Crítica: Da 5 Bloods explica que o racismo é um tema sem datas nem fronteiras

critica da 5 bloods

O novíssimo filme de Spike Lee, Da 5 Bloods, fala sobre uma questão que tem vindo a ganhar novos contornos em 2020: o racismo. Mas Black Lives Matter é um sintoma com muitos anos de vida.

Um vírus anda à solta, os cinemas estão fechados há meses e o racismo está na ordem do dia. Podia ser uma sinopse de um filme ou um resumo da última grande pandemia, há cerca de 100 anos. Pois bem, nem uma coisa, nem outra. Estamos em 2020, e se as duas primeiras questões são difíceis de controlar, já o tema racismo depende só da vontade humana. O preconceito continua, negros morrem asfixiados, o Black Lives Matters sai à rua por todo o mundo mas o mundo teima em avançar… É a tentar lutar contra esta maré que Spike Lee lançou o seu novo filme, disponibilizado na Netflix: Da 5 Bloods.

Spike Lee há muito que aborda o racismo como ponto de partida dos seus filmes para um final de superação negra. Aconteceu recentemente com Blackksmann (filme do qual a TIL já fez crítica) e outros mais emblemáticos como o Infiltrado ou Malcolm X. Neste Da 5 Bloods, as histórias variam entre afro-americanos e a guerra contra o Vietname.

Quatro antigos combatentes de guerra afro-americanos e protagonizados por Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Melvin (Isiah Whitlock Jr.) e Eddie (Norm Lewis) têm um objetivo em comum: regressar ao Vietname, país onde estiveram em guerra décadas antes. Além de quererem-se rever há algo ainda mais transcendente que isso: vingar a morte de Stormin Norman (Chadwick Boseman) e reaver centenas de barras de ouro que foram escondidos por eles exatamente durante a Guerra do Vietname. Com eles, segue também o filho de Paul, David (Jonathan Majors). Eles são os Da 5 Bloods.

Este é um filme que aproveita muito bem as montagens e sequências para oferecer ao telespectador mensagens codificadas de grandes inspirações negras, como é o caso de Muhammed Ali ou Malcom X mas também rewinds da própria vida dos veteranos de guerra nos duros anos no Vietname. Aí começamos a perceber algumas fraquezas e questões pró-traumáticas que abalou cada um (e de diferentes formas) daquele quarteto.

A nível de realização notamos a criatividade de Lee quando opta por dois formatos de vídeos para explicar dois diferentes contextos – o atual e o de guerra. Se na história, os momentos são filmados em 2:40, a diferença é notória quando os takes passam para os tempos de guerra dos anos 60/70 e a filmagem altera-se para 16mm – um formato mais estreito e mais direcionado habitualmente para o cinema de autor.

 

Se os grandes filmes se vêem através dos pormenores é impossível ficar indiferente às fortes personagens. Paul, que acaba por ser a principal personagem da narrativa, usa o típico chapéu de Make America Great Again. Este é um claro ataque de Spike Lee aos negros que optaram por ir contra tudo o que viveram décadas atrás ao votar no atual presidente, Donald Trump. 

Este é um filme sobre assuntos pertinentes mas talvez demasiado longo (2h30), tendo em conta o ponto central da história – o de fazer jus ao amigo morto e à procura das barras de ouro deixadas para trás, ambas as situações durante a Guerra do Vietname. Porque, lá está, questões como o racismo estão longe de estar datadas. Felizmente temos Spike Lee para nos explicar (e educar) da forma mais cultural possível.

Classificação TIL: 7,5/10