Crónica Collippo: Ode a uma independência dependente


Escrito por:

Na já habitual crónica da Associação Collippo, neste número cinco, fala-se sobre os problemas inerentes à coabitação em tempos de novo confinamento.

“Coabitar em pandemia é como viver dentro de um reallity show sem câmaras. Infelizmente, tive a oportunidade de participar num enquanto estava em isolamento profilático por ter colegas de casa infetados com a covid-19. É bom referir que éramos 6 a viver num único apartamento durante 14 dias, ininterruptamente! Nessas duas semanas, houve tempo para chorar, gritar e até telefonar algumas vezes para o 112, e sei perfeitamente que não fui a única a passar por isto.”, partilha a Joana, ainda com o stress pós traumático à flor da pele.

Pois é, vamos falar de relações de coabitação, mesmo depois do dia dos namorados e em pleno confinamento 2.0.

Nos últimos anos, tem-se assistido a um retardamento da emancipação dos jovens adultos; de acordo com um artigo do Público de 2016, 29 anos é a idade média dos jovens portugueses quando saem de casa dos pais. Mas sair das casas dos pais não significa viver sozinho, isso é privilégio de muito poucos. Os restantes têm a “sorte” de emparelhar o salário com a cara metade ou aventurar-se a viver com amigos, conhecidos e desconhecidos. Em suma, a dependência emocional/financeira associada a esta coisa de ser livre não é algo de novo em Portugal e acaba por ser um subproduto de uma emancipação no mínimo tímida e com isto que se está a passar a instabilidade intensifica-se.

Aos que foram, mais uma vez, empurrados para casa, seja por teletrabalho, lay off ou desemprego, não lhes são perdoadas as despesas da casa, que pelo contrário aumentam, e o que se poupa em transportes não anula este aumento. E renda de casa? Essa é a mesma. Esta pequena coisa de sobrar mês no fim do ordenado, conjunta à existência de pessoas à nossa volta 24 sobre 24 faz com que facilmente as relações azedem.

Em pleno confinamento a tarefa de coabitar torna-se ainda mais desafiante, não só por passarmos o dia inteiro com alguém, mas também pelo facto de esse alguém ser o mesmo, dia após dia. Esta nova realidade que conhecemos no ano passado e a que ainda estamos a ser sujeitos nos dias de hoje, com este segundo confinamento, está a causar mossas evidentes no relacionamento entre as pessoas que vivem juntas. A pouco e pouco, tornamo-nos mais impacientes e indiferentes, incapazes de perceber que a vida da outra pessoa também foi virada ao contrário com a pandemia. E é aqui que a dependência financeira e a emocional se encontram. Se nos dias que correm grande parte dos jovens adultos estão com contratos de trabalho precários ou até mesmo no desemprego, não têm capacidade financeira para encontrarem um novo espaço para viverem, estando assim reféns dos moods, vontades e hábitos de outros.

Não é assim tão grande a distância entre a roupa que insiste em não sair do estendal e uma discussão acesa sobre quem ultrapassa mais os limites do outro, especialmente, quando nunca fomos ensinados a manter uma higiene emocional e social adequada. Enquanto a saúde mental for uma buzzword sem plano de ação vamos continuar a sentirmo-nos impotentes, a perder a nossa pouca independência e a não saber viver com quem dependemos. Seja por um relacionamento emocional ou por conveniência financeira. O momento de prevenir ficou lá em 2019, por isso deixamos aqui uma lista de remédios para ajudar a suportar esta realidade por mais um mês e meio.

– Conversa com os teus coabitantes sobre como se podem tolerar melhor (se ainda conseguirem);

– Encontrem tempo para estar sozinhos e, se possível, cada um ter o seu espaço;

– Faz coisas que gostes, por muito pequenas que sejam;

– Faz um planeamento das tarefas de casa e vai avaliando se todos conseguem manter o compromisso com tranquilidade;

– Antes de partires para o confronto, respira, vai dar uma volta e tenta observar as tuas emoções como um expectador, pode ser que encontres uma forma diferente de lidar com a situação no entretanto.

Todas estas soluções, ou tentativas, servem para pequenos males e quando ainda existe possibilidade de cooperação. Sabemos que às vezes isso não é uma possibilidade, se está a ser difícil para ti podes sempre ligar para a linha de apoio à saúde mental da saúde 24 ou, em casos extremos, fala com a APAV pelo 116 006.