Entrevista a Carlos Coutinho Vilhena: “Quando achamos que uma piada é genial, é importante ter alguém que nos diga que não é assim tão boa”


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Teresa Neto
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    Entrevistámos um dos mais carismáticos humoristas de 2019. A vida passou a dar-se em volta de uma série que reinventa a vida de um ex-moranguito num caso de sucesso em todo o país: o João André.
    Aos 26 anos, Carlos Coutinho Vilhena ainda tem muitos projetos em mente, mas o stand up será sempre “a opção” da vida:

    A primeira pergunta em jeito de provocação: como o João André ficou reconhecido  como “o Kiko dos Morangos com Açúcar”, não tens medo de ficar rotulado como “o gajo que fez aquela série com o João André”?
    Tenho. Todos os dias penso nisso! Depende de mim, sabes? O Bruno Nogueira é “o gajo do Último a Sair” e o Ricardo Araújo Pereira é “o tipo dos Gato Fedorento” mas eles fizeram outros projetos de altíssimo nível. Eu espero fazer projetos ainda maiores! Senão olha, morro já aqui aos 26 e o projeto correu bem e os outros foram só médios…

    E agora no presente, o Carlos Coutinho Vilhena está disponível para quê? Estás um bocadinho em tudo: stand up, teatro, produção, edição. O que podes dar mais?
    Eu gosto de poder controlar todos os meus projetos, sejam eles no stand up, na produção, na edição, na escrita. Acho que chegarei a uma fase em que a realização pode ser uma hipótese e escolher as pessoas com quem posso trabalhar e partir para aí.

    Num filme, por exemplo?
    Não. Talvez. Olha, não sei! O cinema é uma área tão difícil. As pessoas falam dos meios, mas isso não me interessa muito porque acho que dá para fazer coisas giras sem grandes meios. Acho que é tão difícil fazer uma película de hora e meia polida e com tanta coisa boa que já se fez, isso assusta-me. Stand up, séries e teatro não me assustam tanto, porque são coisas que são a minha praia.

    E o que achas destes projetos que a Fox Comedy faz agora de séries de autor?
    Acho fixe! Vou entrar agora num com o Pedro Durão e o Rui Mirama. Aquilo vai ser uma brincadeira que ainda não posso falar muito. Por vezes faltam-nos coisas mais técnicas para fazer conteúdos de maior qualidade de imagem, bem pagas… E nem é para nós! É para aqueles que estão a trabalhar connosco. Viver à base de favores é chato. Dizer “olha, amanhã vamos gravar, mas não há muito dinheiro”. A Fox ajuda muito neste processo de testar o nosso produto.

    Por falar em testes, estiveste há pouco tempo no Paddock (bar em Leiria) a testar algum material. Como foi a experiência? Leiria é um bom ponto de partida para stand up?
    Sim, eu gosto muito do público de Leiria. Em relação àquela noite, aconteceu uma coisa que já não me acontecia há quase quatro anos: estava ali muita gente que não fazia ideia quem eu era. As noites de teste nem são para ser muito divulgadas, porque aquilo ainda não é um espetáculo lapidado. Eu não sou o César Mourão ou o RAP que já foram ao Alta Definição e quem os vê ali diz: “epá, este gajo tem graça, deixa-me ver o que ele vai dizer hoje em Leiria”. Quando pagam pelos meus espetáculos, por norma todos já conhecem o meu tipo de humor e os projetos que tenho feito durante a carreira.

    Carlos Coutinho Vilhena, em véspera de mais um “Resto da Tua Vida”

    Lembro-me também que no último solo que apresentaste no Teatro Miguel Franco, “Meta”, estavas completamente coxo. O que se passava contigo?
    Eia, pois foi! Rebentei o joelho no dia anterior ao espetáculo a fazer karaté. Nunca mais fiz karaté! 

    A sério?
    Pois, não podia. Tinha ali o espetáculo esgotado, fui para lá com uma luxação. No dia a seguir fui para a CUF!

