First Breath After Coma: “NU é um álbum mais íntimo porque cada um pôs uma coisa muito mais sua, mais pessoal e também mais despida”


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O último álbum dos First Breath After Coma saiu há dias e nós não podíamos deixar passar a ocasião. Estivemos à conversa com três dos cinco elementos da banda, na Casa Serra (para os lados das Cortes), onde desde outubro passado vivem todos juntos. Conhecemos a sala de ensaios e falámos com eles sobre NU, a criatividade em criar um álbum visual e também da tour nacional e internacional que aí vem.

 

Comecemos pelo vosso álbum anterior (Drifter), que teve um impacto brutal e recebeu vários prémios. Sentiram que tinham responsabilidade acrescida, um peso maior, ou foi tranquilo e deixaram a coisa fluir? 

Roberto: Acho que neste foi bem mais leve que do primeiro para o segundo.

Pedro: Sim, não estávamos preocupados com algo em concreto. Era só fazer o que nós sentíamos que devíamos fazer.

E a nível de editoras, não vos é imposto nada, como outras que ditam regras.  Nesse campo estão muito mais à vontade?

Rui: Sim. Nós não temos propriamente uma cena enorme que tenhamos muito a perder ou não. Não temos nada a perder.

Acham que ainda estão numa trajetória ascendente? Ainda não chegaram a um ponto de maturação?

Rui: Acho que ainda estamos no início dessa linha.

É interessante veres isso dessa forma. Falando em concreto do NU. Não sei se lhe hei-de chamar um álbum ou um filme e a pergunta é mesmo essa. O que surge primeiro? São as letras e os instrumentais e depois vão aparecendo as ideias visuais? Ou aparecem primeiro as histórias visuais e são complementadas com as músicas?

R: Como uma banda sonora?

Isso!

R: Bem, aqui nós começámos pelas músicas. Depois quisemos dar imagem às músicas. Mas também chegou a um ponto em que uma música ainda não estava acabada, mas já tinha a imagem.

Rui: Aconteceu um bocadinho dos dois, mas o esqueleto é o som. Isso surgiu primeiro. Foi como que o oposto da banda sonora.

Muitos discos, fala-se que contam uma história, têm um princípio e um fim e neste caso com a componente visual isso torna-se muito mais pertinente. As músicas têm mesmo uma ligação.

R: Elas funcionam à parte. Cada música tem um sentimento ou um conceito que é explorado. Mas para a narrativa do filme esses conceitos têm todos uma ligação e um fio condutor.

Rui: Mas também não fizemos as músicas a pensar: “Ok, esta vai ser a primeira e esta vai ser a última”. Fizemos as músicas cada uma com um intuito e, quando olhámos para fazer o álbum, para as organizar, elas levam uma linha que, em conjunto com o filme, torna tudo mais visual.

E porque é que se chama NU? É sobre a forma como estavam ao produzir o disco? Ao juntar a Casota com os First Breath, que são vocês à mesma, se significa que este disco são vocês, ponto.

R: Esse nome tem a ver muito com o facto de como o projeto, ou a parte criativa, foi acontecendo, com aquilo que cada um deu. Este álbum é muito pessoal, muito íntimo. Houve várias alturas em que estava apenas uma pessoa na casota a trabalhar no álbum. Essa é a parte nua e crua do nome. E depois também há a parte mais inglesa do nome que remete para o “New” na medida em que é algo novo para nós, uma acentuada diferença em relação aos dois primeiros discos.

E ser NU com duas maiúsculas tem algum significado?

R: É estético só.

Vimos também que o Público editou o vosso trabalho na íntegra. Já tiveram algum feedback?

Rui: Do público em geral é um bocado cedo ainda, mas de amigos e de pessoal que conhecemos, o feedback tem sido positivo. Já tínhamos feito duas apresentações no Porto e em Lisboa e aí também foi positivo. Agora do público precisamos de mais tempo para perceber.

