Entrevista Mr Gallini: “A beleza da arte é que é transversal.”


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Pedro Dinis Ferreira
Pedro Dinis Ferreira
                       

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    Dia de Portugal, fomos ter com o Bruno à sua casa, nos Pisões. Uma das casas da propriedade serve de sala de ensaios a Mr. Gallini. No meio de muito material como: instrumentos, suportes, colunas, amps e PAs, está Bruno a montar o seu set-up, acompanhado de Alex dos Fuzzil, uma banda da zona.

    Bruno preparava um pequeno showcase para nos mostrar a sua Sunny Days e, por entre testes de som e de câmaras, licor e vinho eram degustados por todos. Feita a experimentação, gravação e depois de algumas provas de vinho, sentámo-nos para falar um pouco.

    Comecei pelo início, pela pergunta da praxe que é: Quando é que surge a persona Mr Gallini? Foi já com Stone Dead que sentiste necessidade de separar as águas ou antes já existia esta ideia?

    Foi já com Stone Dead. Eu ia compondo outras coisas que não encaixavam em Stone Dead, coisas mais acústicas. Cheguei a um ponto em que acumulei muita coisa e pensei que não valia a pena essas músicas ficarem escondidas, mais valia publicar. Na altura até foi o Jonas (guitarrista de Stone Dead) que insistiu comigo para fazer uns concertos e o primeiro até foi na Preguiça Magazine, um bocado à pressa arranjei as percussões para os pés, a guitarra acústica e a coisa correu bem. Depois comecei a curtir e a partir daí comecei a investir mais tempo em Mr Gallini.

    E porquê Mr Gallini? Donde é que aparece esse nome?

    Isso é porque muita gente me conhece por “galinha”. Já desde puto, já vinha do meu irmão. Entretanto houve outra circunstância em que de galinha passou para Gallini, por causa duma pizza. Não vale a pena elaborar. (risos) Achei piada ao nome e adotei.

    Sobre este projeto, a criação das músicas é exclusivamente tua ou há mais envolvidos? 

    Na criação sou apenas eu. Por exemplo, no primeiro álbum, o Lovely Demos, eram tudo músicas que eu já tinha guardadas há muito, gravadas no meu quarto um bocado lo-fi. Neste último, o The Organist, já tive ajuda do Kevin, que faz parte da minha banda de apoio, os Eggz. Ele juntou uns sintetizadores nalgumas músicas incluindo para música The Organist, onde criou o interlúdio, mas essencialmente sou eu que faço tudo, desde a criação, à gravação e produção.

    Que diferenças notas entre este projeto e os Stone Dead? 

    Começa logo pela criação. Em Mr Gallini eu crio sozinho e levo a minha ideia avante. Mas há os dois lados da moeda e ambos são muito bons. Por um lado, ao mostrar uma ideia aos restantes Stone Dead, aquilo torna-se algo muito maior, mas depois há outras ideias que é fixe levar avante por querer transmitir aquilo que pensei e que sinto. Essa é a principal diferença. Depois a questão é que o Mr Gallini surgiu também para eu explorar coisas, sonoridades, para aprender e fazer experiências. Isto é uma trilogia, o Lovely Demos foi para explorar sons acústicos, este The Organist foi para abordar mais as teclas e o terceiro, que ainda falta é para explorar um som mais Rock’n Roll. Basicamente é uma desculpa para experimentar e não estar muito comprometido.

    Sobre essa aprendizagem que falas, estes discos ainda são parte da aprendizagem. A minha pergunta é: se tiveste em alguma altura aulas de guitarra ou bateria ou teoria musical?

