Entrevista a The Legendary Tigerman: “Quando fazes alguma cena que é só livre e agressiva, que liberta as pessoas, isso já é um ato político”

Entrevista Legendary Tigerman

Foi por altura do Pigs Rock Festival, no início do verão, que encontramos The Legendary Tigerman – o homem (Paulo Furtado) que vive o Rock n’Roll e os Blues como ninguém. A TIL entrevistou-o e procurou saber um pouco mais do seu percurso e o que acha disto de Leiria poder ser uma Capital Europeia da Cultura.

TIL: Começando mesmo no início, onde é que nasceste?
Paulo Furtado: Moçambique, Maputo

 

TIL: E quando surgem os primeiros contatos com a música?
PF: O meu primeiro contacto com a música é como ouvinte, talvez aos 14 anos. Costumo considerar que o primeiro disco que comprei (se bem que comprei umas cenas mais foleiras antes) foi aos 14 ou 15 anos. E foi um disco dos Sonics. Aquilo para mim mudou o modo como eu vivia a música! A seguir comprei Cramps e aí comecei a mergulhar e a pesquisar mais. Como eles faziam muitas versões de Blues e Rock N’ Roll muito refundido e eu comecei a pesquisar sobre isso. Esse primeiro período da adolescência foi a pesquisar esse tipo de coisas. As únicas coisas portuguesas que eu ouvia eram os cantautores da revolução como Zeca Afonso e essas coisas e houve ali uma altura em que o meu caminho podia ter ido para vários sítios mas o Rock N’ Roll e os Blues desviaram-me. (Risos) Depois a história de cantar em inglês acho que foi por causa disso porque eu lembro-me de começar a escrever canções e havia letras em inglês e em português e não era algo que me preocupasse muito. Mas depois, por todas essas influências, comecei a focar-me no inglês e foi automático. Não acho que tenha sido uma opção estudada. Só depois aos 17 anos é que comecei a fazer bandas mas até aparecerem os Tédio Boys – nunca pensei que isto pudesse ser um futuro. Eu estudei belas artes e interessava-me muito mais por fotografia, pintura e cinema do que propriamente com música. Foi algo que aconteceu gradualmente e com os Tédio Boys cresceu bastante.

 

TIL: Essa questão de escrever em português é sempre muito falada. A língua portuguesa não combina com o Rock N’ Roll?
PF: Não sei. Eu tenho pensado muito nisso e tenho visto este boom que é incrível. Antes havia músicas que eu curtia dos GNR, dos Xutos, etc. Talvez a banda que eu adorasse mais fosse os Mão Morta mas não havia propriamente aquela coisa para onde um gajo pudesse olhar e se pudesse inspirar. Depois a maior parte das coisas que ouvia eram americanas do Blues e Rock N’ Roll – fui por esse caminho mas não foi uma decisão consciente. Eu tenho coisas escritas em português, muitas não têm a ver com música escritas em português e acho que um dia vou gostar muito de fazer coisas em português. Provavelmente não como Legendary Tigerman que não faz muito sentido mas se tiver um convidado que as cante em português, claro que sim! 

 

TIL: Falavas dos projetos que tiveste antes. Qual o que consideras mais importante? Ou o que te deu mais gozo?
PF: Para mim os Tédio Boys, claramente. Não mudei muita coisa no modo como eu giro a minha vida como músico desde os Tédio Boys. O que eu faço é muito diferente musicalmente mas do ponto de vista logístico e o modo de trabalhar, a forma de fazer e o modo de levar a música às pessoas e até como às vezes tenho que proteger a música relativamente às partes menos interessantes da indústria musical, não mudou muito nestes anos todos. Nos 10 anos que os Tédio Boys duraram eu era o gajo que tratava dessas coisas todas. Aprendi tudo o que pude! Naquela altura ninguém contratava uma banda de Rock N’ Roll! Se querias tocar, alugavas o sítio, alugavas o P.A, fazias os flyers, colavas os cartazes, fazias isso tudo. Às vezes tínhamos que montar o PA e fazer o nosso soundcheck, ou seja, passar por todas as coisas inerentes ao facto de ter uma banda. Nos últimos anos as coisas mudaram muito com a vertente digital e acho que é uma altura excitante na música. Para quem faz Rock e outras coisas que ainda não estão muito instaladas nos meios de streaming pode ser complicado mas é uma altura excitante.

