Entrevista Griot: “O disco vive muito de uma história que está a ser contada”


Escrito por:

Os Griot lançaram recentemente o álbum Elisabeth. São uma banda de rock progressivo original de Leiria e fomos falar com eles sobre o álbum novo, experiências antigas e também sobre o futuro. Falámos com o João Pascoal, Sérgio Ferreira e Bruno Lousada, as pessoas por trás deste projeto

 

Começando pelo início, como é que a banda ganha forma? Vocês já se conheciam antes ou foi na banda?

João Pascoal: Eu já tinha trabalhado muitas vezes com o Sérgio, chegou uma altura que estávamos os dois com disponibilidade e decidimos montar este projeto para fazer música que gostássemos. Fomos construindo a base, eventualmente começámos a convidar outros músicos para complementar a sonoridade pretendida e também para termos colegas e amigos nossos a colaborar.

Sérgio Ferreira: Acho que o início culminou com a saída do João de Dream Pawn Shop.

JP: Sim, fiquei mais disponível e também procurava um escapatória criativa.

SF: Na altura They Came From the Sky já tinha dado o que tinha a dar, não foi?

JP: Sim, na altura esse projeto já estava em stand by e depois criei os Dream Pawn Shop com outros colegas. Quando me mudei para França tive de sair do projeto para eles continuarem o projeto deles e entretanto voltei a falar com o Sérgio, que já tinha trabalhado comigo nos They Came From the Sky. Já nos conhecemos há muitos anos.

SF: Sim, é importante também salientar que o João está a viver em França. Daí na nossa biografia ter a designação de banda multinacional, não só por nós os dois, mas também pelos vários convidados.

Bruno Lousada: Sim, há músicos de várias partes do mundo.

Gostava também de saber qual é a vossa bagagem no sentido de formação musical? Estudaram em alguma escola ou são autodidatas?

JP: Eu fui autodidata até tomar a decisão de tirar um curso superior de música, o que me forçou a fazer uma passagem pelo Orfeão de Leiria para preparar a leitura e a escrita de música. Depois de dois anos de contrabaixo passei na ESEC, onde fiz o curso superior de formação musical para poder dar aulas, no entanto como não fiz o mestrado, não optei por essa carreira. Foi também nessa altura que me mudei para França. Em termos de escrita, de captação sou autodidata.

SF: Eu sou totalmente autodidata. Tive apenas formação musical e aulas de bateria quando tinha 13 anos, mas foi só um ano.

BL: Da minha parte é um bocado também como o João, eu andei no Orfeão, fiz o conservatório, depois fui estudar jazz para Lisboa, estive lá 4 anos. Tive essa oportunidade e sou muito grato por isso, por todas as pessoas com quem aprendi e que me ensinaram muita coisa. Mas acho que o que acontece muito neste disco, talvez mais do que no primeiro, é que há uma fusão de várias coisas, porque nós os três ouvimos música muito diferente e este segundo disco é uma mistura de coisas que vamos absorvendo. Claro que tem um foco principal, há sempre uma direção maior, neste caso talvez mais para o rock progressivo mas não só, acho que há um background musical muito grande entre nós e acho que quem for ouvir o disco vai conseguir perceber isso.

JP: Exatamente. O primeiro foi muito mais focado, foi uma composição feita por mim e pelo Sérgio e acabámos por convidar pessoas para ajudar com uma melodia, com um solo, dar o seu toque. O segundo já foi mais pensado e já envolveu mais a participação de alguns convidados até na própria composição e isso nota-se também no resultado. O primeiro foi mais a experiência para começar o projeto e agora já sabemos melhor a estrada que queremos levar, o que não implica que o próximo álbum seja uma coisa diferente.

O primeiro álbum, o Gerald, é um álbum conceptual. Este também o é e vem no seguimento da história do primeiro. Isso é algo que vocês já tinham planeado?

