Crítica: O Dilema das Redes Sociais – Mergulhamos no nosso íntimo em vez de o partilharmos!

the social dilemma

As redes sociais já não são o sítio de partilha entre amigos e familiares. Hoje, são plataformas online de negócio. Mas até aqui já todos tínhamos chegado, certo? Até porque somos constantemente bombardeados com anúncios para comprar produtos e serviços de todas as maneiras e feitios. 

Há muitas coisas que me irritam nas redes sociais. Mas a pior de todas, aquela que me deixa a ferver, é quando o meu feed é inundado de anúncios semelhantes a algo que tenha pesquisado anteriormente. Já vos aconteceu também, de certeza!

Por exemplo, já sabia que muitos amigos meus compravam ténis no Facebook. São mais baratos e apesar de muitos parecerem que foram feitos numa hora e sem atenção aos detalhes, dão jeito. Ora, o que eu vou fazer? Vamos lá cair nesta tentação e procurar uns ténis jeitosos que façam casal perfeito com a minha carteira.

Socorro, pesquisei uma vez! Chego ao feed das minhas redes sociais e só vejo ténis! De todas as cores, de todas as marcas, uns até tinham rodas (para quê? Patins servem perfeitamente).

Mas isto é apenas um exemplo. Acontece com tudo. E isto serve para dizer o quê? Que tudo o que fazemos online está a ser visto e registado. Sim, é assustador sabermos que há pessoas que têm acesso a todas as nossas informações e que sabem todos os passos que damos online. Mas, a mim, o que me assusta mais não é terem esse acesso, mas sim aquilo que fazem com o que sabem sobre mim. Sobre mim, sobre ti e sobre todos. 

O novo documentário da Netflix, O Dilema das Redes Sociais, questiona o bom e o mau das plataformas digitais e dá-nos a uma perspetiva pedagógica de como funciona a “economia do clique” e o capitalismo de vigilância. Provavelmente, depois de veres o documentário, percebes que já sabias tudo isto, só que não tinhas consciência de que sabias, preferes ignorar. Assim aconteceu comigo. 

É feito de testemunhos de antigos funcionários das grandes empresas tecnológicas, como Google, Facebook e Twitter e deixa bem evidente a forma como a liberdade está a ser posta em causa. 

A questão é, quais é que são as consequências de tudo aquilo que partilhamos nas redes sociais?

Nós estamos a ser, constantemente, programados para vermos sempre a mesma coisa. E como é que isto acontece? Com a recolha de dados sobre tudo o que vemos e quanto tempo vemos. Sim, o tempo que estamos a ver um post também é registado. 

Se compararmos o Facebook nos primeiros anos com o atual, parece que falamos de uma rede social diferente. Hoje, parece impossível entrar no Facebook uma única vez no dia. Com tantos usuários não dá para ver tudo o que é partilhado e por isso começamos a perder interesse na maior parte dos conteúdos. Aqui entra o algoritmo que, supostamente, identifica tudo aquilo que queremos ver, baseado nos nossos dados registados.

Pronto, se te questionas o porquê de veres sempre as mesmas pessoas ou mesmo tipo de conteúdo, é esse o motivo.

Até podia servir para “organizar” melhor o teu feed, de forma a captar a atenção e interação durante mais tempo. Só que nos últimos anos, esta ferramenta é utilizada de forma exaustiva para sermos expostos ao mercado ou a ideias políticos e sociais que, no final, vão te influenciar. 

Estas foram as ideias fundamentais que retirei do documentário. Não o achei maçador, talvez um pouco exagerado, mas até acho que é necessário o tom exagerado para que sirva de alarme. É claro que não acho que as redes sociais vão mudar, pelo contrário. Também percebi que há muitos interesses envolvidos e eu, por exemplo, ainda sinto que não sei nem metade do que realmente se passa. 

O documentário denuncia as empresas tecnológicas altamente capitalizadas que são “obrigadas” a responder a investidores que os ajudaram a crescer. Ou seja, o único objetivo é ganhar dinheiro e rentabilizar os utilizadores. 

Como diz Jaron Lanier no documentário, o fundamental destas empresas é: prender o utilizador o mais tempo possível na plataforma, fazer com que o utilizador chame mais pessoas ou conteúdo e lançar anúncios para gerar dinheiro. 

É dito no documentário que este ambiente digital que temos responde a uma lógica comercial que vai ter consequências prejudiciais para a sociedade, como a desinformação, a radicalização ou a polarização entre posições políticas. Este ponto é extramente importante e para mim foi a parte em que o documentário investiu a maior força alarmante. Quando se diz que somos influenciados pelas redes sociais nem temos a menor ideia de como somos. 

Faz um exercício. Vê o feed das pessoas mais próximas de ti. Familiares, amigos mais próximos ou pessoas que partilham dos mesmos gostos. Compara o teu feed das redes sociais com o feed dessas pessoas. Podes ter logo a conclusão chave do documentário. 

Vou deixar-te só mais esta ideia: As redes sociais são, ou deveriam ser, um espaço público onde vês partilhas de todos os que segues. Mas diferenciam o feed de cada um de nós de acordo com os nossos comportamentos anteriores. Ou seja, tornam-se profundamente íntimas e pessoais, quase como se fosse um autorretrato. Só vês conteúdo que de alguma forma corresponde aos teus ideais, valores e gostos. 

Se falarmos em “estar em sociedade” sabemos que temos de aprender a lidar com perspetivas opostas e debater civilizadamente. Estar online não é assim que funciona, uma vez que o que recebemos é o resultado de um algoritmo que trabalha para te dar só o que te agrada. 

Há muitas respostas às tuas perguntas e ideias que te vão fazer surgir perguntas neste documentário. Recomento a 100% e para além disso, recomendo que depois de veres o documentário faças alguns exercícios para que encontres as tuas próprias conclusões! 

 

Classificação TIL: 7,5 / 10

 

Texto: Sofia Correia