Carta aberta às cartas abertas


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André Castro
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Nesta crónica, André Castro  questiona todos os mestres das cartas abertas. E aproveita então para desvendar uma carta aberta a estas cartas abertas.

Chegamos a Maio e isso marca o início de um acontecimento recorrente de ano para ano – está oficialmente a época das cartas abertas – lembram-me sempre dos meus tempos na Escola Secundária Domingos Sequeira.

Ora, uma carta aberta não deveria ser mais do que uma situação comunicativa originada pela pessoa que pretende transmitir a mensagem – o emissor – destinando-se a um, ou vários, destinatários interessados a receber essa mensagem – o recetor. O objetivo da mesma passa por persuadir, informar, entreter, informar, instruir, ou outras finalidades discursivas. 

Qual é o problema? Sinto que, na minha humilde opinião, os indivíduos considerados de emissores não cumprem o objetivo de persuadir, informar, informar ou instruir, mas sim de fazer queixinhas – o que não deixa de ser, sem dúvida, entretenimento.

Após analisar vários exemplos ao longo da minha vasta pesquisa – incluindo dedicados escritores de Leiria que não vou honrosamente mencionar – tirei 2 conclusões importantes.

Um dos motivos para alguém escrever uma carta aberta, é geralmente egoísta. Os mais comuns, “não tenho média para medicina por 1 décima e isso é injusto!” ou “o nosso país não está preparado para a minha geração!”. 

O mais engraçado deste egoísmo é o facto de ser ingénuo. Desconfio que estas pessoas pensam genuinamente que são as únicas injustiçadas num sistema que prejudica milhares de estudantes e beneficia outros tantos. Mas sim, estudante que teve um esgotamento por estudar todos os dias e agora não vai conseguir seguir o seu sonho de ser médico porque a sua média não o deixa, foi só a ti que isso aconteceu! Foi o único que estudou arduamente e só lhe faltaram umas décimas! O Joker da lotaria! Esta carta aberta que vai resolver os seus problemas e o irá fazer seguir os seus sonhos e objetivos! Porque o que não se consegue por mérito, consegue-se por cartas abertas.

O segundo aspeto que me deixar particularmente incomodado é o facto destas cartas serem sempre dirigidas a alguém extremamente importante ou a algo que – quase de certeza – não se vai dar ao trabalho de ler, nem tão pouco a responder. “Caro Sr. Primeiro-ministro” ou “Estimado Sr. Presidente da República” ou até “Ao meu caro país”. Porque é que nunca vi uma carta aberta remetida como “querida mãe” ou “estimada professora de Economia A”?

 Não sei se classifique este ato como presunçoso, ou arrogante, mas acho extremamente desagradável – já para não dizer trabalhoso – escreverem algo assim para o vosso país na esperança que a situação mude. Ou melhor, na esperança que alguém vá ler.

Isto tudo para chegar a um ponto muito simples – que vou expressar por meio de uma carta aberta, uma vez que EU me sinto indignado com o MEU problema existencial do qual mais NINGUÉM sofre – caso não tenham percebido, os autores de cartas abertas mostram o seu descontentamento e angústia em caps lock. Aqui vai…

Estimadas cartas abertas,

Ninguém vai ler. 

Atenciosamente,

 

Foto: DR

 

Crónica: Combater o vírus com viralidade


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André Castro
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Para o nosso cronista André Castro há um maior vício que comprar rolos de papel higiénico, fazer bolos ou ginásio em casa. Chama-se vício de “bolinhas cor-de-rosa no Instagram”.

Desculpem, queria começar a escrever sem ter de abordar os temas pandemia, crise de saúde mundial, COVID19 ou mesmo Coronavírus. Mas é impossível!

Se me foi ensinado nas aulas de economia do ensino secundário da Escola Secundária Domingos Sequeira que atingir um mercado de concorrência monopolista é deveras impossível- ora bem, aqui está ele! Digam-me qual é a concorrente deste assunto. Digam-me o diálogo que irá competir contra este gigante mundial!