JP: Inicialmente deixámos a história um bocado em aberto. Se eventualmente corresse bem o conceito de fazer uma história, um álbum e as músicas darem um seguimento ao livro, queríamos continuar com esse conceito e fechar a história como fizemos com o segundo álbum, ou seja, foi pensado mas também esperámos para perceber a reação do público. A história tanto podia ser só aquilo, uma peça única, ou poderíamos desenvolvê-la mais no segundo álbum, como acabámos por fazer.

BL: É importante também dizer que existem algumas referências ao primeiro álbum. Há sempre uma ligação ao Gerald. Quem ouvir este Elisabeth vai perceber algumas melodias, letras que aconteceram no primeiro disco e nós revisitamos. O livro vai complementar sempre as músicas do disco. É engraçado haver essa referência ao disco anterior. Há muitas bandas que fazem isso, eu gosto muito de ouvir isso e prezo muito quem o faz, é como se estivesse a marcar uma posição.

SF: Sim, até porque cerca de metade deste álbum acontece no mesmo espaço e tempo que acontece o primeiro, então achámos que fazia sentido existir essa ligação. Quem for ler consegue perceber melhor do que apenas ouvindo, mas quem ouviu com atenção o primeiro álbum vai com certeza notar isso.

JP: Quem ouviu o primeiro vai encontrar alguns temas, melodias e até riffs que reutilizámos com um estilo diferente e com uma sonoridade diferente, mas quem tiver o ouvido mais atento vai conseguir perceber essas referências. Mesmo a nível de letras também existem muitas referências.

Isso leva-me à questão seguinte que é sobre o vosso processo criativo. Quem é o catalisador? As letras originam em quem? As melodias?

JP: As letras vêm mais da parte do Sérgio, depois acabamos sempre por complementar em relação à história. A base da história vem de mim mas também de muitas sessões de Skype com o Sérgio para retificar, para acertar falas. Acaba por ser um trabalho em conjunto. Quanto às melodias, no primeiro álbum foi o Nuno Aleluia. Nas letras damos liberdade ao vocalista para dar o seu toque e fazer as melodias como quiser. Eventualmente, alguma secção sou capaz de escrever uma melodia e pedir ao vocalista para respeitar, mas mais de 90% do tema de voz é feito pelos vocalistas com toda a liberdade.

E quanto à parte instrumental? É contigo João e com o Sérgio que começa e vão pedindo adições dos restantes membros, ou cada um dá a sua ideia?

JP: Depende das músicas mas muitas vezes eu crio uma base com instrumentos simplificados, um padrão de bateria simples, mando ao Sérgio e digo “olha complica a coisa, dá o teu toque”. (risos) Muitas vezes não tem guitarras e eu envio ao Bruno e peço-lhe para ele adicionar uma guitarra para dar uma ambiência, um solo. Damos essa liberdade às pessoas. Muitas vezes como não estamos no mesmo local a ensaiar e a jammar, a criar as músicas, é criada uma base e é partilhada com os membros para darem o seu contributo.

BL: Mas é fixe haver essa liberdade. Lembro-me de estarmos a gravar e eu fiz um solo para um tema do disco e o Sérgio dizer “epá isso é um bocado estranho, mas é um estranho bom, que soa bem” (risos) e aquilo acabou por ficar na música. O que é estranho para mim pode não ser para outra pessoa e vice-versa, mas uma cena fixe é que há um consenso e conseguimos analisar e perceber se é bom ou se é mau dentro do que queremos fazer. Há sempre essa liberdade para tu fazeres coisas. O João manda-te uma faixa e diz, “olha preciso de uma guitarra aqui, vê o que podes fazer”, não te limita, não impõe, pede para experimentarmos, dá algumas orientações e sugestões mas há sempre liberdade e isso reflete-se no disco. É possível ouvir as diferentes identidades musicais das pessoas que participaram. Eu já tive pessoal a reconhecer partes que eu toquei porque já me conhecem.

Pegando nessa questão da identidade, queria perguntar também quais são as vossas influências, tanto para criar este disco como no geral?

