Crítica: David J – o limbo entre claridade e penumbra


Leiria contou com a presença de David J, membro dos míticos Bauhaus. A TIL esteve lá e conta-lhe como foi o concerto.

É em “The Auteur”, terceira música do concerto de David J Haskins no Teatro José Lúcio da Silva que confirmamos haver um revezamento entre luzes e sombras, que funciona como ponto comum à maioria das músicas, que o britânico veio apresentar a Leiria. O tema fala de alguém influente no meio artístico, um homem que se insinua de forma abusiva a uma das suas colaboradoras, mas a meio da sua interpretação, aligeirando este contexto de gravitas, a guitarra semi-acústica, tocada pelo inglês, entrelaça-se com a textura das cordas do violino e o som do órgão do par de músicos que o acompanham. Tudo culmina no refrão, onde a voz do membro dos Bauhaus é descontraída e harmoniosa.

É certo que durante a próxima hora e um quarto vamos ouvir músicas que falam de prostitutas adolescentes que se vendem no West End londrino, mas isso não chega para anular a ideia de esta ser uma noite que alterna momentos soturnos com outros (quase) de júbilo.

Isso confirma-se pouco depois, em “Blue Eyes in the Green Room”, onde David J descreve o sítio de encontro de um casal, servindo-se de jogos de palavras com nomes de alimentos e referências à cultura pop. Há aqui uma agilidade que talvez pudesse despontar no repertório dos Love and Rockets, a outra banda de culto fundada pelo músico inglês, mas dificilmente poderia aparecer numa música de Bauhaus.

 

Ambas as canções fazem parte de “Missive To An Angel From The Halls Of Infamy And Allure”, um disco lançado este mês, que é uma homenagem à mulher do músico, que após 43 anos de casamento, continua a ser um porto seguro para o britânico voltar depois das viagens pelos salões de infâmia e tentação descritos no título do álbum. E é pelo seu repertório que mais de metade do concerto continua, com “Baudelaire”, “Mosaic” ou “Copper Level 7”, onde o britânico acelera e abranda progressões de acordes, com uma letra que é ao mesmo tempo erudita, poética e erótica. O que nos relembra que a destreza de Haskins enquanto letrista é inegável, que foi ele quem escreveu “Bela Lugosi’s Dead”, canção altamente influente dentro do movimento pós-punk e seminal no despontar do rock gótico.

Este concerto é uma viagem pela carreira de David J, onde a ordem cronológica está invertida e, agora, a paragem é em 2016, com “The Day That David Bowie Died”, tema onde a guitarra ao início quase nos leva para “Space Oddity”,  e J recorda o dia em que o amigo morreu, convidando-nos a fazer o mesmo.  E tudo culmina em 1985, com um tema de “Seventh Dream of Teenage Heaven”, álbum dos Love and Rockets, um momento que deixa a plateia decidida a pedir um encore, com a banda a regressar para três temas adicionais.

Não foi decerto um concerto de retrospectiva de carreira. “The Auteur”, a música nova que fala de assédio sexual que iniciou este texto, é co-interpretada em álbum por Rose McGowan, actriz e porta-voz do movimento “Me Too”. Dá gosto e sente-se frescura em ver alguém com 41 anos de carreira prezar a actualidade como uma meta a atingir.

Fotos: Idalécio Francisco