Crítica: “Green Book” conta a história do Mundo em que sonhamos viver


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O rumo do filme e as personagens interpretadas por Viggo Mortensen e Mahershala Ali fazem de “Green Book” um dos melhores do ano

Vamos começar por um teste. Imagine-se na década de 60. Era negro, vivia nos Estados Unidos da América, ainda com a escravatura e o racismo ao rubro, mas tinha uma profissão de renome – neste caso, um dos melhores pianistas do país. Dentro dos palcos era visto como um génio da música e das teclas, fora dele um sujeito completamente desconhecido e reprovável por parte dos brancos.  Complicada esta dualidade, não é? Pois, é essa uma das muitas formas que Green Book nos coloca a pensar através da tela.

Baseada numa história verídica, Green Book fala-nos de um italo-americano de Nova Iorque chamado Tony ‘Lip’ Vallelonga (Viggo Mortensen), um homem de poucas maneiras, habituado aos confrontos físicos nos trabalhos em clubes nocturnos: a única forma que tem de conseguir sustentar a família. Na outra face da moeda, Dr. Don Shirley (Mahershala Ali), um negro rico e pianista de renome nacional, muito respeitado nos teatros mas muito mal tratado fora dos palcos. Duas pessoas muito diferentes que acabam, durante o filme,  por se aproximar e ajudar  mutuamente.

Green Book fala de dados concretos de há 50 anos, que ainda se conseguem ver na América em pleno século XXI,  sem estarem completamente sarados e que na era de Trump tem ganho maior relevância: uma ferida viva chamada racismo. Por outro lado, as interpretações e a própria história fazem por não abalar muito, não chocar demais e não ofender nem os mais sensíveis ao tema. Se esta fosse uma receita, o produto final seria a moralidade com que, provavelmente, os espetadores saem da sala de cinema.

Este melodrama (com o seu q.b. de comédia) tem também nas suas interpretações o sumo para este não parecer um filme igual aos outros. Viggo Mortensen dá uma personagem viva, cheia de personalidade e muito “bairrista”, enquanto Mahershala Ali transporta o lado mais subtil, misterioso e educado ao ecrã. Cada um deles agarrado a um diferente estilo, sim, mas os dois a executarem-no de uma maneira incrível, não estivessem os Mortensen e Ali nomeados para os Óscares nas categorias de Melhor Ator e Melhor Ator Secundário, respetivamente. Estes são apenas duas das cinco estatuetas douradas que Green Book pode levar para casa (incluindo Melhor Filme do Ano).

Uma inesperada amizade que faz sorrir mas, sobretudo, pensar. Porque em 50 anos parece que muitas coisas continuam na mesma (e cabe a nós mudar definitivamente esse paradigma). Green Book é para ser assistido com o coração!

 

Classificação TIL: 8/10