Entrevista a David J: “Portugal estará no topo das nossas preferências para atuarmos.”


David J veio apresentar “Missive To An Angel From The Halls Of Infamy And Allure” ao Teatro José Lúcio da Silva. A TIL conversou com o músico britânico sobre este novo disco a solo. Tentámos perceber as suas paixões artísticas além da música, isto em vésperas de os Bauhaus, a mítica banda que fundou nos anos 70, juntarem a sua formação original para três concertos em novembro, após 13 anos de hiato.

Quis que houvesse uma ideia ou conceito que unisse as músicas deste novo álbum?

Este não é um álbum conceptual, de forma consciente acho que nunca tentei fazer isso com nenhum dos meus discos. Talvez o dê a entender porque quando estou absorto num determinado tema, acabo por viver determinadas experiências e as músicas acabam por ser um reflexo disso. A haver um conceito seria esse, as coisas que estão mais presentes na minha vida enquanto estou a escrever as canções. Este álbum descreve uma viagem por “geografias” bastante sombrias, daí a “infâmia” e “tentação” (presentes no título); mas há um momento em que consigo sair deste labirinto, um instante de passagem em que consigo esquivar-me a estes salões de infâmia e tentação.          

Escreveu três peças de teatro e até uma autobiografia. Este último livro significa uma paragem na sua actividade literária ou tem algum novo projecto em mãos?

O que influenciou a escrita desse livro de memórias foi na altura estar também a redigir argumentos. Enquanto escrevia, imaginei as experiências da minha vida como cenas de cinema, também em jeito de argumento, um mecanismo que espero que faça do livro uma experiência fílmica. Houve uma altura que me apercebi que este tipo de escrita poderia resultar e decidi seguir em frente. E sim, já comecei a escrever um projecto sobre a altura em que estava com os Love and Rockets (a outra banda de culto fundada por J), mas que “dispara” em diferentes tangentes, um “puzzle chinês” que tenho de arrumar para tudo dar certo no fim. (risos)

Além de músico e escritor é também produtor, DJ e artista visual. Pensa continuar a explorar outros campos criativos?

Penso que não, já tenho as mãos em muitas áreas. Sinto até que é uma dispersão grande e que tenho que me concentrar em duas ou três coisas que me dão mais gozo fazer, senão acabam por ser demasiados meios de expressão.

David J vai voltar a tocar coma mítica banda que fundou: os Bauhaus

A formação original dos Bauhaus vai reunir-se após 13 anos de hiato. Planeiam tocar noutros lados, além desses concertos nos Estados Unidos?

Estamos muito interessados em fazer isso, embora não vá ser uma tournée, são três concertos numa sala grande em Los Angeles, vão ser concertos especiais. Mas adorávamos vir a Portugal, que é um dos melhores sítios para os Bauhaus, o público exprime muito apreço quando aqui atuamos. Se viermos tocar à Europa, Portugal estará no topo das nossas preferências para atuarmos.

Como está a sua relação com Peter Murphy, foi fácil tomarem a decisão de voltarem a tocar juntos?

Está melhor que nunca. Talvez o que tenha levado a isso seja o facto de ele ter estado doente (Peter Murphy, o vocalista dos Bauhaus, teve um ataque cardíaco em agosto deste ano). Ficámos muito preocupados, um problema destes põe tudo em perspectiva. Enquanto esteve hospitalizado íamos-lhe enviando mensagens, estivemos sempre em contacto. E ele apreciou isso. Quando saiu do hospital, tivemos esta oferta para tocar de novo, por isso estamos na melhor disposição para voltarmos a tocar juntos.

Fotos: Idalécio Francisco