SF: Eu devo ser a pessoa com influências mais fora. (risos) Claramente que tanto para este álbum como para outro, eu não posso ir buscar influências extremas que ouço, temas de metal mais pesado. Como dizia o Bruno, o João manda-me uma cena para eu trabalhar, faço uma trilha e mostro. Se gostar fica, se não, vamos trabalhando até chegarmos a um consenso, mas eu tenho de ter sempre a sonoridade que estamos a trabalhar que é rock progressivo, não invalida que não tenha partes mais pesadas. Há partes deste álbum, e também do anterior, não tantas mas há, que puxam para aquilo a que chamamos o calhau. (risos) Respondendo então há questão, dentro do rock progressivo e metal progressivo considero Haken, Leprous, Steven Wilson, Riverside, como bandas que me influenciam. Na verdade, dentro do rock progressivo nem ouço muita coisa, talvez Steven Wilson seja aquela que ouço mais regularmente, Haken já é metal progressivo, Leprous também. Riverside também tem rock, mas na verdade eu nem sei bem como se categoriza aquilo apesar de ser progressivo. Lá está, sempre que há espaço para eu colocar uma secção rítmica mais pesada, vou buscar cenas mais pesadas.

BL: Para mim é um bocado difícil referir uma influência. Isto um bocado por causa do meu percurso académico, ter estudado música. Dois músicos mudaram drasticamente a minha maneira de pensar a música, Johann Sebastian Bach e o John Coltrane. Quando fui estudar música erudita, estudava Bach a fundo e quando fui estudar jazz, era vidrado no Coltrane, esses dois músicos mudaram a minha vida. Não sei especificar muito, por exemplo, adoro ouvir Radiohead, Sigur Rós, dentro da cena progressiva as bandas que eu gosto mais são Opeth, Haken também, Steven Wilson claro, quando ouvi o Raven That Refused to Sing (And Other Stories), que era com o Guthrie Govan e com o Marco Minnemann, aquilo foi uma coisa completamente transcendente e foi um disco que também mudou um bocado a minha vida. No entanto não é só na música que busco influências, eu gosto de estar a ver um filme e estar a absorver as cenas, a cenografia, isso também me influencia, a pessoa que realiza o filme. Eu adoro o Tarantino, mas nem são as histórias, é a maneira como ele capta as cenas e como conta a história. Tudo isto influencia a forma como eu faço e penso a música. É um bocado complicado resumir as minhas influências, mas com certeza Bach, Coltrane e também o Hendrix.

SF: Só um aparte, seria curioso fazer essa pergunta a todas as pessoas que participaram no álbum. (risos) É impossível mas ia ver-se que existe uma mescla de influências que é uma cena completamente fora.

JP: Da minha parte, Steven Wilson, Porcupine Tree.

SF: Sim! Esqueci de mencionar Porcupine Tree também.

JP: Também os Frost. Class Hammer que já é mais rock progressivo clássico. Há muita coisa, Flower Kings, os clássicos Rush, Yes, Pink Floyd.

BL: Dream Theater! Claro! Esqueci-me de Dream Theater! (risos)

JP: Sim claro os Dream Theater, não podiam faltar.

BL: Estás a ver? É difícil definir. Conforme vamos falando, vamo-nos lembrando de mais e mais.

JP: Agora mais recentemente diria Steven Wilson, é se calhar o que eu oiço mais nessa onda de rock progressivo.

BL: Ah desculpa. Tens uma banda muito boa portuguesa que são os K7 Pirata, são muito fixes. Linda Martini também é muito porreiro, há coisas tugas brutais.

Falaram há pouco em questionar todos os participantes do disco, vocês tiveram uma panóplia de convidados. Porquê tantos convidados e porque não serem membros a tempo inteiro da banda? O que estão à procura, são pessoas com quem já queriam trabalhar ou se é pessoal que vocês vêem que podia encaixar no que estão a fazer. Como aconteceu isso?

