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Último concerto do ano na Stereogun e mais uma vez o artista convidado era de alto gabarito. Miguel Caixeiro trazia a Leiria o seu hip-hop com polvilho de saudosismo (e que concerto foi!). Com direito a acapella, rebuçados e invasão de pista.
Passavam duas horas da hora marcada e ainda nada. Já se notava alguma inquietação no ar, o povo ansiava pelo artista e finalmente ele apareceu. O Justiceiro surgiu por entre alguma fumaça e o instrumental de Carmen. Para quem não conhece Carmen, é a primeira música do álbum Inter-Missão, o mais recente, e utiliza um sample da música Carmencita de Amália Rodrigues. Nesta música temos representado quase tudo o que faz de Mike El Nite ele próprio. Com um sample de fado, Miguel entra na música suavemente fazendo uso de auto-tune que traz consigo um tom melancólico e rimas bastante afiadas e carregadas de referências pop. Sem respirar entra um dos êxitos, Santa Maria, em mais um throwback, desta vez aos anos noventa, com o Amor da Falésia dos próprios Santamaria e com o público já entrosado com Mike a cantar o refrão e alguns versos.
Acompanhado de dj, Miguel sozinho preencheu o palco por inteiro nunca deixando passar qualquer sensação de solidão, que seria natural. O público também ajudou nisso. Apesar de começar tímido, o à vontade de Mike criou também relaxamento no público que rivalizou com o rapper em alguns refrões. Mesmo do novo disco, as letras estavam bem estudadas e sempre que assim se pedia, o público reagia e acompanhava, ora nas letras ora nos movimentos pautados pela batida a chamar um pouco do trap.
Entre músicas as intervenções de Mike El Nite eram sempre curtas e com mensagens claras de agradecimento a quem o estava a ver e a sentir a música com ele congregando um sentimento de humildade e de quem apenas se sente feliz e concretizado por ver o seu trabalho reconhecido. As músicas parece que corriam e não queriam durar, sempre com um jogo de luzes muito entrosado com o que se ouvia e com imagens da banda desenhada que acompanha o disco, como pano de fundo. O flow de Mike El Nite é contagiante e já tinha conquistado a plateia quando começam a soar os primeiros coughs do single Dr. Bayard e rebuçados para a tosse começam a voar distribuídos pelo próprio. Um saco gigante acompanhou o rapper a música toda e, no fim, toda a gente tinha rebuçados suficientes para prevenir a próxima tosse aguda.
Estavamos a poucos passos do fim do concerto mas antes o momento alto da noite criou-se. Se já estavamos conquistados pelo flow, pelas referências e pela presença de Mike El Nite, mais rendidos ficamos quando, a pedido de um fã, Miguel cantou a música Mambo nº1. Ressalva para o que o rapper disse antes, “Esta é para ti. Eu não trouxe o beat, mas pediste e esta vai para ti.” De seguida Mike El Nite transportou todos os presentes para a rua num acapella integral da música que fez as delícias do público e mais uma vez provou a humildade e sentido de respeito que este senhor tem por quem gosta do que ele faz.
Miguel Caixeiro provou neste concerto porque é um dos rappers mais aclamados ultimamente. Consegue conjugar influências novas e velhas, juntar o português e o inglês numa canção sem lhe dar gosto azedo, traz referências geek e da cultura pop para um estilo que nada teria a ver com elas e equilibra ainda a melancolia e a raiva num jogo de emoções que nos faz pensar com e como ele.
Testemunho:
“Grande surpresa! Sem duvida que se insere naquela gama de artistas que agrada a quem não é grande fã ou não gostas do género, hip-hop, trap. Tem um som próprio, não se assemelha aos demais, vem acrescentar algo.”
Anónimo




