Recuperar os sonhos das crianças pelo Avião de Leiria


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O avião Beechcraft C-45 Expeditor já voou nas mãos do Tenente Francisco José da Cunha Pereira. Em tempos, com 20 e poucos anos, fazia voos de transporte, com este BC 2508 de Lisboa, de Aveiro até à Base Nº 5.

O próprio mostrou-me vídeos do som característico do avião a roncar, como ele diz. A aviação em Portugal deve-lhe muito, o Tenente “Cunha Pereira” é sobejamente reconhecido por todos e foi para mim uma vitória pessoal conseguir um momento com ele. 
Hoje é instrutor em Ponte de Sor, conhece todos os aeródromos de Portugal de lés a lés e, aos 68 anos, altura em que o entrevistei para o meu canal do Youtube, referiu que os clássicos são das suas maiores paixões, tendo estado envolvido na recuperação de um T6, que foi buscar a França. 
Achei todo aquele mundo mágico e digno de cinema. Voar transmite-lhe a mesma sensação que tenho quando ando de bicicleta pelas ruas da cidade. 
 
 
Os dois motores Pratt C Whitney R985-B5, com 9 cilindros radiais arrefecidos a ar, debitavam, cada um, 450 cavalos e deixavam nos céus um rasto de fumo, mas a principal questão para serem postos de lado são os 30 galões de consumo. Este avião podia atingir uma velocidade máxima de 370 Km/hora, mas era pesado, com mais de 4 mil kg. Neste momento descansa em paz, há mais de 40 anos, por estas bandas.
 
Hoje é um cenário muito apreciado para momentos Kodak em Leiria, deu nome ao parque e está a ganhar um novo fôlego, sendo a mais recente aposta da CML, como o sítio mais trending do marketing digital.
 
Traçou o destino que, o outrora transporte de pilotos, viesse novamente a ser recuperado na sua íntima parte exterior, danificada por vândalos e pessoas que não preservam o bem material de todos.
Segundo o próprio Tenente, os aviões que estavam presentes em cidades portuguesas foram quase todos desmembrados. Não somos um exemplo como outros países – em que qualquer cidade tem um museu para guardar os seus aviões – e este mesmo exemplo não surge de cima.
 
Eu até acho engraçado, os que aproveitam para tirar selfies, empoleirados na asa, imaginando-se a voar, mas por favor parem lá com isso, ok?
 
Como Leiriense, estou magoado com o que fizeram ao avião, espero muito sinceramente que o preservem daqui para a frente, sabendo que a sua vida está a prazo. Ou seja, o Ferro oxida, as pinturas também não foram feitas para aguentar uma eternidade e estar ao ar livre não dá saúde a ninguém. Talvez possamos estudar, em conjunto, uma solução para ele ficar mais elevado, para o proteger de outra forma e essencialmente prevenir que subam para cima do mesmo.
 
Sou um defensor das visitas guiadas ao Avião, por parte das escolas do ensino básico, que lhes contem a história, que preservem a memória de um bem que é de todos.
 
E esses todos dizem que sou um romântico embaixador do avião – uns exagerados – na verdade sinto que tinha o dever cívico de chamar atenção do monumento e fui ouvido. Um grande “thank God!”.
Senti que a iluminação, que podia cegar os pintassilgos de fazer ninho nos Plátanos, não era suficiente para o running ou o trekking, ou o “Trotineting”.
Somos todos atraídos a dar passeios à beira-rio e ver os patos, a sentir a relva, a largar as crianças nos baloiços. Mas perdemos os jardins de labirinto e fazem falta para tornar este parque mais completo, essencialmente no mês de fevereiro, onde os casais procuram romantismo, como aqueles bancos de jardim onde ocorreram os primeiros beijos. 
Quem já esqueceu aqueles jardins?
Foram apagados da memória, devastada pelos progressos de uma nova Polis, como se tivessem lapidado as minhas memórias.
 
Nós somos fruto do progresso e do “Fast Charge”, somos vítimas do dia europeu sem carros e, ainda assim, com veículos a mais na cidade e a precisar de circular no Rossio, entrando dentro das lojas se possível.
Hoje voamos tão baixinho que até nos esquecemos que o parque se chama Tenente Coronel Jaime Filipe da Fonseca.
 
Assim vai Leiria e esta verdadeira relíquia da aviação portuguesa, aqui na beira do plátano plantado.