JP: A razão principal é para dar uma textura diferente, também por causa das influências das pessoas, obviamente que também gostamos de as ouvir tocar e achamos que iriam ser uma adição muito positiva para as nossas faixas, passa muito por aí. Agora como e porquê? Aconteceu. (risos) Fomos tendo ideias e perguntando, o que acham de metermos um quarteto de cordas, de convidar um clarinete, um saxofone? E as coisas foram acontecendo.

SF: Em relação ao facto de não serem membros a tempo inteiro, da nossa experiência, minha e do João, com bandas, chegámos a um determinado momento em que começámos a perceber que só nós os dois trabalhávamos melhor do que com mais cinco pessoas.

JP: Isto a tomar as decisões, a andar com o carro para a frente. Na questão da voz, como já tínhamos pensado fazer o Gerald e depois a Elisabeth, que é uma personagem que faz parte da história do Gerald, que a completa. Como já estávamos a pensar que iríamos ter um vocalista masculino e uma vocalista, optámos por não integrar o vocalista como membro permanente da banda precisamente por isso, porque não sabíamos como seria o futuro no segundo álbum. E continuamos com essa mesma questão para um eventual terceiro. (risos)

SF: Sim, a nível logístico talvez se torne um bocado estranho para quem tenta perceber a dinâmica da banda.

BL: Às vezes é mais fácil trabalhares com mais afinco com uma pessoa que tu já conheces e com quem trabalhas há mais tempo, do que com malta que é mais recente para ti ou que não estás tão à vontade. Isto porque eu consigo ver do lado de fora, o Sérgio e o João já trabalham juntos há montes de anos, eu só trabalhei com o João nos Griot, mas com o Sérgio já toquei com ele em outras bandas, os Raven Soul, Clutter e é uma pessoa com quem eu gosto muito de trabalhar e ele sabe disso. Chega a um ponto em que já conheces a pessoa, já sabes como ela trabalha, e tens que ser tu a pegar a carroça pelos bois assim dizendo, têm que ser essas duas pessoas a fazer por aquilo e não podes estar dependente que os outros façam e estejam na mesma onda que tu. Tem que haver alguém que tem sempre mais inciativa, que leve aquilo mais para a frente e o Sérgio e o João são o exemplo disso, é malta que já trabalham juntos há muitos anos, já tiveram muitos projetos e têm um objetivo em mente, querem fazer algo e não têm que estar à espera de outros para que isso se realize.

JP: Exato. Isto teria um resultado diferente se estivéssemos todos a ensaiar numa garagem, sem dúvida alguma e provavelmente este projeto não teria estes dois álbuns, se fosse uma banda convencional.

Queria também perguntar-vos sobre o processo de gravação, pôr as ideias nas trilhas, masterizar. Isto porque, como disseram antes, o João está em França, vocês raramente estão juntos pessoalmente, como funcionou esse processo?

JP: Ai! Esse processo… (risos)

SF: Pois, esse processo… Eu comecei-me logo a rir assim que começaste a pergunta. (risos)

JP: Foi um bocado complicado, mas foi parecido com o de pré produção. Alguns instrumentos são mais fáceis de captar no quarto, as guitarras por exemplo. Algumas partes rítmicas do Bruno ele gravou em casa, mandou a demo, eu dava o meu ok, ele fazia uma track limpa e ficavam esses ficheiros. Para os solos já era uma coisa mais sensível, aconteceu numa das minhas viagens a Portugal, para visitar a família e também aproveitar para o projeto, tentámos clickar tudo junto, fizemos uma sessão num estúdio de um colega e tentámos captar. A mesma coisa se passou para as vozes, para as cordas e saxofone, clarinete. Portanto, se o músico tivesse oportunidade de gravar à distância, porreiro. Quando era um instrumento mais complicado como é o exemplo das cordas, violinos, violoncelo que a captação tem que ser um bocado mais cuidada, tentávamos arranjar uma sessão todos juntos e, numa das minhas viagens, lá ia eu e passávamos uma tarde porreira a captar os instrumentos. Houve muitas sessões que também aconteceram sem mim, o Sérgio foi lá com um colega nosso, o André Roque, que geria a sessão e pronto tínhamos de confiar no pessoal.

