Crónica: Como num conto de fadas, só as baleias sobrevivem ao Lis


Escrito por:
Patrice Gaspar
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Patrice Gaspar é barbeiro de profissão e um homem atento à atualidade leiriense. Tem agora o seu espaço de crónica na TIL para falar um pouco sobre o que vê e sente.

Timidamente, o Rio Lis voltou a encher de esperança a cidade. Este rio que, segundo documentos históricos, já dividiu vinhas a meio e viu o seu curso alterado, mas mantém as suas encostas e fontes de águas com propriedades curativas. Hoje, este espelho de água é um dos grandes atrativos paisagísticos que Leiria tem. Quando pensamos em tirar uma foto com a ideia de “Leiria Lifestyle”, pensamos no Parque da Cidade, nas margens do Lis.

Corria o mês de Maio do ano de 2019 quando a adolescente Greta Thunberg se insurgiu em defesa do planeta, numa ascensão histórica que marcou a sociedade e acabou por, ela também, servir de inspiração (ou não!) a um autor leiriense na conceção de uma obra de “street art” numa das margens do rio. Passado um ano, parte dessa pintura ainda é visível com uma forte mensagem: “NESTE PLANETA TUDO DEPENDE DA ÁGUA”É bom recordar a dualidade da imagem da “BaleiaPorco”, não por sermos uma cidade com historial em cetáceos, como a imagem que permanece do desenho inicial, mas porque a melhor parte da gravura, o Porco, acabou também ela por “ir pelas águas do rio abaixo”. A nossa cidade ainda hoje tem uma forte componente socioeconómica ligada aos suínos, desde as pecuárias até ao leitão á moda da Boavista, passando pela adaptação das sandes de porco no espeto em feiras e romarias por toda a região. Encontramos este cenário no polis intitulado “Parque do Avião”, que tem vindo também ele a revelar-se mágico para atrair adolescentes e forasteiros, tanto para os stories do “Instagram”, como para fundos de perfil no “Facebook” ou vídeos do “TikTok”.

Hoje em dia, o Parque da Cidade atrai milhares de pessoas, mas não as fixa. Numa cidade em permanente transformação, durante um dia inteiro entram “runners”, “bikers” e maratonistas, faz-se “street workout” com barras paralelas ou cordas de saltar. Voam pelo meio skates e há BMX por todo o lado, vestem-se licras ou roupas rasgadas.
Mas faltam WC’s, porque uns foram desativados pela pandemia e outros acabaram por passar para gestão privada.

Talvez este lado do Rio tenha sofrido a maior das revoluções em 30 anos, ao perder o mais bonito dos jardins da cidade. Mas a cidade sofreu a modernização dos programas de fundos estruturais e ganhou noutros aspetos, de acordo com as linhas da arquitectura paisagística actuais para as cidades do futuro.

Mas este lado do Rio também ganhou com a reconstrução da Rua Comissão da Iniciativa, uma rua acidentada por granitos tortos mas tão movimentada como uma qualquer outra rua periférica da cidade. Esperam-se, ainda, mais algumas reabilitações nesta zona que vai do mais antigo Bairro dos Anjos até ao famoso “western” do Marachão.

Mas, estando eu embalado no exercício nostálgico, neste caso do desporto, recordo a bola de basket que rolava desde os anos 80 num ringue multiusos, e recordo-o através de conversas com amigos que aqui deram os primeiros passos no jogo com o famoso Clube de Basket de Leiria. Recordo também o hóquei em patins, com o surgir do grande Clube dos Marrazes. Este parque já teve campos de ténis, que foram transformados em campo de futebol, e  ganhou um parque infantil que faz as delícias de muitos pais e aproxima aqui famílias inteiras.

Ganhou o “Skate Park” em 2016, ainda que não seja iluminado à noite. Esta é uma antiga reivindicação minha, que passa pela solução de juntar tribos a fim de não irem para a “Meca” da fonte luminosa, a bem do património público.
Há ainda um avião sem história, há bancos de jardim a precisar de manutenção, sinto saudades dos jardins circulares, das esculturas que ainda pairam junto ao parque infantil.

Ainda há uma Fonte Quente, cuja água de Inverno ou de Verão sai a mais de 25 graus e outrora tratava enfermidades de pele, comichões, chagas e outros. Consta até que iria ganhar uma conduta até a um Hotel Talma, umas instalações termais projectadas para aquele prédio do Korrodi que faz esquina entre o Maringá e a Mouzinho de Albuquerque, mas infelizmente não recolheu financiamento, à semelhança das Termas de Monte Real.

Os parques da cidade devem ter identidade, preservemos os bens e contemplemos a sua real natureza, na essência dos mesmos. Saibamos nos cultivar pela história, pelas experiências e por todo e qualquer romantismo tão característico de Leiria.

O outro lado do Rio, como o famoso Arquiteto Ernesto apelidou à margem direita, está representada numa bela obra que desenhou e que está ainda hoje em Exposição na GAL*.

*(Galeria de Artes de Leiria, Antigo Banco de Portugal)