Mas bem, não sei se é de mim – que muito provavelmente tenho demasiado tempo livre – pensei num potencial concorrente para fazer frente a este vírus, não só em termos de individualizar toda e qualquer conversa, mas também em propagação. Já que se pode combater fogo com fogo, porque não combater vírus com vírus. A solução então passa por fazer diretos no Instagram (ou lives no Instagram para os mais connoisseurs).

Duvidam? Só o tema em si é viral! Desde que começou esta década de quarentena e isolamento social, a quantidade de lives no Instagram aumentou cerca de 762%, a duração da emissão para 3 dias e 17 horas, o tráfego na rede em 1985% e as conversas com psicólogos em 278%.

Quem duvidar destes dados completamente verídicos e verificados, deveria refletir na sua vida e criar uma conta e verificar por si mesmo.

Estatisticamente continuando, cerca de 84% do segmento que tem dado uso a este canal são as influencers, nomeadamente daquelas de maquilhagem (maquiagem?). Ora portanto, mais um canal para vermos alguém a desenhar um unicórnio no rosto, mas sempre nos podemos rir se eventualmente uma delas se enganar e não conseguir esconder a vergonha alheia que sente naquele momento.

Outra conclusão à qual cheguei foi o aumento exponencial das OCD’S derivadas de redes sociais. Tem noção, estimado leitor, quantas pessoas auferiram tiques no sistema nervoso por não conseguirem evitar carregar num círculo rodeado a um rosa choque (desculpem a minha falta de conhecimento de cores). Eu também não, mas devem ser muitas.

Eu sou uma delas. Esta OCD obriga-me a carregar em todas as bolinhas rosa choque que encontro. O problema de tal, é que já chegou a um nível superior ao Instagram – e devem imaginar o quão constrangedor é para alguém estar em locais públicos a carregar no ar porque pensa que alguém entrou em direto? Deixo no ar!

Deixo-vos então os meus conselhos e dicas – daquelas à guru, que nos fazem pensar no quão útil eles têm sido neste momento – para vos ajudar a todos a fazer lives mais eficazes no Instagram e aumentar o seu número de seguidores porque é disso que o mundo precisa neste momento. A melhor dica que tenho para vos dar é que sejam vocês próprios! A não ser que sejam desinteressantes – aí sejam outra pessoa.

Termino este conjunto de observações (não me sinto digno de chamar crónica a tal) com um apelo ao apoio da cultura e mais iniciativas que entretenham e bem disponham a comunidade, seja qual for o interesse do leitor. Eu sei que podia estar a falar de iniciativas importantes e informativas, mas que piada é que tinha?

Deixo as minhas recomendações pessoais, não só de eventos da região mas de conteúdo de qualidade que encontrei ao longo desta quarentena. Começo por recomendar o Evento Stay Still – esse mesmo – que apesar de já ter decorrido, pode sempre encontra-lo nas redes sociais da TIL Magazine. Como live no Instagram, aconselho o “programa” Como é que o bicho mexe, protagonizado por Bruno Nogueira e seus amigos. Como filme, recomendo Pandemic, pois faz sentido para mim dada a altura em que nos encontramos. Por fim, recomendo o especial de Daniel Sloss disponível na Netflix – Jigsaw. Este último poderá ser um desafio caso o estimado leitor fique ofendido facilmente, mas deposito as minhas esperanças que tenha sentido de humor!

Para os interessados, encontro-me presente nas noites de sábado para todos nos rirmos um bocadinho – desculpem pela autopromoção.

 

Foto: Visão

Uma brisa desagradável


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André Castro
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Leiria parece a região perfeita para tudo! Cultura, educação, qualidade e estilo de vida… vou só enumerar assuntos onde estou familiarizado, pois não me sinto confortável a falar de assuntos que não sei.

