Crítica: Cervejaria Imperial – uma casa de serviço bipolar


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O Primo Basílio além de sucesso nos romances, também se deixa levar pelas estradas do distrito. Desta vez  parou por Monte Redondo onde a qualidade dos produtos convenceu-o mais que o próprio serviço.

Nas minhas habituais deslocações à Figueira da Foz, percorrendo a Nacional 109, passo pela vila de Monte Redondo. Por muitos desconhecida – para mim também o era – deixou de ser por ali estar o café/cervejaria Imperial, de que desde cedo me tornei fã.

Sei que é um choque para muitos, pois não é em qualquer cadeira que me sento e muito me recordo dos bons repastos em Paris. Mas devo confessar que este é um espaço inusitado.

A primeira visita, já há largos anos, deixou-me surpreendido, pois vi dois imponentes cilindros de mil litros, para a cerveja (ao invés de barril), ali, numa pequena vila e já distante de Leiria; não resisti e ao mesmo tempo que pedia uma imperial, questionava-me sobre a necessidade de tal instalação. Porém, rapidamente me apercebi da qualidade da tiragem, do sabor da cerveja e da saída que tinha.

Lembro-me de que numa segunda passagem (a uma sexta-feira), por volta das 19h, o parque de estacionamento estava cheio. A curiosidade e boa experiência anterior levaram-me a parar. Lá consegui estacionar e… outra surpresa: amendoins por todo lado e… cascas no chão, propositadamente! Nunca vira igual… Mas que grande ambiente que ali se instalara!

À medida que o tempo foi passando, tornei-me cliente habitual. E não podia deixar de notar pequenas e constantes remodelações, tal como de me aperceber de novas contratações para o staff.

A dada altura torna-se então evidente uma intenção de ser mais do que o café da vila, e de implementar um serviço mais vocacionado para a restauração. Para isso, além dos saborosos petiscos sempre disponíveis e do marisco à quinta-feira, começam a servir-se bifes – estilo steakhouse – com diferentes preparações.

Até aqui, continuava a usufruir de um serviço eficaz e bastante comercial (é de agradecer neste tipo de casas – o cliente nunca deve ter o copo vazio), mas também mais rotação/substituição na equipa de sala.

Passados alguns meses, o acto foi consumado: o café deu lugar ao restaurante. Saboreio uma cerveja enquanto noto que contrasta com mesas postas uma ausência daquele ambiente heterogéneo, tantos dos velhos da raspadinha como dos trabalhadores que ao final do dia ali se refrescavam com uma inigualável imperial. Afinal, não se pode ter tudo, não é?

A certo dia, regressando dos meus negócios na Figueira da Foz, lá parei, antes de seguir para Leiria. Surpresa! A casa agora oferece bifes de qualidade superior – carne Angus. E constato a novidade ao ver umas imponentes costeletas cruas a serem apresentadas ao cliente.

Naturalmente, também quis provar; e ainda antes do confinamento, ali jantei com Alphonsine, pois não se desfruta duma costeleta daquelas sozinho.

Uma noite memorável: tábua de presunto e queijos cortado no momento para entrada e costeletas Angus, no seu ponto, acompanhadas de um bom vinho, sem esquecer as duas imperiais mal chegámos.

Quanto ao serviço, não foi mau, mas, sinceramente, e com tempo para apreciar certos movimentos, notaram-se alguns desencontros empregado/cliente, esperas prolongadas sem motivo aparente… não propriamente na nossa mesa, mas como facto generalizado.

Mais vezes fui parando para tomar imperiais únicas (experiente, mesmo!) e mais vezes me ia apercebendo que beber uma cerveja não bastava para ter um bom serviço. Na verdade, a pouco e pouco o serviço indicava que outra pessoa merecia estar ali sentada mas, por alguma razão, não eu.

Porquê? Posso já ter ido a muitos restaurantes e ter visto casas a falir e a vingar, mas este deterioramento do serviço em contextos específicos é das poucas coisas que não consigo explicar.

Dito isto, chegamos àquela que foi e será a minha última visita, já numa reabertura pós-confinamento.

Ainda a vários metros e dentro do carro, vejo uma grande e agradável esplanada. Parei a viatura no parque anexo (com a instalação da esplanada ficaram três ou quatro lugares de estacionamento frente ao local) e sento-me na esplanada. É mais uma nova cara a atender e a juntar-se às dezenas que por ali fui vendo.

Depois de muita insistência e persistência para ser atendido, saio, pela primeira vez, com a certeza de que o serviço não satisfaz, de todo.

Além de um certo desconforto pelas regras de segurança a aplicar e a falta de rigor que, ainda assim, estava habituado a ver no estabelecimento, a sincronização no serviço era terrível.

Os clientes não estavam a ser bem atendidos. Era um final de tarde e a afluência levou a que o serviço, que já estava em notas medíocres, descesse ao negativo – ao ponto de dar a sensação de que mais vale não pedir nada, mais vale não consumir, mais vale não visitar.

Casas assim não merecem qualquer tipo de cliente e, infelizmente, assim vi a transformação desta peculiar cervejaria abeirada de uma nacional num restaurante que falha tanto ou mais do que os outros.

Caro leitor que chega ao final deste texto, naturalmente pode não concordar com as opiniões aqui veiculadas. Até pode ser esta uma das suas casas preferidas, mas perdoe-me a ousadia: um estabelecimento que apenas é bom de vez em quando nunca atinge a excelência pretendida.

 

Nota Basilar: 5/10 (metade sustentada pela qualidade dos produtos)