TIL: Há décadas que se fala que o Rock morreu. Recentemente Nick Cave disse numa entrevista que talvez fosse melhor deixar o Rock repousar para se conseguir reinventar. Concordas?
PF: Eu acho que a reinvenção das coisas é contínua. Não concordo muito com essa frase do Cave. Acho que basta haver três putos num sítio qualquer que de repente façam uma cena espetacular para mudar tudo outra vez, como aconteceu com os White Stripes. É impressionante como é que aquilo super Lo-Fi, com uma sonoridade que seria incompreensível para a maior parte das pessoas se torna mainstream sem ser mainstream. Isso é uma coisa que eu acho que nem existe, o mainstream ou underground. Um músico passa sempre por essas fases porque há momentos em que as pessoas estão mais para ouvir a tua música, momentos em que não, momentos em que te tornas mais comercial porque a música chega a mais pessoas. Acho que isso tem acontecido e vai continuar a acontecer, essa reinvenção, ou talvez não, os Blues por exemplo, já tiveram muitas vidas. Desde o início do século passado até hoje já andaram da América para cá, para lá outra vez, tens gajos como os Black Keys que de repente põem os Blues quase mainstream de uma maneira super reinventada e os WrayGun em Portugal eram de muitas maneiras também uma reinvenção do Rock N’ Roll e Soul. Acho que isto é uma coisa que está sempre em movimento, sempre a acontecer. Não é muito relevante se agora há mais Hip-Hop ou mais Trap, ou mais isto ou aquilo.

 

TIL: Falando desse do teu trajeto na música, Achas que ainda tens algum objetivo por alcançar?
PF: O que me faz levantar cedo todos os dias e trabalhar nos vários aspetos da minha música, seja em Tigerman ou em bandas sonoras, é o facto de eu poder viver como músico, fazer o que gosto. Obviamente que há uma data de partes que são uma grande seca, como há na vida de todas as pessoas mas o mais importante é mesmo poder viver como músico e isso é um objetivo constante, não é algo assumido. Eu não me posso encostar e pensar que vou viver como músico a vida toda! Isso não vai acontecer assim e com estas mudanças que estão a acontecer à nossa volta acho que temos que nos adaptar, reinventar e trabalhar muito.

TIL: E histórias de estrada? Só temos falado de trabalho. Tens alguma história mais caricata que possas contar?
PF: Humm, não sei. Quando me fazem uma pergunta desse género tenho sempre dificuldade em lembrar-me de alguma coisa. Não sei mesmo. Eu vou ficar a pensar nisso  e se me lembrar de algo, digo. (Risos)

 

TIL: Ok, avançando. Como é que foi gravar no Rancho de La Luna?
PF: Foi muito fixe. Apesar do primeiro dia ter sido um bocado estranho. O estúdio estava todo desfigurado porque alguém tinha estado a gravar lá sem lá estar o técnico do estúdio e tinham mudado alguns patchs. Havia ruído por todo o lado. Um grande caos! Então o primeiro dia foi passado a pôr a coisa no sítio, o que é um bocado assustador. Quando estás a atravessar o mundo para ir gravar num estúdio e quando chegas lá, deparas-te com isto, começas logo a perder um bocadinho a pica e a confiança. A partir do segundo dia a coisa começou a rolar e correu super bem. O Dave (Catching) é um gajo incrível e super hospitaleiro, super inspirador. Fartou-se de cozinhar para nós. Durante mais ou menos uma semana ele fazia sempre o jantar e eram momentos espetaculares. Era também isso que eu estava à procura, visto que era o primeiro disco que não ia ser gravado como one man band. Este, com o (João) Cabrita e o Sega (Paulo Segadães), queria muito que estivéssemos isolados num sítio e focados a 200% na coisa. Essa coisa da casa no deserto onde não há grande coisa para fazer e onde passas o tempo todo, acabou por ser uma cena muito fixe e acho que resultou super bem no disco. Funcionou também para criarmos esta sonoridade que não estava totalmente criada antes de irmos para lá. Tínhamos as canções feitas mas não tínhamos arranjos propriamente feitos. Foi quase tudo feito lá e eu queria usar os pedais lá. Não pude usar guitarras lá – porque sou canhoto, tens oitenta guitarras e não podes tocar nenhuma.

 

TIL: Então como é que resolveram isso? Tinhas a tua, certo?
PF: Sim eu levei as minhas e meia dúzia de pedais. O Dave tem centenas de pedais. Então houve essa parte de experimentação que foi muito fixe e também tem montes de teclados antigos. Uma coisa que não se tinha pensado: há um teclado italiano que fazia um som de cordas muito fatela tipo dos filmes de terror italianos dos anos 70 e que acabou por ser importante na sonoridade do álbum. Há muitas coisas que fomos decidindo lá e isso foi muito fixe. No baixo, gravou o Cabrita, eu gravei outros. A cereja no topo do bolo foi o Dave dizer “Eu se calhar gravo aqui guitarra nesta canção”. Estarmos a falar, a comer, a cozinhar, a gravar, essa vivência toda foi muito fixe!