P: E relativamente ao vídeo nós também concorremos a dois festivais de curtas e fomos selecionados, o que também é muito positivo.

A ideia de concorrer surgiu de vocês ou do Hugo Ferreira? Isto porque vocês, como criadores, podem às vezes nem pensar nisso.

Rui: Foi de parte a parte. Quando temos de trabalhar a divulgação de um disco já sabemos mais ou menos os meios. Desta vez como o produto era diferente.  Fomos ver onde podíamos ter ajuda nisso.

R: E faz todo o sentido porque, neste momento, First Breath After Coma e Casota Collective em que são as mesmas pessoas de um lado e doutro. Num dá-se mais atenção ao som e no outro exploramos mais a imagem.

Rui: E o som também. (Risos)

R: Mas neste caso, essa parte de concorrer a festivais de cinema acaba por ser mais a vertente instituição Casota. Mas é sempre natural, não pensamos, olha isto vai ser para aqui e isto para ali. Já sabemos que quando estamos a construir aquilo temos de explorar as duas vertentes.

Esse tema leva-me a outra pergunta. Ainda há pouco disseram que a Casota e os First Breath são as mesmas pessoas. Pergunto se fará sentido no futuro existir essa distinção entre os projetos. 

Rui: É engraçada essa pergunta.

R: É engraçado porque nós tomámos essa decisão há relativamente pouco tempo. Vamos acabar com os dois projetos. (Risos)

Rui: Vamo-nos chamar After Casota. (Risos) Na verdade, os projetos agora estão ainda mais juntos do que estavam. Acho que a única coisa que os está a separa agora é mesmo só o nome. Temos um nome que faz discos e dá concertos e temos outro que faz vídeos e trabalhos audiovisuais. Mas somos sempre os mesmos e é como se fosse a mesma entidade.

R: E acabámos por dar uma identidade legal com a Casota que funciona mais como empresa e associar a banda a isso tem várias vantagens para nós. Mas sim, temos vindo a afunilar cada vez mais.

P: Sim, mas acho que o principal foco vai ser sempre a música. O vídeo é mais um complemento.

Rui: Na verdade, a Casota surgiu da necessidade de criarmos o nosso próprio emprego para conseguirmos fazer dinheiro enquanto não estamos a fazer música. Não podemos ir arranjar um emprego a full-time porque depois queremos tirar um mês para fazer tour com a banda e ninguém nos dá um mês. Então a Casota surgiu dessa necessidade, vamos criar a nossa própria empresa, temos conhecimentos na área do audiovisual e conseguimos conciliar com a banda.

R: Essa é a maior valência, termos essa disponibilidade.

Roberto Caetano, Pedro Marques e Rui Gaspar à porta da Casota

E isso também vos ajuda a conhecer novas bandas que, enquanto banda, talvez não conhecessem. O que leva a que vos abordem sobre as duas vertentes. 

Rui: Aconteceu dos dois. Os primeiros videoclips que fizemos foi para bandas amigas, ou que conhecemos na estrada, ou para bandas daqui da zona. Mas também acontece o mesmo do outro lado: pessoas que conhecemos na Casota que depois nos dá jeito para a banda.

Têm alguns nomes que vos tenham contactado para fazer videoclips

Rui: Por acaso, os trabalhos que temos agora não são para muitas bandas. Temos um videoclip, depois estivemos com o festival A Porta, a Festa dos Museus.

P: Estivemos também a fazer um vídeo para os Lima. Ele entretanto vai lançar algo novo.

Rui: Ele faz concertos com uns sons meio abstratos muito.

R: Cenas à baterista! (Risos)

Rui: Nós, enquanto Casota, queremos começar a explorar mais outros universos, que não apenas o videoclip.

Roberto Caetano (esq.)e Rui Gaspar (dir.)