    Ontem estive a rever o “O Resto da Tua Vida” e, como foi a segunda vez, senti que o formato ganha muito por estar entre a realidade e a ficção e entre a comédia e o drama. Concordas?
    No humor, por acaso, acho que as pessoas não têm assim tanto cuidado na narrativa como acontece num drama. Quanto mais tu fores perfeccionista nesse processo – quem sabe, até pôr pequenas banalidades de novela dentro de um documentário, que também é um conteúdo de humor, que também é uma série ficcional, se conseguires usar as melhores ferramentas de cada género, melhor para o produto! Esforcei-me sempre em criar uma expetativa. Eu gosto que me enganem, percebes? Engana-me para eu ficar agarrado. Eu gosto de pensar nos “ganchos”: aqui há um problema, aqui há uma solução, aqui vou-te deixar agarrado. Eu fiz esse esforço por isso obrigado pelas palavras!

    Sim, também fiquei com essa ideia…
    Como a história do João André é real, só por aí as pessoas já adoram coitadinhos. É verdade! Gostamos muito de ver o gajo que começa sem nada e depois volta para ficar com tudo. Isso, por si só, já agarra! Não sou um super guionista, apenas abordei mais esse ângulo real.

    E a peça também entra nesse registo?
    Nós tentamos abordar isto pelo caminho de quem não viu a série – chega aqui e vê um bom espetáculo. Agora, quem viu a série, vai perceber muito mais coisas, pequenos pormenores. Quem está na plateia poderá estar a rir-se de uma coisa, mas ao lado está uma pessoa que viu a série e está a rir de uma coisa completamente diferente. Chegamos a um público mais transversal e quisemos ter essa preocupação no guião de preparar isso. 

    A entrevista com Carlos Coutinho Vilhena foi realizada no palco principal do Teatro José Lúcio da Silva

    Chamaste o Pedro Durão (natural de Porto de Mós) para escrever a peça de teatro contigo. Foi uma boa aposta? Tendo em conta que ele nem trabalhou contigo na ideia para a série…
    Fiz-lhe o convite, ele ficou um pouco na dúvida porque como a série já era um produto que ele respeitava, tinha medo de ficar aquém das expetativas. Mas ele ajudou-nos imenso! Foi um apoio muito importante na escrita. Quando achamos que uma piada é genial, é importante ter alguém que nos diga que não é assim tão boa. Por isso, gosto de me rodear deste tipo de pessoas.  

    É por isso que há muitos grupinhos na comédia? Achar graça às pessoas dos grupos e “atacar” os outros?
    Sim, isso acontece. Mas acho que é em todas as áreas. O problema é que o humor é uma área tão pequena que é quase ridículo…

    Sabe-se quase pelos nomes, não é?
    Sabe-se tudo! É como na escola, ou seja, dás-te com as pessoas que te identificas. Se tu acreditas que o teu caminho é o teu humor, então tudo o que está à volta, estará sempre mal. Porque escolheste ir por ali. E pronto, fala-se mal uns dos outros, mas pá, estamos em Portugal. Somos um meio tão pequeno. Não é Nova Iorque ou LA, nós estamos em Portugal. Falamos mal, mas depois estamos todos juntos no Mc’Drive (risos).

    Nos teus momentos públicos, seja em entrevistas ou podcasts, gostas muito de abordar a parte da “gestão de carreira”. No humor  essa gestão é mais importante que o próprio talento de fazer rir?
    Acho! E nem concordo com isto. Porque em qualidade técnica ainda não somos muito bons em stand up comedy. Não somos piores artisticamente ao que se faz lá fora, simplesmente não fazemos tantas vezes. Escrever, testar piadas em tão pouco tempo, é difícil. Os humoristas estrangeiros estão dois anos parados só a fazer stand up. E a ir apenas alterando vírgulas nos textos para conseguir a melhor piada. Nós não temos tempo, estamos com uma série no youtube, uma peça, depois um podcast… Como aqui não se ganha o mesmo de lá fora, temos de nos multiplicar nesse sentido. A gestão de carreira tem de ser criteriosa – isso às vezes é mais importante que a tua postura em palco, por exemplo. Tens gajos incríveis em palco, mas que vai ser muito difícil alguém os conhecer, se ninguém pegar neles. Porquê? Porque não fizeram a melhor gestão de carreira.

