Marriage Story – o desapego é uma batalha sem vencedores (contém spoilers)


Só no início do próximo mês é que vamos saber quantos Globos de Ouro ganhará “Marriage Story”, nomeado para seis categorias nos prémios que servem de antecâmara para os Óscares.

Se houvesse uma distinção para filme com o título mais irónico de 2019, este seria este o vencedor antecipado – “Marriage Story” é na verdade a crónica do divórcio entre Charlie (Adam Driver) e Nicole (Scarlett Johansson), o casal protagonista deste novo lançamento da Netflix, realizado por Noah Baumbach (A Lula e a Baleia; Frances Ha), que também é autor do argumento.

Charlie e Nicole são millennials atípicos: casaram cedo e, pouco depois, tiveram Henry (Azhy Robertsson), que tem oito anos de idade. Charlie é encenador e diretor de uma companhia teatral de Nova Iorque e Nicole é uma atriz que, cansada de fazer papéis menores para TV, decide deixar Los Angeles no início da relação de ambos, tornando-se a “musa” das peças do marido. Charlie encara a companhia teatral como uma segunda família e vai construindo uma carreira consistente, com alguns projetos a terem estreia na Broadway.

O “meio” é, portanto, o de uma burguesia artística “remediada”, ela vinda de uma família de atores de Hollywood, ele subindo a pulso numa carreira financiada através de bolsas e subsídios, depois de ter sido criado numa família desestruturada, com que mantém pouco ou nenhum contacto. Vivem em Nova Iorque, mas passam os períodos de férias em Los Angeles, com a família de Nicole.

 

Logo no início do filme encontramo-los em processo de separação, acompanhados por um mediador que lhes pede que escrevam sobre aquilo que mais gostam um no outro. É assim, em dois trechos narrados alternadamente por cada um deles, que ficamos a conhecer a intimidade desta família – quem corta o cabelo a todos lá em casa, qual deles devora sanduíches de forma sôfrega, quem é o melhor mediador de crises familiares, além de ficarmos a saber que ambos são bastante competitivos, mesmo a jogar Monopólio –  este é um filme de pormenores, onde nenhum detalhe do argumento foi escrito sem um propósito ilustrativo ou uma relação de causalidade.

Rapidamente a separação, que ambas as partes desejavam amigável, se transforma numa ação de divórcio litigioso: é Nicole que a submete pouco depois de pegar em Henry e voltar para Los Angeles – sente ter vivido à sombra da carreira do marido, chegando a altura de atender às suas próprias expetativas, resolvendo aceitar o papel principal no episódio-piloto de uma série para televisão. Para a representar é convencida a contratar Nora, uma intempestiva advogada interpretada por Laura Dern, que a aconselha a retratar Charlie como um marido autocentrado, alguém indiferente às suas perspetivas de carreira e à sua vontade de viver em Los Angeles, defeitos a que se junta um episódio de adultério com uma colega de trabalho.  

E se durante o primeiro terço do filme é a personagem de Nicole que tem maior destaque na ação, agora é Charlie que tem de correr “atrás do prejuízo” – também ele é obrigado a contratar advogados para não perder a custódia total da guarda do filho. E são deles algumas das melhores deixas do filme, como quando Ted (Kyle Bornheimer), um dos defensores de Charlie, refere que os advogados criminais vêm as pessoas más no seu “melhor”, enquanto os especialistas em divórcios vêm as pessoas boas no seu pior momento.

 

“Marriage Story” vive também das diferenças entre as duas maiores cidades americanas e Charlie, que até esta altura vive “em negação” sobre a realidade por que está a passar, é aconselhado a comprar casa em Los Angeles, de forma a mostrar-se como aquilo que sempre foi – um pai presente.

É conhecido o “complexo de superioridade” que os nova-iorquinos sentem pela cidade do celuloide, que consideram uma terra artificial, e são constantes as referências às diferenças entre as duas cidades no enredo, com a piada mais recorrente, ser a referência ao “espaço” de que LA beneficia, algo que espoleta um dos trechos mais comoventes de “Marriage Story”, quando pai e filho passam a noite de Halloween a conduzir pela cidade, batendo às portas das mansões de Sunset Boulevard a pedir doces. “Isto em Nova Iorque dava para fazer a pé”, diz Charlie quando se apercebe que está a perder o filho para tudo o que Los Angeles representa, numa sequência que nos remete para “Ladrões de Bicicletas” (1948), filme-definidor do movimento neo-realista italiano.

Diz-se que muito de Marriage Story é autobiográfico, inspirado no divórcio do realizador e da atriz Jennifer Jason Leigh. Contudo, mesmo com uma componente pessoal tão vincada, uma das maiores virtudes do filme é nunca tomar partes – ambas as personagens principais têm mais que uma dimensão, nenhuma delas é diabolizada e ambas enfrentam um processo doloroso de luto pela intimidade que partilhavam. Isso é visível na cena da visita de Nicole a Charlie, numa última tentativa de chegar a acordo e não levar o processo a tribunal. São dez minutos em que a câmara alterna entre cada uma das personagens, numa sequência de planos em closeup dos seus rostos, que são alternados por planos gerais, onde um deles manifesta a vontade de que o outro morresse e uma parede acaba esmurrada.

“Marriage Story” não é uma obra perfeita. Há momentos onde os atores perdem alguma naturalidade interpretativa, como acontece a Adam Driver nesta cena de discussão por exemplo. Além disso, é pouco plausível que qualquer dos elementos do casal pudessem sustentar este divórcio “à americana”, com “advogados-tubarões” caríssimos (Jay, que é interpretado por Ray Liotta, defende Charlie e cobra um valor por hora equivalente ao salário médio mensal português).

Contudo, o filme é muito recompensador pela empatia que nos gera o sofrimento das personagens no seu lento e gradual trajeto de desapego, seja pela desorientação de Charlie, que passa metade do filme sem se aperceber que vai mesmo perder a esposa; ora quando Nicole lhe corta o cabelo em pleno processo de divórcio ou lhe ata os sapatos enquanto ele leva Henry ao colo, já perto do final. O título pode ser irónico, mas o espectador não perde carinho e identificação pelas personagens, que jamais chegam perto de se tornarem uma caricatura.

 

Classificação TIL: 8/10