SF: Temos que mencionar o André Roque porque ele é o maior. (risos)

JP: Ele ajudou-nos muito na captação, a combinar as sessões, a disponibilizar o espaço dele e teve uma paciência incrível. Já nos tinha ajudado no primeiro e ainda vai ajudar em muitos mais.

SF: Sim, acho que a nível de gravações facilita o facto de vivermos nesta era digital, em que se torna mais fácil fazer as coisas à distância.

BL: Sim, é tudo muito mais fácil. Produzir música hoje em dia é muito mais fácil do que há 20 anos atrás, basta teres uma placa, computador decente e está fixe. Já no primeiro disco foi um bocado assim, foi assim neste segundo e provavelmente será assim no terceiro. Porque o João gosta muito da Torre Eiffel e tem uma relação muito bonita com ela (risos) e será assim à distância que devemos trabalhar.

Vocês falavam na inclusão de secções de cordas e de saxofone. Que mais instrumentos, sonoridades, é que incluíram nesse registo? Porque não é uma junção muito convencional quando se pensa em prog rock. 

JP: Temos clarinete, saxofone alto neste álbum, salvo erro, tenor no primeiro e flauta transversal nos dois álbuns. Assim mais fora são esses, depois é sintetizadores e teclados.

BL: Esses instrumentos vão fortalecer muito mais este género de música porque é um estilo que conta uma história e eu, pelo menos, vou associar muito a paisagens, contribuem para a componente teatral. Depois pelo facto do João ter estudado música erudita, ter passado pelas orquestras do Orfeão, são influências que ficam e eu também me revejo um bocado nisso, termos ouvido quartetos de cordas de (Joseph) Haydn, Mozart e Bach. A grande verdade é que o disco não teria a mesma força se não tivesse esses quartetos de cordas, era muito mais pobre. O disco vive muito de uma história que está a ser contada e pela questão teatral e dramática, esses instrumentos fortalecem essa componente.

Vocês falaram também na questão de um livro, que é o catalisador da história. Que livro é esse? Que história contam através do livro e do álbum?

JP: O livro saiu ao mesmo tempo que o álbum, chama-se Gerald também, no caso do primeiro disco. Conta a história de um homem que procura uma vida melhor, que não é nada fácil estar a explicar agora por poucas palavras. Ele tem uma vida simples numa quinta, vai para uma cidade à procura de algo melhor e fica fascinado com tudo o que vê, a tecnologia, depois conhece uma senhora, a Elisabeth. Grande parte do álbum Elisabeth passa-se no mesmo tempo, os álbuns cruzam-se quando eles se conhecem, há muitas músicas que coincidem em termos temporais. O disco Gerald acaba com ele a desiludir-se com o que encontra, o que descobre na cidade, abandona a Elisabeth e regressa para a sua vida. Depois na Elisabeth, para complementar o mundo destes personagens, voltámos atrás no tempo quando ela era mais nova, contamos o ambiente mundial, o do continente onde se passa a história. Eventualmente ela vê-o a chegar, eles conhecem-se e depois acabamos por descobrir porque é que ele se chateou, se foi embora e como a história se conclui. A literatura está interligada com os discos, cada música fala sobre um capítulo do livro.

BL: Interessante seria as pessoas dividirem o cérebro em dois hemisférios e tentarem ouvir a música enquanto lêem o capítulo correspondente. (risos) Acho que esse é o verdadeiro desafio. É difícil, mas a quem conseguir fazer isso eu pago uma jola. (risos)

JP: Outra coisa que também ajuda este conceito, que com certeza não somos nós os pioneiros, é que o álbum dá para reescutar e reler porque vão sempre encontrar coisinhas novas em relação à letra, à história e aos temas musicais. Se o pessoal quiser mergulhar a fundo na música e no livro tem muita coisa para descobrir.