    Tiveste a oportunidade única de fazer o Altice Arena no espetáculo do Bruno Nogueira. Como foi essa sensação de atuar para 13 mil pessoas?
    Disse na série que queria ser o primeiro humorista a fazer o Altice Arena. Não fui eu, mas fui o primeiro a pisar o palco! Isso já ajuda (risos). Lembro-me de falar com o Bruno Nogueira antes sobre isto (no cinema São Jorge) e estávamos a ver quanto custava o Altice – estava eu, o Pedro Teixeira da Mota, o Luís Franco-Bastos e ele. Dissemos-lhe: “tens a noção que eras o único que enchias, certo?” Ele respondeu “estás maluco!”, mas passado pouco tempo esgotou aquilo tudo. Aquilo chega a ser uma experiência assustadora, mas resultou em melhor do que em muitas salas mais pequenas, não sei explicar.

    Depois desse espetáculo, achas que há um antes e um depois do stand up em Portugal?
    Acho, porque se fosse um humorista mais jovem, esse humorista ia ser apelidado de pop star – “estes gajos só querem fazer dinheiro!”. Como é o Bruno, que tem o respeito todo da crítica artística, agora abre portas para os mais jovens que também aspirarem estar naquele palco.

    E depois da peça, segue-se uma nova tour de stand up?
    Não, acho que vou parar um bocado. Vou continuar a testar material!

    Hoje em dia é mais arriscado fazer uma piada sobre futebol ou política?
    Não sei, porque não faço nenhuma das duas. Gosto dos temas, mas não me interessa fazer piadas sobre esses assuntos. É que se eu fizer uma piada sobre o André Ventura ou o Trump, amanhã já ninguém se lembra. Se eu usar esse tempo para fazer uma série ou um filme, vai ficar perpetuado no tempo.

    Começaste nos Bumerangue, onde a tua carreira explodiu. Curiosamente a do Teixeira da Mota, Geirinhas e Manuel Cardoso também estão a grande nível. Já lhes antevias esse futuro?
    Sim, porque nós, ao contrário dos outros grupos, não nos juntámos por sermos amigos. Juntámo-nos porque achávamos graça uns aos outros. Era apenas amigo do Manel. Cada um tinha um estilo muito próprio e acho que éramos mais parecidos naquela altura do que agora. Mas aprendemos muitas coisas uns com os outros – aprendi muito. O Pedro (Teixeira da Mota) muito pragmático com a pontualidade das publicações, do respeito pelo público; o Manel pela escrita do guião, super perfecionista; o Geirinhas pelo marketing e pela estética. Eu talvez mais no acting e nas piadas do absurdo. É tudo por fases, somos diferentes, o que é positivo! Não somos apenas betos engraçados.

    Nova vaga de humoristas. Quem recomendas?
    Gosto de estar sempre atento. Mas não gosto de dar nomes porque depois eles desaparecem e dá raia! Gosto muito da Luana do Bem, Ricardo Couto, do Rui Mirama e do António Coutinho que foi ator no “Bon Vivant”. Esta nova vaga tem um grande problema, porque se não tiver boas condições técnicas, ninguém os quer ver na internet. Um bom som, uma boa qualidade de imagem. A fasquia está muito alta…

    Tu no “Resto da Tua Vida” meteste aquilo em 4K, acho que também não ajudou…
    Pois foi! Até o Unas deve estar lixado comigo. Matei os 1080p! O próximo talvez seja em 8K.

    Boa, depois podes meter essa frase no Wikipedia…
    Não posso, não tenho. Mas o Geirinhas tem! (risos)

    Carlos Coutinho Vilhena – o jovem humorista que acredita mais no trabalho que no próprio talento

    Para fecharmos, “Para o Resto da Tua Vida”:

    Uma música…
    Bernardo Sasseti

    Um objeto…
    Phones. Dos normais que os airpods, já perdi dois.

    Um ator….
    Leonardo Di Caprio…

    Pensava que ias responder João André
    Ah, desculpa!

    Uma bebida…
    Café.

    Um humorista…
    Dave Chapelle

    Um Município do distrito de Leiria…
    Porto de Mós. É município? Sei porque o Pedro Durão mora lá. É? Boa!