Vocês também estiveram envolvidos em alguns conteúdos do Festival A Porta

Rui: Sim! Este mundo dos videoclips não é assim tão grande, não é assim tão rentável. E esse tipo de projetos na área do audiovisual, como o dos Lima, acaba por ser desafiante do que criar sempre o mesmo género.

Falando do vosso processo criativo, como é que acontece? 

R: Estás a falar de Casota ou de First Breath? (Risos)

(Risos) Estava a falar de Casota.

R: Ok. A Casota tem brainstormings. 

Rui: Basicamente, quando nos dizem para o que é o vídeo: para o Festival A Porta ou para outra coisa qualquer, pode acontecer alguém ter logo uma ideia e depois juntamo-nos e discutimos essa ideia. Ou quando não há uma ideia logo à partida, sentamo-nos e juntamos muitas fotos sobre o tema, olhamos para elas e tentamos perceber qual é o universo do tema.

P: Quando estamos mesmo em branco, essa é a melhor forma.

Também vos vi agora no Natal, na Omnichord Takes Over TJLS. Foi muito giro, gostei muito. Do que falei com amigos que foram, aquilo não é bem o oposto mas vá, ninguém imagina os First Breath naquele formato de coro de Oeiras, mas mantiveram a postura e ficou um produto muito fixe. 

Rui: A ideia também era essa. Ir com uma certa ironia mas manter a nossa essência.

R: Mas foi tranquilo. Foi bem mais difícil tentar devolver cinco camisolas ao mesmo tempo. (Risos)

Ainda sobre esse concerto lembro-me de ter ouvido pessoas a dizer que não sabiam que tu, Roberto, conseguias puxar tanto pela voz, e neste álbum nota-se mais essa densidade..

R:  Estás a falar de Born a Lion, ali a puxar para Robert Plant.

Rui: Nós quando éramos miúdos e tocávamos covers tocávamos muito Led Zeppelin e a voz dele ficava mesmo bem era nesse registo.

R: É assim este álbum, tem vozes de todos como todos tiveram. Nos dois primeiros álbuns, a minha estava mais direcionada para o verso. Neste, há três músicas em que é o Rui a ir lá mais acima do que eu. Ele explora mais as partes em que a música rasga Por exemplo: o refrão, ele vai lá furar mais acima, eu fico mais no verso depois ele tem três músicas em que ele assume o verso. Isto também vem do processo criativo deste álbum. O facto de estarmos aqui a viver e termos reabilitado a casa.

Rui: É estranho porque estávamos os cinco aqui a viver e acabou por ser o álbum em que foi rara a vez em que estivemos os cinco a tocar ao mesmo tempo. Nos outros juntávamo-nos a uma hora estávamos a tarde toda a tocar. Este, como estávamos sempre aqui, iam dois, depois ia um e foi raro estarmos os cinco. Isso tornou o álbum mais íntimo porque cada um pôs uma coisa muito mais sua, mais pessoal, e também mais despido, voltando ao nu.

E não tinham medo de, quando fossem juntar as peças de cada um, isso não colasse?

R: Há sempre uns ajustes.

Rui: Sim, claro. Mas nós íamos falando uns com os outros. Ia para lá um, gravava umas coisas no pc e à vez íamos saltando de música em música e arranjando a coisa. Depois as únicas oito que se aproveitaram foram as que estão no álbum. Foi um processo um pouco diferente.

R: Mas foi fixe, e acaba por ser único.

Rui: Sim e foi diferente porque como não estávamos os cinco a tocar ao mesmo tempo.. Dantes era quase obrigatório todas as partes tinham de ter bateria, duas guitarras, um baixo, teclados e vozes. Desta vez foi mais às peças. Juntas uma coisa, depois outra e acaba por haver mais espaço.

P: Houve casos em que eu só toquei bateria uma vez e ficou assim. Não houve dias e dias a tocar por cima coisas diferentes. Isso é bom porque retém aquela cena do primeiro momento, da primeira coisa que sai e ficou.

