se verificar”, alguém que está a recibos verdes e trabalha 24 sobre 24, cumprindo ordens dos seus superiores e respeitando horários de trabalho (o chamado falso recibo verde), alguém com trabalho sem contrato nem recibos, que não desconta de maneira de nenhuma, apesar de não se sentir confortável nessa posição e querer ter um vínculo efectivo de trabalho.

Eu sou todos estes casos e muitos outros. Podes chamar-me jovem, precário, millennial, o que quiseres. O desespero levou-me a falar contigo, já não parece tão descabido pedir ao Pai Natal… Por isso, querido Pai Natal, no Natal, dá-nos um contrato de trabalho normal!