A noite em que os First Breath After Coma se multiplicaram para fechar 2019 em grande.


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Diogo Costa
Diogo Costa
                       

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    Já é um hábito encontrar os FBAC em concertos natalícios / fim de ano. Mas poucos estavam preparados para tamanha novidade: uma orquestra inteira a oferecer uma musicalidade ainda mais diversa!

    Os First Breath After Coma (FBAC) tocam “Please Don’t Leave” quando, a meio do tema, os tons azuis e laranja do sistema de luz do Teatro José Lúcio da Silva refulgem nas pautas, nas fardas brancas ou na barba grisalha do maestro Carlos Pinto Pereira, da Banda de Música de Mateus (BMM). O conjunto filarmónico transmontano acompanha a banda leiriense no espetáculo deste sábado, e é neste momento que temos a perceção da quantidade de músicos em palco – são dezenas, com os cinco elementos da banda leiriense em primeiro plano, à frente de quatro ou cinco filas de músicos que se estendem a todo o comprimento de palco – a maioria a tocar instrumentos de sopro, existindo também uma pequena secção de percussionistas.

    Em 2012, quando ouvimos falar dos FBAC pela primeira vez, havia um rótulo – Pós-Rock – utilizado para catalogar o estilo de som da banda leiriense. Os nomes marcantes desse movimento – Tortoise, Sigur Rós, God is an Astronaut ou Explosions in the Sky, utilizam instrumentos associados ao rock tradicional para criar paisagens sonoras onde a textura ou o timbre têm primazia sobre riffs, acordes ou refrães, fugindo assim à estrutura tradicional de canção rock de forma a criar ambientes sónicos melancólicos e contemplativos.

    Nessa altura, o coletivo de Leiria parecia dizer ao que vinha, escolhendo o nome de uma música dos Explosions in the Sky para nome da banda. Mas no ano seguinte, quando lançam “The Misadventures of Anthony Knivet”, o seu primeiro álbum, é patente a vontade em fugir ao conforto e monotonia de se associarem apenas a um estilo de música. E os fagotes, oboés, saxofones, tubas ou clarinetes da filarmónica transmontana são instrumentos que normalmente não se associam ao rock, em qualquer das suas vertentes ou movimentos paralelos que o pretendam desconstruir.

    Iniciam o concerto com os três primeiros temas de “NU”, álbum deste ano que também foi apresentado em formato visual e esteve na maioria das listas de melhores discos nacionais de 2019, incluindo o melhor disco no distrito para a TIL. A “The Upsetters” e “Please Don’t Leave” segue-se “Change”, o tema onde pela primeira vez é notória a força e sustento trazido pelos metais dos músicos de Mateus às músicas dos FBAC, já de si paisagens de veludo, agora multiplicadas por acrescentos de textura e ressonância.

    Há entrosamento entre as bandas e no início de “Salty Eyes”, música de “Drifter” (segundo álbum dos leirienses), vemos uma jovem clarinetista a contar os tempos pela bateria de Pedro Marques, para ter melhor perceção da sua vez de tocar. A juventude é a principal característica dos elementos da Banda de Música de Mateus – somos informados que o seu membro mais novo tem apenas 11 anos de idade no intervalo antes de começar “Apnea”, tema de “The Misadventures of Anthony Knivet”, onde um jovem no início da adolescência toca um bombo maior que a sua altura.

    Mesmo havendo sintonia entre bandas não deixamos de sentir que os instrumentos da BMM poderiam ter maior destaque, que poderiam servir como mais que acompanhamento do som dos leirienses, ou que houvesse um trabalho mais forte em criar novos arranjos para as músicas, permitindo que existissem momentos a “solo” da orquestra de Vila Real.

    Isso sentiu-se especialmente em “Heavy”, onde os efeitos de voz e a textura dos teclados abafam a filarmónica, ou nos dois ou três momentos de “Feathers and Wax” em que se exigia que as tubas e bombardinos tivessem uma presença mais forte no acompanhamento aos graves dos FBAC.

    Antes do fim do concerto, depois de sermos informados que um encore não seria possível “porque a sua logística ia demorar uma hora”, voltam a “Drifter”, com “Blup”, que lhes vale uma ovação em pé de perto de cinco minutos por parte da audiência, que esgotava o Teatro José Lúcio da Silva.

    Ver FBAC tocarem neste registo é mais uma demonstração da sua vontade de inovar e fugir a catalogações. Depois de concertos colaborativos com Noiserv e Whales, de tocarem durante 24 horas seguidas no Festival “A Porta”, e da edição de um álbum multimédia, que mistura música e imagem, ficamos a aguardar o que nos vão trazer em 2020. Um novo álbum não é uma façanha a ser posta de parte, promessa feita no final do concerto. Além disso, a etapa transmontana desta colaboração com a Banda de Música de Mateus está agendada para 4 de Janeiro, no Teatro Municipal de Vila Real, e um concerto desta escala é um prenúncio de coisas boas para o futuro de qualquer banda.