Rui: Ainda por cima agora com melhores condições, com os microfones no estúdio sempre prontos a gravar, conseguimos captar bué vezes esses momentos de inspiração e ficaram desde o momento em que foram criados. No anterior, nós gravámos primeiro e depois fomos para estúdio gravar a sério e lembro-me de andarmos muito tempo à procura desses momentos na maquete que depois, ao regravar não dava para recriar. Então é brutal ter sempre tudo pronto a gravar com o mínimo de qualidade para depois a podermos usar.

Isto até pode nem ter nada a ver mas nós entrevistámos o David Fonseca há pouco tempo e ele disse que, neste último álbum, ao viajar pela Ásia, gravava todo o tipo de sons possíveis e nem tinha de envolver ele tocar. Acho que ele disse que tinha perto de 18 horas de som, para aproveitar 30 minutos. Com vocês acaba por acontecer um pouco isso também..

Rui: No Drifter fizemos mais isso. Tínhamos um gravador portátil e andávamos por aí a gravar sonzinhos da rua.

R: Por acaso curtia voltar a fazer isso.

Estava aqui a pensar no que disseste Pedro, de gravar esse primeiro momento e o que sair é o que saiu. Não sentem alguma pressão do tipo: “se isto não sair bem vou mandar esta trilha toda para o lixo e depois quando sair bem é que guardo”. Se existir espaço para limar algumas coisas fazem-no ou preferem reter a essência inicial?

P: É conforme. Há músicas em que o primeiro momento saiu bem e nós achamos todos fixe e fica mas se existir essa necessidade fazemos isso.

Rui: Acho que o ponto dele era manter essa faísca inicial. Deu-te aquela ideia e aquilo ficou mesmo brutal e fica assim. Mas muitas vezes é difícil ir buscar essa magia, ou porque a bateria estava com um som específico e estava a soar muito bem e ele estava a a tocar de uma forma que, ao tentar regravar, já não sai da mesma forma.

P: Mas também acontece o contrário. Gravamos uma cena e depois vamos ajustando, vamos melhorando.

Rui: Há muitas coisas que se regravam e ficam muito melhor. É preciso é sabermos o que é que é para guardar e o que é que é para mandar fora.

Do Drifter para este NU, qual acham que foi a grande atualização dos First Breath After Coma? O que é que difere?

R: Acho que as músicas são mais canções do que eram.

Sim, também notei isso. As músicas têm um princípio e um fim, não divagam tanto…

P: Sim, neste caso podes despir a música por completo e ela continua a funcionar muito bem como canção.

Rui: Sim. Estas músicas, como foram compostas, assim mais despidas, funcionam muito bem só com uma guitarra ou um piano e voz. As outras, não. Quando nos pediam para fazer um showcase ou para tocar numa rádio era sempre grande filme, tocávamos sempre a Salty Eyes e não dava para tocar mais nenhuma porque todas tinham partes instrumentais maiores. Estas têm uma base mais de canção que é fácil de recriar ao piano ou à guitarra.

P: Essa é uma das maiores diferenças.

Rui: Além disso, também tirámos o reverb da frente, que nós púnhamos reverb em tudo. Usávamos reverbs muito longos com espaços bué’da grandes. Agora usamos o som da sala e, de vez em quando algum apontamento, uma coisa mais molhada, para contrastar. Mas acho que essa cortina saiu da frente. A filosofia agora é mais nu. (Risos)

Falando agora da vossa tour, que já tem bastantes datas. Vocês têm mão na escolha dos locais? Ser Leiria primeiro foi algo que quiseram mesmo?

R: Tentamos escolher as melhores salas e ter uma ideia do número de pessoas que vamos conseguir levar. Partimos com essa ideia, mas claro, Leiria em primeiro.

Fazem questão disso?

Rui: Nós preferimos. Se bem que é mais difícil tocar para a família e para os amigos primeiro mas por outro lado achamos também que é por onde faz sentido começar a apresentar.

