Crítica: Greyhound – Mais um capitão heróico de Tom Hanks


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Já estamos habituados a ver Tom Hanks com o “chapéu de capitão”. Foi capitão Miller em Resgate Do Soldado Ryan, capitão Sully em Milagre no Rio Hudson, capitão Phillips que foi indicado a Óscar para melhor filme de 2014, e agora é capitão Ernest Krause em Greyhound.

O filme Greyhound estava previsto para as salas de cinema, no entanto a pandemia trocou as voltas e teve estreia mundial na plataforma de streaming Apple TV+. Esta história é inspirada em factos reais sobre a Batalha do Atlântico, durante a Segunda Guerra Mundial. Tom Hanks na pele de George Krause, é um capitão oficial que tem a sua primeira viagem como líder de um navio norte-americano USS Keeling, apelidado de Greyhound, e de um comboio de navios aliados, sendo encarregue das vidas de milhares de soldados durante a perigosa travessia dos EUA até à Europa. Sem cobertura aérea durante cinco dias, o capitão e o seu comboio são obrigados a enfrentar sozinhos os submarinos nazis que os rodeiam e atacam sem dó nem piedade. Krause nunca esteve em combate e por isso, precisa de muita inteligência e controlo mental para vencer e salvar a tripulação.

 

Conta com a realização de Aaron Schneider e com Tom Hanks como argumentista, que adaptou a história do livro The Good Shepherd de C.S. Forrester e acabou por não fazer um bom trabalho. Ora vejamos:

Apesar de já esperado, Hanks é um maravilhoso e versátil ator e não desilude na pele de George Krause, porém, o argumento não explora a sua personagem como nós gostaríamos e ficamos a maior parte das vezes confusos com as emoções que nos são entregues porque é difícil interpretá-las. São poucos os momentos que nos envolvem na personalidade do capitão, talvez conseguimos ter uma breve sensação mais intimista nas cenas iniciais em que vemos o capitão Krause ser rejeitado por Evelyn (Elisabeth Shue) ou nas cenas de grande companheirismo com o chefe de cozinha George Cleveland (Rob Morgan). Mas acaba por ser superficial e ficamos longe de nos sentirmos afetos a este capitão. Basicamente temos um argumento que tenta sem sucesso colocar a guerra como protagonista, mas foca tanto no capitão que acaba por se tornar numa história de guerra vista pelos olhos de quem não quer estar nela.

Para ajudar (ou não) o desastre do argumento, o filme realizado por Aaron Schneider é muito impessoal e revela de forma muito clara a inexperiência do realizador. Ou seja, temos um filme muito técnico, em torno de um drama de guerra com poucos diálogos e sem espaço para os atores brilharem. Percebemos que o objetivo é focar no capitão Krause e nas cenas de ação que são imensas. Aliás, a sequência de ações é constante e torna-se excessiva, impedindo-nos de criar tensão ou suspense. Nem dá para respirar, temos de estar muito atentos ou perdemos o fio à miada.

Tinha dado jeito mais minutos de filme. Este é dos pouco exemplos em que o tempo é curto e seria bom ter mais tempo de tela, talvez com cenas menos frequentes de ação técnica e mais emoção das personagens.

Os efeitos especiais são eficientes com cenários reais que criam conforto visual mas sem nunca ser perfeito, o que salva Greyhound. Interpretamos muito facilmente as sensações de movimento através dos efeitos especiais envolvidos com a fotografia azulada de Shelly Johnson. Outro ponto positivo são os movimentos de câmara que acompanha sempre o protagonista dando oportunidade ao espectador de sentir que está na história ao lado do capitão para o apoiar. O realizador também faz um bom uso de filmagens panorâmicas brilhantes que captam a verdadeira escala da batalha e a gravidade da situação. A produção sonora e banda sonora são poderosíssimas o que destaca ainda mais o filme, que tecnicamente falando tem tudo o que precisa para ser um bom filme de guerra.

Num dos pilares, Greyhound não falha, porém falha noutro igualmente importante: história e personagens. Todos os instantes são dedicados às batalhas, enquanto Krause e a sua tripulação tentam sobreviver aos constantes ataques dos submarinos nazis. A falta de qualquer desenvolvimento de personagem até pode ser compensada, desde que no final tenhamos uma experiência única de ação realista. Mas a história não é cativante e os momentos de ação estão presos num ciclo sempre igual, durante todo o filme. Começamos com cenas carregadas de tensão, mas a partir deste momento, o nível de entretenimento cai drasticamente.

Gosto de filmes de ação que são capazes de me envolver de uma forma imersiva e que me faça sentir dentro da história. Tudo requer qualidade de produção excecional, com efeitos visuais perfeitos e produção sonora poderosa. Mas a história e desenvolvimento de personagens tem de existir e tem de ser igualmente forte para que o público consiga realmente sentir a atmosfera e experiência do filme, certo?

Greyhound tem um dos melhores atores de todos os tempos como protagonista e uma produção técnica bastante razoável. Mas será que tem a verdadeira essência de um filme de guerra de sucesso? Creio que não… Preferia ter tido um capitão muito mais emocional do que um capitão técnico que luta pela vida de milhares.

Classificação TIL: 6/10

 

Texto: Sofia Correia