A perspetiva de alguém que já não vê novelas há mais de 10 anos


Escrito por:
André Castro
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O André Castro é o novo cronista da TIL e quem sabe o próximo stand up comedian nos bares da cidade. Nesta primeira crónica, fala da sua experiência ao ver a novela da SIC, “Nazaré”. Spoiler alert: não vê novelas há sensivelmente 10 anos.

Não sou grande apreciador de novelas. Aliás, há anos que não acompanho uma! Sempre preferi seguir as minhas séries, no mundo da Netflix ou da HBO.  Num belísismo jogo de palavras considero essas séries “novelas autênticas ”. Contudo, hoje, decidi ver a estreia da nova novela da SIC – “Nazaré” – uma história que tem tudo para ser um sucesso na região de Leiria! 

Antes de começar, quero pedir desculpa se ao longo da crónica surgirem spoilers (palavra utilizada com frequência por esta geração millennial). Aliás, pensando melhor, também não há grande problema em revelar algumas coisas. Até porque depois vocês vão ter 243754 episódios para se vingarem e me dizerem quem matou quem (aquele clássico de novela).

Sempre me questionei sobre o porquê de se utilizar a expressão “A minha vida dava uma telenovela” e, após este primeiro episódio, descobri o motivo. Poderia ser pela história, o drama ou mesmo a parte aventureira – todas características associadas a esta ficção – mas as nossas vidas dariam uma novela por estas serem rotineiras e repetitivas. Metaforicamente falando, esta novela é o 4º cromo que vos sai nas saquetas e não conseguem trocar por toda a gente já ter os outros 4. Não perceberam? Então faço questão de explicar: 

A Carolina Loureiro estará envolvida num triângulo amoroso (talvez um quadrado ou círculo, não gosto de discriminar formas geométricas), em que uma das personagens é um playboy (com um pai rico e uma fortuna superior ao restante elenco) e a outra é uma pessoa “banal” que luta pela vida fazendo pequenos atos ilegais, como tentar prejudicar a vida da família afortunada. A história desta novela inicia-se com alguém a matar outro alguém numa mata (sendo que poderia ter sido o José Mata mas não quero dar spoiler) porque o primeiro alguém fez asneira na empresa do alguém que por acaso era o seu irmão. Peço desculpa pela confusáo nas palavras mas não arranjei outra forma de tratar as personagens sem ser por “alguém”. Sou sincero: não prestei muita atenção. Umas das mortes corre mal e agora toda a família do alguém que tentou matar outro alguém está em apuros. Juntam-se ao enredo principal incestos, traições, gravidezes inesperadas, famílias que não eram famílias mas que no fim são todos parte da mesma família e aí está! Uma novela completamente “diferente”, mas somente porque, desta vez, a discussão do mercado é sobre qual o melhor peixe.

Numa região onde já se surfaram ondas com mais de 30 metros, podemos afirmar que ter esse nome numa novela, em horário nobre, seria grandioso. Isto se as referências não fossem inexistentes (minto, decidiram recordar o acontecimento das ondas gigantes). Como solução, embora claramente tardia, sugiro a aposta e formação de argumentistas provenientes da região – e saberão que nenhum dos nomes escolhidos para o elenco faz algum sentido. Onde estão as famílias Estrelinha, Periquito, entre outras?

Mas nem tudo é mau. Ao menos não associaram esta bela terra a problemas graves, como incêndios, homicídios, crimes organizados ou consumo de drogas. Ah, espera lá. Afinal Nazaré é Medellin e o Albano Jerónimo é o nosso Pablo Escobar. Um orgulho.

Por fim, espero não ter indignado ninguém, muito menos ter parecido presunçoso. Se há coisa que não quero é começar no mundo da escrita humorística com um grupo de pessoas indignadas e insatisfeitas com as minhas opiniões. Mas não posso não pedir indignação quando eu próprio pareço indignado – não sei, talvez a minha vida desse mesmo uma novela…

 

Fotografia: DR