SF: Eu nem sei se o pessoal que for ouvir repara naquela curiosidade no início de cada música, que cada capítulo quando começa tem uma espécie de easter egg. Não é muito difícil perceber mas é uma parte interessante do álbum. Tu perguntavas que livro é esse, mas existe a possibilidade de comprar o livro com o álbum. No Gerald, o livro tem cerca de 22 páginas e agora este, da Elisabeth, tem cerca de 60 que é um aumento considerável, também porque o outro álbum tem cerca de 30 minutos e este tem uma hora. Nós quisemos elaborar mais a história. O livro é incluído com o álbum, para quem quiser.

BL: Comprem o livro também! (risos)

Então esse livro é escrito por vocês em conjunto ou é por alguém em específico dentro da banda?

JP: No caso da Elisabeth, tivemos o apoio do Francisco que é um colega meu e ajudou a escrever algumas das cenas.

SF: Mas geralmente és tu, João.

JP: Sim, eu faço a base depois peço também ao Sérgio, “olha vai acontecer isto, podes escrever sobre isso?”, depois complementamos. No caso da Elisabeth foi mais uma colaboração. No Gerald, fui mais eu que ataquei a história mas na Elisabeth fomos os dois.

O Elisabeth já saiu há duas semanas, sensivelmente. Como tem sido a receção, o feedback que têm tido?

SF: Nós estávamos um bocado reticentes em relação ao lançamento deste álbum, já passaram quatro anos desde o lançamento do Gerald e quem ouvia na altura se calhar já nem se lembra de quem nós somos. Começo por dizer sobre o Gerald que, tendo em conta o tempo em que foi feito e o budget que tínhamos disponível acho que teve uma receção bastante aceitável. Claramente não foi uma cena do outro mundo, mas vendemos alguns álbuns, maioritariamente para fora, cá em Portugal não temos tanto mercado, infelizmente. Com o Gerald conseguimos criar uma base de fãs e de suporte, estávamos com algum receio que se tivesse desvanecido mas que voltou a surgir, até com mais força do que no álbum anterior. A título de curiosidade, por alguma razão a Rússia gosta muito de nós e o Japão também. (risos) Nós analisamos as visualizações e os streams, por alguma razão a Rússia está fortíssima.

BL: Eles apanham grandes tauladas de vodka a ouvir Griot, é o que eu acho. (risos)

SF: Também é curioso que assim que lançámos o álbum, eles foram os primeiros a disponibilizar o disco para download e streaming nos sites refundidos da internet. Eles quase conseguem lançar as coisas primeiro do que nós. (risos) Mas tem tido uma boa aceitação, podemos dizer que estamos contentes, o feedback tem sido bom, já temos algumas reviews que ainda não publicámos mas se procurarem têm acesso, entretanto devemos começar a partilhar essas reviews. No geral estamos contentes e estamos agora a tentar passar a mensagem, partilhar o álbum e mostrar para quem gostar deste tipo de música porque na realidade nós nem queremos que digam bem, queremos que digam alguma coisa. (risos) Mesmo feedback mau, é bom para nós, significa que pelo menos ouviram.

BL: Do que me disseram, fizeram grandes elogios à voz da Maria.

SF: Isso é uma questão em que sinto que existe uma dualidade. Tanto tenho pessoas que me dizem que gostaram de tudo menos da voz, como acontece o contrário.

BL: Isso é como os Dream Theater, “epá eu adoro a banda mas o (James) LaBrie… por amor de Deus” e o inverso também acontece. Eu pessoalmente gosto muito do LaBrie, vá agora cruxifiquem-me. (risos)

JP: São opiniões e temos de respeitar, senhor Bruno. (risos)

BL: É uma peça essencial em Dream Theater e a banda não era a mesma sem ele, mas isto é a velha história que infelizmente, ou felizmente, não dá para agradar a toda a gente. Críticas construtivas são sempre bem vindas, eu pessoalmente estou muito satisfeito com este disco.

