Crítica: Adú alerta-nos de que as boas intenções não chegam!


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TIL (Redação)
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Adú – o novo sucesso da Netflix – é um filme do realizador espanhol Salvador Calvo que nos conta não uma, mas três histórias que estão de alguma forma ligadas.

O realizador afirmou que este filme é inspirado em histórias reais e provavelmente esse é um dos motivos porque consideramos Adú um filme importante – não é ficção, o que vemos no ecrã aconteceu e acontece com outras pessoas. São três histórias que parecem completamente separadas, no entanto, juntam-se num enredo que discute questões muito atuais, como a imigração e os refugiados na Europa.

O filme começa com a história de três polícias espanhóis em Melilha, um território espanhol no norte de África, onde existe uma cerca de segurança que separa Melilha de Marrocos. Logo no início do filme somos confrontados com umas das cenas mais violentas de Adúna qual vemos um grupo de refugiados que tenta pular a cerca e muitos deles presos nos arames farpados deste local. Uma imagem muito gráfica e que mexe com o nosso estômago. A função dos três polícias é, obviamente, impedir que os refugiados consigam passar a cerca, mas no meio desta missão algo corre muito mal e faz a história desenrolar-se ao longo do filme.

 

Conhecemos a seguir a história de Gonzalo, um homem espanhol que possui uma ONG em Camarões, África, para proteger os elefantes contra a caça ilegal. Gonzalo preocupa-se mais com os elefantes do que com as pessoas ao seu redor, um bom exemplo deste facto é a sua filha Sandra, com quem mantém um relacionamento distante e talvez um pouco problemático. É claro que o realizador Salvador quis alertar-nos, através desta história, para o gravíssimo crime que ainda é bastante desconsiderado, a caça dos elefantes para retirar o marfim. No entanto, acabou por ser um terceiro plano muito disfarçado e de pouco destaque.

É precisamente no momento em que Gonzalo e a sua equipa tentam impedir um grupo que está prestes a realizar uma caçada ilegal de elefantes, que conhecemos o pequeno Adú e a sua irmã Alika. Ambos estão na floresta a andar de bicicleta, quando acabam por testemunhar a morte de um elefante por alguns homens da sua aldeia. Depois de descobrirem que os irmãos foram testemunhas do crime, Adú e Alika começam a ser perseguidos e por isso fogem para procurar o pai que está em Espanha. Começa desta forma uma aventura perturbadora e assustadora para os pequenos irmãos, que vão ter muita coragem para conseguir encontrar o pai deles.

Por meio destas três histórias, o realizador aborda temáticas de extrema importância, das quais deveriam ter mais atenção por todo o mundo. É um filme simples, mas que tenta maximizar a sua influência através do cruzamento de histórias reais e emocionantes. Apesar de não ser fácil criar uma relação entre o espetador e as personagens, há uma exceção que se chama Abú. O filme tem o nome deste menino, que nos deixa com muita vontade de o abraçar e socorrer durante todo o seu percurso, nesta aventura que foi obrigado a viver.

Poderia ser um filme perfeito, mas não é. Tem uma linda fotografia que traz imagens brutais da extrema pobreza de África, principalmente nas cenas que se passam nas aldeias. Mas é pouco mais do que isso. O filme tem muito boas intenções e grande carga moral, aliás, ainda acredito que é um filme que deve ser visto e discutido, nem que sirva só como um alerta dos graves problemas humanitários que se passam ao nosso redor e poucos conhecem. Deve ser uma história que nos força a ler mais e a conhecer milhares de crianças e jovens, que também poderiam ter sido inspiração para o filme Adú.

O principal erro é ter três histórias principais que nos fazem perder o foco e enfraquece o objetivo principal. Na conclusão do filme, as três histórias acabam por ser conectadas mas de uma forma muito forçada e que parece ser um final pensado “na última hora”, só para justificar as três histórias num único filme. É de lamentar, porque teria potencial para ser um filme muito bem contando, com boas personagens e com fortes interligações que cativam qualquer um de nós. Mas nem as personagens tiveram espaço para “brilhar”. Há muitos momentos de ação, momentos de choque e emoção, mas são momentos misturados de cada personagem e história, sem que nos permita criar afeto ou verdadeiro sentimento por uma das três histórias.

Adú tornou-se num filme que veio para nos relembrar de que nada serve termos boas intenções se não agirmos para tal. É uma montanha de altos e baixos, que nos atiram para inúmeros lados sem nos dar um ponto forte ou uma cena com verdadeiro valor memorável. Deveria focar, principalmente, na imigração ilegal, mas como nada é bem definido e contado, acaba por não ficar colado na nossa memória e é grave não termos este efeito, dado que, são histórias de carácter importante e emergente.

Tem momentos fortes e necessários, de início parece bonito e até começamos a preparar os lenços de papel sem chegarmos a precisar deles. Adú tinha um material muito rico mas somos direcionados apenas para os conflitos, sem aprofundar as causas ou as futuras consequências. Ficamos com o pequeno Adú no coração e com a profunda tristeza de que há muitos como ele, sem apoio e sem afeto. Pelo menos que nos faça despertar para o que realmente importa e que nos cative para apoiar, na melhor maneira possível, todos os refugiados que procuram uma nova casa onde se sintam seguros e salvos.

Classificação TIL: 5,5/10

 

Texto: Sofia Correia