    Sim, tive quando começámos os Stone Dead. Nós começámos a banda e ninguém sabia tocar nada, mas queríamos muito formar uma banda e perguntamo-nos o que é que cada um vai tocar e fizemos várias experiências. Eu acabei por ficar na bateria, o Jonas na guitarra, o João já estava na guitarra e só depois é que começámos a ter aulas. Por exemplo, o meu pai só me comprava uma bateria se eu tivesse aulas, para ter a certeza que eu ia mesmo tocar bateria. Tive aulas só de bateria durante um ano na Filarmónica de Pataias e, na altura, a malta andava por aqui com os seus instrumentos e fomos trocando instrumentos e a aprender outras coisas e fui ganhando interesse. A partir daí aprendi tudo sozinho, na internet, principalmente, mas também entre amigos.

    Falando um pouco sobre o processo de criação desta trilogia, falavas em explorar várias sonoridades. Como é que chegas à conclusão que vai ser uma trilogia?

    Eu quando comecei o Mr Gallini já tinha bué músicas e esta ideia da trilogia também vem dessa altura. Na altura arranjei um microkorg e comecei a fazer alguns sons em 8bit, também tinhas essas demos acústicas e outras coisas. Pensei: para não lançar só um disco e misturar estes estilos todos, vou dividir pelos três géneros. Um fica com as músicas que fiz nas teclas e nos sintetizadores, outro para as músicas acústicas e outro para as malhas mais a rasgar.

    Falando desse álbum que ainda falta, o mais agressivo. Já há material para ele?

    Sim, já tenho as malhas há bué. São as mais antigas até e puxam para uma performance mais ao vivo. A ideia é eu ter mais input de outras pessoas. Enquanto nestes que já saíram eu trabalhei as coisas em estúdio e ia saltando entre instrumentos, este próximo quero que seja uma coisa mais orgânica, em que eu me junte com pessoas, independentemente de quem seja, para darem input e contribuir para o disco.

    Sobre essa adição de pessoas ao projeto a pergunta que quero colocar é: isso surge por necessidade ou por capricho? Ou seja chegaste a um ponto em que precisas mesmo de mais gente para poderes tocar ao vivo as tuas músicas ou, simplesmente, queres mais ideias de outras pessoas?

    É por capricho, vontade. Eu lembro-me que comecei e tocava sozinho. Depois comecei a ensaiar aqui com outro pessoal, outras músicas, e pensei que as músicas também ficavam fixes com pessoal a dar ideias, faz sentido eu aproveitar. Então nessa altura pensei que tinha de lançar um disco em que ia aproveitar essa vertente orgânica e partilhada da criatividade.

    Este The Organist já tocaste ao vivo certo? 

    Sim, fizemos agora três concertos de apresentação, com os Eggz. Fomos ao Porto, Lisboa e aqui nos Pisões. Nestes concertos já tocámos músicas do primeiro, o Lovely Demos pt. 1, deste Organist e até algumas do terceiro.

    E como tem sido o feedback?

    Tem sido fixe, a malta tem curtido. Eu toco a solo e sempre me disseram que devia pôr as músicas em banda. E agora que isso está a acontecer as pessoas têm-me dito que faz sentido, as músicas ganham uma dimensão maior. Eu também acho que faz sentido.

    Relativamente ao terceiro álbum, que ainda vai sair. Estavas a dizer que as músicas desse são as mais antigas, mas ao mesmo tempo falas que queres input de outros. Como é que isso se vai processar? Vai ser um input contido e regulado ou não?

    O objetivo é que seja um processo mais coletivo. Eu não quero falar muito, para não estar a revelar coisas antes do tempo. Este The Organist não era para ter sido o que saiu. Eu tinha já feito muitos sons em 8bit, minimalista e o objetivo era lançar três EP’s num ano. Já tinha a coisa mais ou menos feita, mas depois começo a fazer o Lovely Demos e começam-me a surgir outras músicas, coisas mais complexas e depois The Organist acaba por me dar o rumo. Prefiro não falar muito do terceiro porque vou começar a fazê-lo, a juntar peças e é aí que vou começar a perceber o caminho que vou seguir.