Falando agora um pouco sobre o futuro. Naturalmente depois de lançar um álbum vem a tour, a apresentação ao vivo. Tendo vocês uma dinâmica muito característica, muitos convidados, um dos membros não está sequer em Portugal, como é que estão a pensar trabalhar essa questão? 

JP: Agora temos de esperar um bocado pela questão da pandemia, temos de ver como e quando é que as salas vão reabrir, mas estamos a pensar fazer qualquer coisa para o final do Verão. Relativamente a tours, nós temos tentado enviar e-mails, fazer contactos e, no caso do Gerald, o número de respostas foi quase nulo ou muito tardio para se poder planear qualquer coisa. No primeiro álbum fizemos um concerto de lançamento que correu super bem e tivemos um feedback muito bom do público. Depois queríamos ir tocar a Lisboa, Porto, arredores de Leiria e foi muito difícil ter respostas,  principalmente para mim que não consigo deslocar-me aos sítios e falar com as pessoas diretamente. No caso da Elisabeth estamos a pensar fazer algo no fim do Verão, mas é como disse, teremos mesmo de esperar e perceber as condições.

BL: É importante referir que os músicos que vão fazer esses concertos não são os músicos que tocam no disco, porque logisticamente é muito complicado, temos malta dos Estados Unidos, México, Venezuela, da Europa e era mesmo impossível. De salientar que são muito bons músicos, bons amigos e isso é o mais importante.

JP: Sim, era impossível fazer isso. Felizmente temos uma boa equipa com quem fizemos uma live session o ano passado, para dar uma pré-visualização do álbum e eles fazem o trabalho perfeitamente. Estamos super bem servidos. Depois conforme o espaço e as condições podemos incluir cordas ou não.

SF: Também partilho como curiosidade que as capas dos discos fazem uma imagem maior quando colocadas lado a lado, complementam-se. Acontece o mesmo com as capas dos livros. Aconteceu assim, quando começámos o Gerald não pensávamos que isto ia acontecer desta forma, mas acabou por acontecer.

Vocês falavam sobre os concertos nos arredores de Leiria e não referiram mesmo a cidade. Sendo Leiria uma cidade, distrito com uma diversidade musical bastante grande, acham que é difícil terem o vosso lugar destacado ou sentem que têm o reconhecimento devido?

JP: Não é uma questão de não haver espaço para nós, a questão é que não há assim tantos espaços para tocar músicas de originais. Ainda para mais um projeto desta natureza era um bocado estranho irmos tocar para um cantinho num bar, temos que ter um palco bom.

BL: Tens duas casas em Leiria que fazem música ao vivo e apostam em bandas de originais que é o Texas Bar e a Stereogun, o Nariz também faz algumas coisas, mas fora esses não existe muita oferta.

SF: A realidade é que eu já não estou em Leiria, estou em Almada, o João está em França, o Bruno sim, está em Leiria, mais algum pessoal também.

JP: Não acho que haja tanto conflito porque não estamos a lutar com ninguém que faça este tipo de música.

BL: Acho que em Leiria há muita coisa boa a acontecer. Há um nicho que é um bocado mais específico e não condeno isso. Tens uma editora que aposta num determinado número de artistas e é uma coisa muito específica, o que é bom porque dá visibilidade à cidade e há muitas bandas boas a sair de Leiria. Agora o nicho musical de Griot talvez seja uma coisa mais específica. Nós gostávamos muito de ter isto como uma coisa nacional, mas por alguma razão é na Rússia que nos ouvem mais, (risos) é no Japão que fazem encomendas malucas de discos. Por alguma razão em Portugal não há essa cultura de ouvir rock progressivo, há um núcleo mais pequeno de pessoas e não é o que é consumido em maior quantidade. Concluo que acho bonito e muito fixe o que acontece em Leiria e é ótimo para a nossa cidade, está a metê-la lá em cima, brutal. Agora o nosso projeto é uma cena muito mais consumida lá fora do que cá em Portugal, isso é um facto.