De acordo com várias fontes minhas (que não mencionarei para não as descredibilizar), Leiria é a melhor cidade para tudo: Cidade com mais qualidade de vida!; Melhor cidade para trabalhar!; Futura capital europeia da cultura!; Futura capital europeia do desporto!; Melhor cidade para fazer uma corrida à quarta-feira à noite!; Melhor cidade para os góticos beberem o que eles gostam de meter na goela… enfim, chega de enumerar factos que demonstram a exímia (as minhas desculpas pelo uso de tal expressão, apenas gosto que os meus 7 leitores pensem que tenho toques de intelectualidade no meu discurso) qualidade da nossa cidade.

Vocês Leirienses tornam o meu trabalho difícil! Pouco ou nada que se torne gozável, certo? Esfrego as mãos e solto uma gargalhada irónica por cada pessoa que acredite que isso é verdade! Aposto convosco, estimados leitores, que consigo humorizar algo tão próprio, tão nosso, que poderia ter sido o próprio D. Dinis a elaborá-lo.

No entanto, foram as intragáveis Maria do Céu Lopes e Georgina Santos – que nomes tão Leirienses – que criaram a magnífica brisa do Liz (ou como elas dizem: Beijinhos do Liz) e que há umas semanas se encontrou a disputar a primeira liga dos doces! E sim, ao contrário do União, estas passaram às distritais (aquele humor de bola só para quem não tem filtro).

Falo do programa “7 Maravilhas Doces de Portugal” transmitido pela RTP1, onde o sonho só acabou com um penálti convertido nos últimos minutos por outros doces que agora são detentores do título “doce maravilha”.

Agora os leitores mais curiosos perguntam “Onde é que a derrota das brisas do Liz e humor estão relacionados?”, ao qual eu responderia, se tal pergunta fosse feita “Calma, já lá vamos!”.

As Brisas não ganharam, mas eu também não degusto doces pela quantidade de prémios que cada um detém – não são os prémios que me fazem ter diabetes.

Relembro o que se passou: enquanto esta maravilhosa combinação de ovos, amêndoas e açúcar esteve na ribalta, toda a gente as deliciava! Eram fotos de felizardos a provar o doce! Grupos de embaixadores foram criados para promover um 760 qualquer (temos de falar destes embaixadores, mas talvez isso fique para outra conversa!). Foram criadas mascotes, clubes de fãs, músicas, tudo! Nunca Leiria esteve em tal euforia por algo tão nosso!

Até que… as Brisas não corresponderam aos 760 ligados. Ao valor simbólico mais IVA que milhares de Leirienses investiram em vez de investirem em mais doces! E agora não há mascotes, não há embaixadores a promover os doces, não há cantigas, não há nada… a não ser a própria Brisa. Aquela que agora só é deliciada pelos verdadeiros amantes da mesma, por aqueles que não se importam de ter doenças cardiovasculares futuramente. Não sei, pode ser de mim, mas tenho a sensação que é algo tipicamente da região, só apreciar as coisas quando elas estão na ribalta… tenho a sensação de que o povo leiriense se sente injustiçado, a pensar para dentro em caps lock “NÓS MERECIAMOS MAIS do que a Filhós de Cabrela!”.

Pois bem, acabo com 2 conselhos geniais, característicos da minha experiência vasta em ser de Leiria: Não deixemos algo nosso ser arruinado por filhoses de Cabrela ou Charutos dos Arcos! As brisas não passaram a ser boas de repente, nem vão ser terríveis por não serem um “doce maravilha”. Se serve de consolo, de acordo com a minha pesquisa moderada, as brisas já são galardoadas noutras categorias. E por fim, pensem em mudar o nome a este doce! Brisa do Liz não vos remete para um cheiro desagradável proveniente de um rio? Ao princípio chamavam-se Beijinhos e tiveram de se moderar por levantar comentários marotos, já brisa… não me cheira!