E se este álbum é mais íntimo, mais vosso. É o que faz sentido, não é?

R: Eu acho que o que preferíamos mesmo era fazer primeiro a tour e depois mostrá-lo cá mais limado.

Vocês estão muito ansiosos? 

Rui: Ya!

R: Bué. Porque já não tocamos há muito tempo.

Há quanto tempo é que não tocam juntos? Mesmo em concerto.

Rui: Em concerto, desde setembro. Quer dizer depois tivemos aquele concerto de Natal no Teatro (José Lúcio da Silva) mas isso foi diferente. Foi mesmo há bué tempo porque depois estivemos a acabar o filme e como o álbum não foi feito com os cinco a tocar ao mesmo tempo, andamos agora a ensaiar este NU para levar a palco.

Então agora é ensaiar todos os dias?

Rui: Mais ou menos. A partir de segunda-feira (dia 25 fevereiro) vamos estar a full-time nos ensaios para a tour, já demos uma volta por elas todas mas vamos estar os dias inteiros a trabalhar.

R: É melhor não levarmos mesmo a fundo esta questão. (Risos) Tem sido muito trabalho.

Rui: Lá está, tem sido esses trabalhos todos da Casota. Não tínhamos prazos assim tão apertados mas temos de terminá-los antes de irmos para a estrada. Os trabalhos que podíamos estar duas ou três semanas a fazer, temos até segunda-feira para acabar. Assim depois temos tempo para ensaiar para a tour.

Voltando às gravações do filme, as gravações foram onde? Foram aqui na região ou foram mais longe?

Rui: Leiria e Alentejo. Basicamente todos os spots exteriores sem ser o da Heavy, do pessoal nu que foi ali em Porto de Mós..

R: E da Chill, que também foi aqui.

Rui: Sim, tudo o resto foi no Alentejo. Como a casa a arder, a cena do labirinto, a cena do barco e a cena da capela foi numa quinta enorme.

Onde é que é mesmo?

Rui: Aquilo é perto de Montemor-o-Novo.

P: Aquilo é o Barrocal das Freiras. Antigamente eu costumava ir lá passar férias e era um convento de freiras muito bonito. Recentemente foi um pouco abandonado mas são hectares e hectares de paisagens brutais.

Então a ideia de gravar lá foi tua?

P: A ideia de me lembrar do sítio foi minha, sim. Aquilo tem uma lagoa enorme, também. Eu não sei se isto é verdade ou não mas quando era miúdo lembro-me de ouvir que aquilo era a maior lagoa privada da Península Ibérica! Tipo cento e muitos metros de profundidade.

Rui: Depois o resto, como a cena da casa, foi numa casa aqui nas Cortes. Ainda usámos a nossa casa-de-banho também.

R:Chill foi ali na Quinta dos Animais, na Gândara, e foram esses os sítios.

P: Também gravámos ali nas Fórneas, num sítio brutal. Tu chegas lá e parece que estás no Açores, é mesmo muito fixe.

Rui: Quando não há budget para ires aos Açores.. (Risos)

E como é que foi a experiência de gravar esse videoclip nas Fórneas? Esse (Heavy) é que é mesmo a nú. Tiveram dificuldades em arranjar pessoal?

Rui: Esse vídeo foi mesmo um stress. Nós abrimos um open call e tivemos quase 50 pessoas. Alugámos um  autocarro e preparamos a cena toda. Pedimos ajuda a amigos para a produção, fizemos os testes todos com a malta toda vestida mas depois estás na serra, bué’da frio no inverno e na altura de filmar o pessoal dava os casacos e gravávamos aquilo o mais rapidamente possível. E se ficasse bem, pronto!

P: Depois a logística era, tínhamos 40 e tal pessoas mas tínhamos de renovar.

Reparámos nisso que havia malta que se repetia no vídeo.