SF: E a cena do rock progressivo em Portugal já há muito que se sabe que não é o género mais consumido, até o próprio José Cid teve esse problema. Só passados vários anos é que o pessoal reconheceu o 10.000 anos depois entre Vénus e Marte que é considerado a nível mundial um dos álbuns de topo do rock progressivo. O que ele faz agora não é nesse registo e ele já explicou porquê, não dá, não é o que as pessoas consomem.

BL: Até foi com alguma surpresa que o público percebeu que o José Cid antes de ser o que é agora, era um puto que ouvia Rush, Genesis e Pink Floyd e se calhar tomava umas coisas estranhas e fazia música. (risos) Só passados muitos anos é que houve essa aprovação.

SF: Mas é o que é, faz parte. Fazemos isto porque é o que gostamos, se quiséssemos enriquecer à custa disto, não era isto que estávamos a fazer. No geral estou contente com o resultado, tendo em conta alguns percalços que tivemos, porque este álbum era para ter saído em 2018, mas houve alguns problemas que tivemos que não dependiam de nós. Lá está, a questão de querermos fazer tudo da forma mais independente possível tem que ver com estas situações, que se desenrolaram no decorrer da produção de um álbum. Pessoas que demoram mais tempo a enviar-nos alguns ficheiros, depois outros que não podem na altura e isto vai-se arrastando, há problema de um lado, problema do outro e não chegamos a lado nenhum. A meu ver isto também é um processo de aprendizagem para nós, que podemos melhorar no futuro. Até já comentei com o João e ele concorda comigo, o próximo álbum, caso venha a ser feito, vamos tentar ser ainda mais independentes do que fomos até agora.

O Sérgio já introduziu aqui a questão que queria falar a seguir, também em jeito de conclusão, que é sobre um próximo disco, um seguimento para a Elisabeth. Já há alguma coisa pensada ou mesmo feita?

JP: Em termos de história não, o próximo álbum será um produto à parte. A questão do nome da banda, Griot, que é o nome de um músico africano que anda de cidade em cidade a contar histórias, inspirámo-nos um bocado nisso e fizemos um livro. Neste caso o próximo disco não deverá ter um livro a acompanhar mas ainda não sabemos, podemos chegar a uma decisão e fazer um livro como já é hábito. Em termos de conceito ainda não está nada pensado.

BL: Mas já há aí qualquer coisa a fervilhar.

Se quiserem deixar alguma coisa no ar, revelar ou acrescentar alguma coisa.

BL: Oiçam o álbum! (risos)

SF: Queria só dizer que compreendo que nos dias que correm há muita música nova, tu és constantemente bombardeado com coisas novas a sair, músicas, bandas e ficamos saturados disso. Eu percebo porque me acontece o mesmo, muitas vezes passo por coisas novas e já não tenho cabeça para isso, para estar a sempre a consumir nova informação. Pedimos que oiçam uma música só e se gostarem oiçam o álbum, dêem uma oportunidade.

BL: E apesar de estarmos numa era em que é tudo muito fácil de consumir, vais ao Spotify e metes o disco que queres a tocar, eu ainda sou aquele gajo que compra discos e nada me tira o prazer de ter a cena física na mão. É uma sensação que não existe com aquele click no Spotify.

SF: A parte física, o disco, está a tornar-se numa cena de colecionador, há uns anos colecionávamos cromos, agora são discos ou vinis. Já não é obrigatório comprares o disco se quiseres ouvir um álbum, ouves da forma que quiseres. Nós temos o álbum no Spotify, YouTube, Deezer, iTunes, as pessoas podem ouvir aí, no entanto também nos continuam a comprar fisica e digitalmente o disco, o que é bastante bom. As pessoas fazem o que bem entenderem, se tiverem posses para isso, se acharem que a música é boa, apoiem porque isso vai ajudar a que os artistas se sintam valorizados e que também possam desenvolver novos projetos.

 

Deixamos aqui o álbum completo: