Reportagem: Tirei a roupa para o vídeo dos FBAC e ganhei uma experiência para a vida


A TIL descobriu um dos muitos anónimos que participaram  a NU no mais recente videoclip dos First Breath After Coma. E contou, na primeira pessoa, toda a sua experiência!

Há uma estranha e desconfortável beleza em sair da zona de conforto. Não gosto de falar (e pensar) em chavões ou lugares comuns. Mas, tal e qual a sabedoria popular, os clichés parecem ter um fundamento verdadeiro. Para aferir o rigor dos benefícios do abandono das geografias familiares, aceitei o desafio de fazer figuração em nu integral para o novíssimo single dos vizinhos First Breath After Coma. Spoiler alert: sobrevivi para contar a história de uma experiência tanto inesquecível quanto libertadora.

Não sou impulsivo. Mais racional do que emotivo. Mas assim que me deparei com o anúncio de procura de figurantes para um projeto arrojado experienciei um breve momento de clarividência espiritual e, após alguns minutos de pesar prós e contras (o lado racional nunca me abandona), atirei-me de cabeça. E não mais pensei em toda a abrangência desta empreitada… até à noite anterior ao dia das gravações, quando me assolaram mil e um problemas, inúmeras questões, diversas barreiras e variados entraves à sua concretização. Até pensei, admito, no terror que seria ocorrer um intumescimento de uma famigerada protuberância da anatomia masculina. As coisas que uma pessoa pensa e os problemas que uma mente a sofrer por antecipação inventa… Hesitei mas não vacilei.

Como se o desafio de me despir com registo digital e em frente a muitas pessoas não fosse suficiente para contrair e atrofiar todos os músculos subdesenvolvidos deste corpo, as filmagens decorreram ao ar livre… no cimo da Serra d’Aire e Candeeiros. À medida que nos aproximávamos do local das filmagens, serra acima, a ansiedade ia galopando na forma do friozinho na barriga. Aquele nervoso miudinho que na minha experiência aponta a rota certa e o caminho do bem. Quando finalmente estava praticamente mentalizado da tarefa que quase me obriguei a realizar, senti uma das poucas coisas para a qual a insónia da noite anterior não me tinha preparado: o frio vento serrano.

O vento ajudou, porventura, a arejar os pensamentos e soprou a ansiedade para longe da vista. Em conversa algo envergonhada com os outros corajosos, percebi que eles, da mesma forma que eu, estavam relativamente apreensivos mas cada um mais preocupado consigo mesmo do que com o colega nu do lado. Ainda que não esteja propriamente em forma ou tenha um físico invejável, pus de parte questões corporais e de autoimagem fora da equação, consegui concentrar-me na minha postura: a arte pela arte. Com ou sem roupa. E quando visualizei as primeiras imagens, ainda sem edição, das gravações, garanto que me arrepiei mais do que quando estive desnudado durante muitos e longos minutos nuns presumíveis 9º C com o tal frio vento serrano.

Se há algo de estranho e belo em sair da zona de conforto. Há, com certeza, uma estranha sensação de liberdade ao tirar a roupa e despir os medos. Não foi a primeira vez, mas nunca com tanta audiência. Senti frio em sítios onde, muito provavelmente, nunca tinha sentido frio. Partes do corpo contraíram para fazer face ao frio. Outras retraíram. Um enorme sentimento de liberdade que me disse “tu podes tudo”. E senti uma estranha calma comunitária: um grupo tão heterogéneo de pessoas que se uniu por uma ideia. E isso é bonito.

 

Artigo: João Neves

Fotografia: FBAC (Youtube)