R: Isso era tudo de propósito que há pessoas que já apareceram na tua vida e depois voltam a aparecer mais à frente. (Risos) Isto não é ao acaso.

Rui: A coisa tinha corrido bem, pensávamos nós. Acabámos de filmar, toda a gente bué’da contente. A nível de orçamento e produção foi o vídeo mais difícil porque alugámos uma máquina e tudo. Depois chegamos aqui e vamos a ver as filmagens, aquilo estava com drop frames, a gravação saltava frames, tipo do frame um para o dez. Achámos que o problema era nosso e então fomos pesquisar à net e viemos a descobrir que aquela máquina tinha uma opção com a maior qualidade e não há cartão que grave aquela velocidade. Estávamos a usar um cartão SD e mesmo com um SSD e não dá. A máquina tem uma opção que os discos não têm velocidade suficiente e tem outra funcionalidade que dá o aviso quando a gravação vai fazer drop frame, mas que vem por defeito desligada. Ou seja, nós não fazíamos ideia desse problema. Então falámos com os figurantes todos e explicámos a situação.

R: Nós tínhamos pago a cada figurante. O CD, concerto de apresentação e despesas, cobrimos tudo. Para a segunda gravação tivemos metade das pessoas.

Rui: Por isso o plano teve de ficar mais fechado. Já vês as pessoas a repetirem-se.

R: Na verdade, na segunda gravação, até foi um bocado estúpido da nossa parte porque as pessoas podiam ter estado vestidas até à cintura e nós metemos tudo nú. (Risos)

Rui: Sim porque no primeiro o plano era mais aberto e tínhamos mais gente. Na segunda vez foi ver quantas pessoas é que chegavam e ajustar.

E relativamente aos concertos internacionais.  Vão a algum sítio novo? Vão repetir sítios?

R: É um misto. Esta vai ser a nossa terceira ou quarta tour que fazemos na Alemanha e no início começámos com oito ou nove datas e isso foi sempre aumentando. Nós vamos falando com o Pink, que é o produtor de lá, e vamos fazendo a seleção de onde gostámos mais de tocar, onde o som é bom e afins e ele vai-nos ajudando a escolher até que chegamos a um número de concertos onde está tudo bem.

Rui: É repetir as boas e encontrar as novas. Às vezes encontramos umas salas em que a malta é bué simpática mas em termos de PA’s não é das melhores. Tentamos encontrar o equilíbrio entre os dois. Agora já temos mais a coisa acertada.

R: E quanto maior é a cidade, pior é a sala. Por exemplo, em Berlim tu tens tanta oferta que é difícil escolher as boas. Aqui em Leiria tens três fixes: o José Lúcio, o Miguel Franco e a Stereogun. Uma banda grande que cá venha toca num desses três sítios e tem as mínimas condições. Em Berlim ou até em Lisboa, essas salas grandes já estão ocupadas por bandas mais conhecidas.

Rui: É tipo o Atlas, não está preparado para concertos grandes mas tem lá concertos mais pequenos, sabem ajustar.

R: Sim, mas por exemplo, nós com um PA curtinho não dá. Em Berlim tocámos numa sala horrível em que eles apontavam o subwoofer para a parede na esperança que aquilo refletisse o som.

Rui: Aquilo era uma sala com nome mas era para projetos mais pequenos, tipo DJ’s ou cenas mais eletrónicas.

R: Nós nesse tocámos em linha quase em direção ao público.

P: Sim no palco cabia só eu e a bateria. (Risos)

Há alguma sala que vocês queiram muito repetir? 

R: Temos duas em Wolfsburgo que gostámos muito, como o Glaise 22.

E vão a algum país que ainda não foram? 

R: Luxemburgo.

E a malta no Luxemburgo é dada a estas cenas mais alternativas? Porque normalmente o pessoal associa sempre o Luxemburgo ao português mais tradicional. É interessante vocês levarem lá o vosso projeto. 

