Crítica: Mank, um filme a preto e branco que merece uma oportunidade a todas as cores

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O novo filme de David Fincher está aí – na Netflix – e para a nossa expert em filmes, Mank é uma pura obra de arte

Seis anos depois de um dos meus filmes favoritos, “Gone Girl” ou como se lê nas telas portuguesas “Em Parte Incerta”, David Fincher regressa com “Mank”.

Este é, nada mais nada menos, do que o sonho do pai dele que depois se tornou no seu sonho. Foi Jack Fincher que escrever o argumento deste filme, mas foi o filho que concretizou, finalmente, esta vontade de levar a história aos lares dos quatro cantos do mundo. 

David insistiu em ter fotografia a preto e branco, em usar técnicas de filmagem dos anos 30 e 40 e ter arquitetura sonora da época. Mas porquê? Pois, cá vamos nós ao primeiro problema.

Este filme não é para todos. Ou conhecemos a história ou estamos ali a pedir à Netflix por recomendações melhores. 

O realizador insistiu em várias coisas para conseguir assegurar as emoções do que se viveu na época em que acontece a história. Este filme é sobre um filme. 

É uma história verídica e leva-nos até à conhecida Era de Ouro de Hollywood, para conhecermos Herman J. Mankiewicz (Gary Oldman) o argumentista que aclamou ser o único escritor de um dos melhores filmes de sempre “O Mundo a Seus Pés”, de 1941.

“Mank” desdobra-se em vários flashbacks que nos mostram experiências passadas entre o argumentista e o realizador Orson Welles enquanto, polemicamente, produziam o filme. 

De acordo com a versão da história apresentada por Fincher, foi Mank (apelido de Herman Mankiewicz e graças a Deus porque dizer este apelido é passagem direta para sofrer bullying), que decidiu basear algumas personagens do filme em figuras reais, tais como, William Randolph Hearst que inspirou o personagem Charles Kane e a atriz Marion Davies que inspirou a personagem Susan Alexander. Bom, isto agora é uma confusão com nomes. Mas não se percam, pouco importa.

Para os que conhecem o filme, à medida que “Mank” avança, a narrativa e alma de “O Mundo a Seus Pés” começa a fundir-se e permite-nos entrar na mente do argumentista.

Rapidamente percebemos que Mank é um anti-sistema e no meio da sua loucura de querer ser diferente e deixar a sua marca no mundo cinematográfico começa a ficar extremamente desapontado com a cegueira dos estúdios e de como o processo de lançar um filme é completamente desgastante. 

Bom, a verdade é que Fincher é um mestre reconhecido por vários e longos motivos, mas no que diz respeito ao conteúdo, temos mesmo uma novidade.

“Mank” é o filme mais político do realizador até à data, que grita ao mundo o quão corruptos são os media e como é fácil obedecer às estruturas de poder americanas.

Portanto, é um filme pessoal em dose dupla. Pessoal porque David desenvolveu um filme a partir de um texto escrito pelo pai. Sente-se em cada cena a paixão que ambos partilham pelo personagem Mank, que nem sempre foi personagem. E, claro, sente-se em vários momentos o tom crítico e político e percebemos que não desperdiçou nem uma oportunidade para apontar dedos.

 

Não sei que mais posso dizer, porque, é verdade que este filme é restrito. Não se pode chegar à Netflix e começar a ver sem antes fazer o trabalho de casa. Por mais pequeno que seja, é essencial perguntar ao Sr. Google quem foi Mank e Orson Welles.

Depois dessa pequena pesquisa, posso garantir, sem medo de me arrepender, que vão ficar maravilhados com esta obra prima. 

“Mank” é um olhar tecnicamente brilhante de Hollywood, que descasca as várias camadas da batalha de um argumentista e de um realizador que marcaram a história do cinema e na altura, nem se aperceberam do que fizeram.

Falo de brilhantismo e tenho de falar de Gary Oldman que foi perfeito, apesar de interpretar um personagem 20 anos mais novo do que ele. Consegue transmitir-nos toda a real essência do génio Mank, que se deixou levar pelo álcool e pelas ordens da indústria sem nunca abrir mão das suas convicções.

Amanda Seyfried também tem o seu destaque! Não foi incrível como Gary, mas foi bastante expressiva e protagonizou os melhores diálogos de todo o filme. São estes diálogos que nos fazem perceber o lado heroico e romântico do génio Mank.

Visualmente é arrebatador e ficamos apaixonados por todos os detalhes, sejam amantes do cinema ou não, é impossível chegar aos créditos sem um brilho gigante nos olhos e com vontade de viver tudo novamente. 

É muito mais do que uma memória, homenagem ou dedicatória de amor… o filme é uma denúncia à indústria do cinema e aos estúdios que manipulavam a opinião pública. Dá para ser poético e político? Dá para ser politicamente poético? 

Mank é imperdível, mas por favor, façam uma leitura rápida e aproveitem um dos melhores filmes deste ano atípico!

 

Classificação TIL: 8 / 10