Entrevista a Marta Ribeiro: “Dedico-me 100% a esta profissão, mas a profissão não se dedica 100% aos seus atores”


Marta Ribeiro estreou-se bem cedo na representação, passou pela ESAD, nas Caldas da Rainha e há 5 anos, fixou-se em Madrid porque se encantou pela “vida cultural” da cidade espanhola, onde é atriz de profissão, na área do teatro. Em maio, deste ano, estreou-se nas salas de cinema espanholas e na plataforma digital Netflix. A TIL esteve à conversa com Marta sobre o seu percurso pessoal e profissional. 

Pergunta trivial: Conta-nos como e quando é que se deu início ao fascínio pelas artes, nomeadamente pela representação. 

Com cerca de 4 ou 5 anos fazia os meus programas em casa com a minha família, organizava a história e obrigava a minha família a participar nas minhas intervenções, tanto de interpretação como de música, porque também comecei com a música muito cedo. Mais tarde, entrei num grupo de teatro quando entrei para o colégio de Viseu.

 

Antes do teu “boom” como atriz, foste aluna na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. Sentes que de certa forma, o facto de teres estudado nesta cidade iluminou o teu caminho artístico?

É uma cidade que, apesar de viver para os seus estudantes e de ser pequena, está cheia de alunos de diferentes áreas artísticas, então tens um contacto tão grande e uma diversidade artística tão complexa que abre-te para todo o mundo, onde conheces muitas pessoas, muitas áreas artísticas diferentes e é como se fosse uma micro cidade artística. Claro, marcou-me muito e foi aí pela primeira vez que num festival de teatro, organizado pelos alunos de teatro, tive o primeiro contacto com os alunos da RESAD (Real Escuela Superior de Arte Dramático de Madrid) que seria a minha futura escola. 

 

E as Caldas da Rainha foram logo a primeira opção, devido ao contacto com diferentes áreas artísticas, ou passaste por outras opções?

A primeira opção que pensei foi o Porto, também por se encontrar mais perto de minha casa e optei pelas provas, mas houve um episódio caricato em que eu já tinha amigos nessa escola e disseram-me “Marta, está atenta ao site da ESMAE porque publicam o texto aí”, e precisamente nesse ano mudaram e colocaram a prova no site do Instituto Politécnico do Porto, então nesse ano eu levei a prova do ano anterior sem saber à ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo) e tive excelentes resultados, mas na prova de interpretação perguntavam uma e outra vez porque é que eu levava a prova do ano passado, e eu estava histérica, super nervosa tentei explicar “Não, tinha aqui amigos e disseram para ver a prova na ESMAE…” e claro, a prova que estava no site da ESMAE era do ano anterior. Uns meses depois, concorri para as Caldas da Rainha e no primeiro ano, os professores já do segundo e terceiro ano gostaram bastante de mim e convidaram-me a participar na peça do segundo ano, ou seja, estava no primeiro e convidaram-me a fazer uma pequena participação na peça do segundo ano, depois ao terminar a peça o ator Diogo Dória, que foi um dos professores que me tinha convidado a participar na peça, disse: “Quero apresentar-te uma pessoa!” e apresentou-me à professora Inês, que tinha sido a professora na ESMAE que me tinha chumbado na prova… O mundo é pequeno.

 

É verdade! Mas por um lado também foi um sinal de vitória por teres sido convidada por esses professores, não foi?

Exatamente, o Diogo Dória junto com o Luís Miguel Sintra são as grandes referências do cinema português e o facto de um professor com uma carreira tão completa convidar-me para o seu projeto do segundo ano, foi uma ótima experiência.

 

Recentemente estreaste-te no grande ecrã com “Elisa e Marcela” onde recebeste o estatuto de primeira atriz portuguesa numa produção da Netflix. Suponho que seja um misto de emoções?