 

TIL: Nota-se cada vez mais a vertente política da música, seja pelo que diz ou pelo que os seus criadores fazem com a sua influência. Achas importante que os músicos tenham posições ideológicas para ajudar a orientar o público?
PF: Acho que é importante se tiveres isso dentro de ti e se achares que expressar isso na tua arte é importante. Eu normalmente gosto de separar as coisas. Às vezes tomo posições políticas que são fora da minha esfera de artista e que não entram claramente na minha música. Mesmo quando fazes alguma cena que é só livre e agressiva, que liberta as pessoas, isso já é um ato político. Não só na música, também no cinema especialmente em relação aquilo que estamos a fazer ao mundo, à destruição que está a acontecer, seja pela China ou Estados Unidos, todo este ambiente quase de ficção científica que vivemos. Parece que temos super-vilões a comandar os maiores países do mundo é uma cena muito fora, muito difícil de compreender. Acredito que isso também mova muitos artistas americanos a ter uma vertente mais política. Se tivéssemos um gajo de extrema direita em Portugal, se calhar eu estava-te a dizer – temos que dizer coisas mais sérias nas músicas, se calhar era obrigado a fazer isso. Em Portugal não é muito por aí que me inspiro.

 

TIL: Continuando neste tema da posição dos artistas, tem existido muita polémica à volta do documentário do Michael Jackson, o “Leaving Neverland”. Ficou-se com uma perceção de uma faceta não tão bonita do artista. Como é que vês essa questão de diferenciar a arte do artista, da pessoa que cria e do produto final. Não devemos consumir a arte porque o humano por detrás não é bom?
PF: Isso é muito difícil. Se pensares no Roman Polanski que é um artista que eu adoro, ele é um escroque. É difícil! Eu não tenho uma resposta certa para isso, acho que não existe nenhuma certa. No caso concreto do Michael Jackson o que acho pior é que muita gente sabia, supostamente. Infelizmente foi sempre abafada com dinheiro. As reflexões que se podem tirar daí são outras em relação à sociedade em que vivemos, com o dinheiro que pode comprar quase a tua vida. No fundo, para estarmos aqui, estares tu a fazer uma entrevista e eu estar a falar contigo e estarmos a beber uma cerveja, sem dinheiro isto não acontecia. Essa coisa dos artistas que são escroques, sempre houve. Mas acho que se deve tentar separar as águas. Se calhar a cena mais falada é da Leni Riefenstahl com os filmes do 3º Reich que são obras de arte incríveis, mas é o 3º Reich, é f****o! Ela é Nazi, não é Nazi, não devia ter feito, devia ter feito? Acho que é sempre difícil delinear onde fica essa fronteira, depende de cada um. Está no recetor e não no emissor.

TIL: Falando agora aqui de Leiria, o nosso distrito começa agora a fazer um esforço maior para se tornar a Capital Europeia da Cultura. Achas que é uma candidatura legítima?
PF: Não posso responder a isso com muita precisão porque não estou completante a par mas acho que, pelo que eu conheço e pelo que vejo desde o Entremuralhas a outras coisas que têm vindo a acontecer e vão acontecendo, acho que faz todo o sentido. Há uma coisa que eu me parece importante: sempre que haja um esforço de qualquer sítio para ser Capital da Cultura, deve-se escutar os agentes culturais da cidade e deixar infraestruturas que sirvam esses agentes culturais. Porque isso é um grande erro – quando se gasta dezenas de milhares de euros em cachês e fogo de artifício e macacadas que não servem para nada e de repente não tens infraestruturas para continuar a fazer. Por isso acho que é muito importante ouvir os agentes culturais e as pessoas que já fazem as coisas e motivá-los, dar-lhes ferramentas para continuar a trabalhar melhor.

 

TIL: Penso que já temos o importante, só se quiseres acrescentar a tal história de estrada. Se te lembrares.
PF: Acho que os Tédio Boys bateram todas as histórias com as três tournês americanas. (Risos) Mas eu nunca me lembro assim de nada espetacular. Ah, por acaso agora  lembrei-me de uma espetacular. Nós na primeira tournê conhecemos o Joey Ramone porque ele foi a dois ou três espetáculos nossos. O aniversário dele calhava dois ou três dias depois de acabarmos a tournê e ele convidou-nos para ir tocar na festa de anos dele. Nessa altura eu tocava com uns óculos que tinham lentes vermelhas. Estávamos a tocar e o baixista estava a tocar por cima de mim. Eu estava de joelhos e senti uma pancada na cabeça mas não dei importância. No calor do momento não senti que tivesse sido nada de mais. Eu continuava a tocar e as pessoas começaram a ficar especadas a olhar para mim. Eu ia sentindo que estava a suar muito. O que é que acontece? Tinha aberto a cabeça e estava a sangrar! Ia-me limpando mas quando olhava para a mão, vermelha, com as lentes dos óculos não via a diferença. Entretanto perguntei o que se passava e lá me disseram que estava a sangrar. (Risos) Essa é uma delas.

 

Fotos: Facebook Pigs Rock Festival