A perspetiva de alguém que já não vê novelas há mais de 10 anos


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André Castro
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O André Castro é o novo cronista da TIL e quem sabe o próximo stand up comedian nos bares da cidade. Nesta primeira crónica, fala da sua experiência ao ver a novela da SIC, “Nazaré”. Spoiler alert: não vê novelas há sensivelmente 10 anos.

Não sou grande apreciador de novelas. Aliás, há anos que não acompanho uma! Sempre preferi seguir as minhas séries, no mundo da Netflix ou da HBO.  Num belísismo jogo de palavras considero essas séries “novelas autênticas ”. Contudo, hoje, decidi ver a estreia da nova novela da SIC – “Nazaré” – uma história que tem tudo para ser um sucesso na região de Leiria! 

Antes de começar, quero pedir desculpa se ao longo da crónica surgirem spoilers (palavra utilizada com frequência por esta geração millennial). Aliás, pensando melhor, também não há grande problema em revelar algumas coisas. Até porque depois vocês vão ter 243754 episódios para se vingarem e me dizerem quem matou quem (aquele clássico de novela).

Sempre me questionei sobre o porquê de se utilizar a expressão “A minha vida dava uma telenovela” e, após este primeiro episódio, descobri o motivo. Poderia ser pela história, o drama ou mesmo a parte aventureira – todas características associadas a esta ficção – mas as nossas vidas dariam uma novela por estas serem rotineiras e repetitivas. Metaforicamente falando, esta novela é o 4º cromo que vos sai nas saquetas e não conseguem trocar por toda a gente já ter os outros 4. Não perceberam? Então faço questão de explicar: 

A Carolina Loureiro estará envolvida num triângulo amoroso (talvez um quadrado ou círculo, não gosto de discriminar formas geométricas), em que uma das personagens é um playboy (com um pai rico e uma fortuna superior ao restante elenco) e a outra é uma pessoa “banal” que luta pela vida fazendo pequenos atos ilegais, como tentar prejudicar a vida da família afortunada. A história desta novela inicia-se com alguém a matar outro alguém numa mata (sendo que poderia ter sido o José Mata mas não quero dar spoiler) porque o primeiro alguém fez asneira na empresa do alguém que por acaso era o seu irmão. Peço desculpa pela confusáo nas palavras mas não arranjei outra forma de tratar as personagens sem ser por “alguém”. Sou sincero: não prestei muita atenção. Umas das mortes corre mal e agora toda a família do alguém que tentou matar outro alguém está em apuros. Juntam-se ao enredo principal incestos, traições, gravidezes inesperadas, famílias que não eram famílias mas que no fim são todos parte da mesma família e aí está! Uma novela completamente “diferente”, mas somente porque, desta vez, a discussão do mercado é sobre qual o melhor peixe.

Numa região onde já se surfaram ondas com mais de 30 metros, podemos afirmar que ter esse nome numa novela, em horário nobre, seria grandioso. Isto se as referências não fossem inexistentes (minto, decidiram recordar o acontecimento das ondas gigantes). Como solução, embora claramente tardia, sugiro a aposta e formação de argumentistas provenientes da região – e saberão que nenhum dos nomes escolhidos para o elenco faz algum sentido. Onde estão as famílias Estrelinha, Periquito, entre outras?

Mas nem tudo é mau. Ao menos não associaram esta bela terra a problemas graves, como incêndios, homicídios, crimes organizados ou consumo de drogas. Ah, espera lá. Afinal Nazaré é Medellin e o Albano Jerónimo é o nosso Pablo Escobar. Um orgulho.

Por fim, espero não ter indignado ninguém, muito menos ter parecido presunçoso. Se há coisa que não quero é começar no mundo da escrita humorística com um grupo de pessoas indignadas e insatisfeitas com as minhas opiniões. Mas não posso não pedir indignação quando eu próprio pareço indignado – não sei, talvez a minha vida desse mesmo uma novela…

 

Fotografia: DR