    Estávamos a falar sobre criares as músicas com mais pessoal. Qual é o artista com quem gostarias de fazer uma parceria? 

    Não sei. Eu não penso muito nisso porque acho que as coisas para funcionarem é preciso uma química. Não é eu dizer que adoro o John Lennon, mas não sei se me juntasse com ele ia sair alguma coisa de jeito. É preciso haver mais do que musicalidade, acho que é preciso haver uma química, é preciso conhecer muito bem a realidade das coisas e de cada pessoa. Praticamente todos os meus amigos, com quem eu tenho tocado são essas pessoas. Seja o Alex, que esteve aqui, seja a malta de Stone Dead, também já fiz umas coisas com o Churky. Basicamente, todas as pessoas com quem eu sinto essa química, essa visão da realidade, eu quero partilhar isso e explorar o que se pode fazer.

    Falando agora do “depois do terceiro álbum”, qual é o futuro de Mr Gallini?

    Não sei, não faço ideia. (Risos) Para já é focar-me neste terceiro disco e depois logo se vê. Não tenho um grande plano para isto.

    Esta pergunta não é diretamente relacionada com a música mas com cultura no geral. A campanha para Leiria Capital da Cultura 2027 está a ganhar força e queria perguntar como é que tu, enquanto artista, vês essa vontade de tornar a cidade num farol de cultura?

    Eu não sei bem os requisitos que uma capital da cultura precisa, mas acho que é uma boa aposta. Leiria tem muita força cultural e arredores também. Acho que temos muitos artistas bons e muito potencial e para além disso é o espírito inerente ao distrito para fazer as coisas acontecer. Posso estar a falar com alguma ignorância porque não conheço assim tão bem os outros lados do país, mas pelo menos em Leiria, sinto essa força e essa vontade e isso é essencial para termos uma capital da cultura.

    A última pergunta não é tanto sobre música mas sobre os artistas em geral. Muitas polémicas surgiram sobre atitudes de artistas fora de palco que nos fazem questionar o seu caráter. A pergunta é: devemos ou podemos separar a arte do artista? Ou seja quando saiu o documentário Neverland sobre os abusos do Michael Jackson, muita gente disse que não iria mais consumir a sua música por não se rever naquela pessoa. Achas que devemos separar as águas e “trabalho é trabalho, cognac é cognac” ou aquilo é a mesma pessoa e não vou apoiar visões e atitudes com as quais não me revejo?

    Acho que isso é muito subjetivo no sentido em que eu curto bué ouvir Michael Jackson independentemente do que ele fez ou não. Se eu ouvir aquelas malhas dele a solo e mesmo com os Jackson 5, se eu estiver numa pista não vou pensar, “eia este gajo é um pedófilo!”. Vou apenas curtir o som e o feeling e vou-me sentir bem ao ouvir a música que gosto. Agora que falas nisso estou-me a lembrar de outros artistas que eu admiro bué: por exemplo, o Woody Allen que também tem muitas histórias de pedofilia e eu vejo e revejo os filmes dele e não tenho que pensar nisso, mas como disse, é subjetivo. Se calhar se eu conhecesse o Woody Allen na realidade e não sentisse essa química que falei há bocado, se calhar tudo o que ele fizesse eu já não ia ver da mesma maneira como vejo. Eu não o conheço, oiço falar de coisas que ele faz ou fez, mas acho que a beleza da arte é que é transversal a essas coisas todas, porque acho que talvez seja só a maneira de veres o mundo. Concluindo, para mim, acho que não me afeta muito. O que interessa é o que tu sentes ao ver um quadro, ouvir uma música ou ver um filme e o que isso acrescente ao que tu és, que te faz crescer para fazer outras coisas. Coisas, essas, boas ou más. Aquilo pode ter vindo da pessoa mais venenosa de sempre mas se isso te faz melhorar o mundo ou reagir ao mundo de uma maneira diferente é válido.

     

    Fotos: Luís Ferreira