Rui: Sim mas também há a geração nova que não é tão fechada como antigamente e vai ser giro. Vamos lá ver como é que é.

R: Sim, já da primeira vez que experimentámos a Bélgica foi muito engraçado. Quando lá chegámos nem fomos recebidos: o dono do bar nem saiu de trás do balcão. Num sábado à noite, cheirava a esgoto como tudo e basicamente não apareceu ninguém mas foi bué engraçado porque tocámos para o nosso técnico de som e ele tocou para nós. (Risos) Ele fez a primeira parte só com guitarra – é o vocalista dos Fugly – e estávamos nós os cinco a curtir bué e mais ninguém no bar. Nós fizemos a festa para ele e depois ele fez a festa para nós. E foi esta a nossa experiência na Bélgica.

Rui: Lembro-me de estar a tocar e olhar para a frente e vê-lo a comer cereais. (Risos) Depois de tocar, arrumámos as coisas e o dono vira-se para nós e só disse “Shit happens.” E nós só queríamos sair dali.

R: Não houve nenhum tipo de promoção ao concerto, a fachada do bar era completamente preta. Ninguém sabia que íamos tocar ali.

Qual é que era a cidade?

R: Não faço a mínima ideia. (Risos)

Rui: Aquilo parecia uma cidade fantasma, completamente sem ninguém a um sábado à noite. Nós saímos dali queríamos ir beber um copo e não estava nada aberto. Fizemos uns poucos quilómetros até uma cidade lá perto onde, aí sim, estavam bares abertos. Foi uma experiência mesmo má.

R: Mas isso faz-nos bem. Também tivemos grandes surpresas, como num festival em Wolfsburgo. Do nada, está uma tenda de cinco mil pessoas a ver-nos e a curtir bué. Em dez minutos vendemos o merchandise todo a malta que nunca nos tinha visto e, se houvesse mais, eles tinham levado. Até pins pediam.

Rui: Depois voltámos a essa cidade e conhecemos lá um gajo que nos arranjou um concerto num bar e dessa vez enchemos o bar. Agora vamos lá voltar.

R: Depois também te calha um concerto como o da Bélgica que é para tu também amansares. (Risos)

Rui: Isso também faz parte e faz bem haver essas barracadas. Até para sabermos onde não vamos voltar. (Risos)

Eu estava aqui a lembrar-me de uma coisa. Como é que vão fazer a apresentação do álbum? Vai ser estilo como se vê agora muito: uma orquestra a interpretar a banda sonora do filme?

R: Para agora não está nos nossos planos fazer isso e, como disseste, nesses eventos a orquestra está no fosso. Se nós metermos o filme a passar e nós a tocar, há duas imagens e estás a dividir o público. O filme agora está feito para uma sala de cinema ou para veres em casa.

Rui: Eu acho que a experiência ao vivo tem que ser diferente. Tem de haver a parte performativa de nós a tocarmos e a interpretarmos. Nenhum de nós pôe essa hipótese de parte mas para já não a vamos concretizar. Se fizermos isso, nós, como músicos vamos ter que estar, de alguma forma, escondidos para dar espaço ao filme. Já nos perguntaram várias vezes isso até promotores de salas mas não vemos isso a acontecer, pelo menos agora. Temos de arranjar uma forma melhor de conseguirmos conjugar as duas vertentes.

E o filme vai ser editado?

Rui: Não. Nós já pensámos nisso mas o DVD está tão em desuso, um bocado como o CD, mas é uma mania nossa.

Pedro Marques, Rui Gaspar e Roberto Caetano

 

E assim ficámos a perceber melhor o que esteve na origem deste NU e o que podemos esperar dos First Breath After Coma. Vão estando atentos às datas que eles vão andar pela estrada e primeiro concerto é já dia 6 no nosso Teatro José Lúcio da Silva.

 

Fotos: Karina Milheiro