Sim, é uma responsabilidade muito grande e um peso enorme, porque no setor masculino temos o Pepe Rapazote com anos e anos de carreira e eu comecei profissionalmente no teatro com 13/14 anos e é uma responsabilidade enorme, mas por outro lado também é uma felicidade ter 24 anos e ser a primeira mulher a estrear numa produção da Netflix, na categoria de atriz portuguesa. É uma felicidade muito grande, além disso nesse ano quando fui gravar para Barcelona e quando soube que era a Isabel Coixet, nem queria acreditar… A Isabel tinha acabado de ganhar o Prémio Goia de Melhor Realizadora de 2018, em Fevereiro, ou seja, 3 meses depois eu estava a gravar o filme com ela e nem queria acreditar, foi muito bom!

 

Desde a estreia de “Elisa e Marcela”, como tem corrido em termos de propostas dentro do mundo do cinema e também do teatro?

Depois desta notícia, ou seja, isto já foi gravado em maio 2018, mas só saiu este ano, recebi bastantes mensagens: tanto de amigos, familiares, como de colegas do setor audiovisual e teatral, alguns perguntando informações, como se trabalha e se vive em Espanha, outros dando os parabéns. 

Propostas por parte de trabalho em Portugal, ainda, não recebi nada, eu gostava de receber, obviamente, gostava de trabalhar no meu país, seria um grande gosto, mas na categoria de cinema, televisão e teatro ainda não recebi nada. De facto, tentei conversar várias vezes com a diretora de casting mais importante de Portugal, Patrícia Vasconcelos, mas ainda não tive a possibilidade de fazer nenhum casting. No entanto, aqui em Madrid, regressei no Verão e estreei um espetáculo no micro teatro Por Dinero em Madrid, na Gran Via, e estamos também a preparar uma peça de teatro em Novembro, já temos alguns espetáculos marcados para Saragoça, Madrid, com estreia em Dezembro.

 

E qual será o nome dessa peça?

“Stanford University Psychotic Variety Party”, da companhia MalPoloniaProducciones.

 

Estando a viver em Espanha, mais especificamente em Madrid, continua a ser difícil viveres noutro país apenas vivendo da representação ou dedicas-te a 100% a esta profissão?

Eu dedico-me a 100% a esta profissão, mas esta profissão não se dedica 100% aos seus atores. Infelizmente ainda há muita intrusão na área audiovisual, sobretudo pela questão da fama e da beleza estética, que vai mudando. Ainda há muitas pessoas a trabalharem como atores não sendo atores profissionais e isso afeta-nos. Nós, atores que estudámos 3 ou 4 anos, ou mais, para podermos trabalhar no nosso setor. Obviamente e infelizmente continua a existir muita precariedade no nosso setor.

 

Mas comparativamente com Portugal está acima?

Está muito acima. Também tem a ver com a própria instituição governamental que cuida da cultura. Em Espanha nós temos de comprar o bilhete uma ou duas semanas antes para poder entrar no Teatro Nacional. Já no Teatro Dona Maria II, penso que há dezenas de anos que isso não acontece e é uma pena. Por outro lado, aqui até aos 25 anos, entras em todos os espetáculos grátis da comunidade de Madrid, temos neste momento a sede da Netflix aqui e há muito mais cadeias de televisão e muito mais produções.

 

Mesmo com toda a qualidade de vida que Espanha consegue oferecer a um artista, voltar a Portugal ainda está nos planos ou não pensas em voltar ao teu país de origem tão cedo?

Eu, na altura, saí de Portugal porque queria melhorar como atriz e ser a melhor atriz possível, tudo o que estivesse nas minhas mãos eu fá-lo-ia e aqui encontrei um sitio onde podia trabalhar em grandes teatros e onde me é dada a oportunidade. Também fui a primeira atriz portuguesa que pôde aceder a uma audição para o Teatro Nacional. Era eu e mais 15 pessoas, nenhuma delas de outra nacionalidade. Em Portugal, ainda não acontece. Há muito poucas audições abertas, há muito poucos castings, então uma pessoa tenta estar onde há mais oportunidades, mas se houvesse uma oportunidade em Portugal eu faria o casting e iria muito feliz para lá, para ter essa oportunidade. Neste momento, vou procurar as oportunidades por cá, mas tenho sempre a porta aberta para voltar para o meu país.

Texto: Filipa Gaspar

Fotografia/Vídeo: DR