Entrevista Bia Maria: “Não Consigo Escrever Sobre Coisas Que Não Presencio E Que Não Vivi”


Escrito por:
Filipa Lobo Gaspar
Filipa Lobo Gaspar
                       

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Bia Maria, natural de Ourém, editou o seu primeiro EP “Mal Me Queres, Bem Te Quero”, em Outubro, deste ano. Um EP com canções que nos enchem o peito com histórias de amor e desavenças entoadas por uma doce voz, voz esta repleta de sonhos e ambições . Quisemos saber quem era a Bia Maria.

Primeiramente, conta-nos quem é a Bia Maria.
BM: Nem sei bem por onde é que hei de começar. Acho que a Bia Maria é a junção entre a Beatriz, que gosta de escrever desde sempre e depois a parte da Maria, que é a pessoa que descobriu que gosta de cantar e dar voz às coisas que escreve.

 

E quando é que se deu o “click” para começares a fazer a tua música?
BM: O “click” já foi há algum tempo, eu tinha 16 anos talvez e já tinha imensos poemas, coisas escritas e textos soltos. E depois houve uma altura em que comecei a ter assim mais acesso ao YouTube e às redes sociais e comecei a ouvir imensa gente. Nem era bem a escrever as suas coisas, mas a fazer covers e eu na altura pensei “ok, por que não escrever as minhas próprias canções, dar voz às minhas próprias canções” e acho que foi um bocadinho assim. Comecei a escrever e a melhorar mais nesse aspeto, também aprendi a tocar piano. Só há um ano é que ganhou outras dimensões.

 

Sendo uma artista natural de Ourém, como é que consideras que esta cidade te inspirou a seres quem és?
BM: É uma pergunta difícil (risos).

Pode não te ter inspirado também (risos).
BM: É mais ou menos, ou seja, Ourém tem muita coisa a acontecer na parte das artes, temos muitos artistas em diferentes vertentes e por acaso a escola onde eu estudei sempre foi um sítio muito de criação, de apoio às pessoas que queriam fazer coisas diferentes e que tinham ideias diferentes e havia muitas pessoas a fazer diferentes tipos de música. Nesse aspeto, eu estava num sítio perfeito para me sentir confortável a fazer aquilo que gostava. Só que há aquela parte de Ourém onde há muita coisa a acontecer, mas as pessoas acabam por não aderir tanto e, nesse aspeto, não é o sitio mais propenso. Por exemplo, é impensável se calhar eu fazer a minha vida lá, porque não consigo ter público ou espaço para apresentar as minhas coisas.

 

Mas porque é que achas que isto acontece?  Porque é que achas que é uma cidade que tem tanto a mostrar, mas não consegue ser grande em termos culturais?
BM: Eu acho que tem se calhar a ver um bocadinho com as gerações que vêm antes de nós e acho que é algo que se vai mudando com o tempo, com as mentalidades. Sei lá, há muito a tradição das bandas filarmónicas lá e isso é uma coisa que as pessoas vão ver e ouvir, mas de resto não sei… Acho que é um bocadinho isso, as mentalidades das pessoas lá e é aquela coisa das pessoas lá gostarem mais de estar no café sentadas a beber o seu café e a falar ….

 

Falando agora do teu EP, “Mal Me Queres, Bem te Quero”, bastante singular, original e cheio de qualidade musical. No que toca à peculiaridade da composição, será esta marcada por episódios pessoais ou são apenas meras histórias?
BM: É um bocadinho dos dois, porque acho que é isso que também me inspira na verdade. Não consigo escrever sobre coisas que não presencio e que não vivi e acaba por ter também o lado da imaginação e da criatividade claro, mas é isso, acima de tudo. São histórias que oiço, são bocadinhos de coisas que vivo e que acho que fazem sentido assim em serem escritas e partilhadas, até porque são coisas que as pessoas se identificam.

 

 

E para além da originalidade da escrita a sonoridade apresenta-nos também vários géneros como o jazz e a bossa nova. Conta-nos como é que se deu o processo de gravação para este EP.
BM: Por acaso o processo foi bastante peculiar, porque nós não tínhamos propriamente um estúdio para gravar, estivemos a gravar na Escola Superior de Música aqui em Lisboa, em Benfica. Os três rapazes que fundaram a Chinfrim (editora): o Guilherme, o Rodrigo e o Bernardo, eles estudam aqui (Lisboa) também e, pronto, era o espaço que nós tínhamos com tudo à nossa disposição para gravarmos tudo com qualidade. Teve um senão, porque nunca tínhamos o espaço sempre que queríamos e a parte de gravar com as pessoas tinha de ser: vir uma pessoa e gravar uma base, depois vinha outra pessoa e gravava outro instrumento por cima. Ou seja, nunca pudemos fazer o trabalho todos juntos, com uma banda e estarmos a tocar todos juntos a ouvir-nos. Nesse aspeto foi um bocadinho mais complicado e difícil e traz algumas complicações, mas correu bem, foi uma boa primeira experiência.

 

Então e como é que se deu a união com a editora independente Chinfrim?
BM: Por acaso é engraçado, porque eu só conhecia o Guilherme porque é também de Ourém e, em agosto de 2018, foi quando eu comecei assim a ter mais a ideia de “ok, tenho aqui um conjunto de canções que gosto e que acho que faz sentido gravar e eternizar” e lembrei-me de falar com o Gui, porque sabia que ele estava a estudar aqui em Lisboa e que era a pessoa mais acessível para eu avançar com esta ideia. Só que entretanto eles falaram comigo primeiro, porque tiveram a ideia de criar a editora: ele, o Bernardo e o Rodrigo. O Gui também conhecia o meu trabalho e gostava muito dele e achavam que seria interessante esta pareceria, até porque precisavam de músicos para fazer o trabalho todo de gravação e, também, para de se dar a conhecer a Chinfrim. Eles começaram há um ano e, pronto, foi basicamente quando começou o projeto da Bia Maria. É uma segunda família!

 

Este teu ano foi marcado por concertos. Passaste pelo Palco Coreto no Nos Alive e, recentemente, terminaste uma pequena tour que passou lugares como Lisboa, Braga e Guimarães. Como é que correu?
BM: Foi um ano nada esperado. Por exemplo, de janeiro a abril ainda foi assim muito paradinho, porque também andávamos em gravações, não havia nada para mostrar para termos grandes concertos. Entretanto, em Maio fomos gravar para o Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e isso foi mesmo uma rampa de lançamento, porque foi um bocadinho por causa disso que apareceu o concerto do Nos Alive. Depois, também, fomos a Braga ao Vira Pop e acabou por ser uma catapulta de concertos e não estava mesmo nada à espera. Nós há dias estávamos a fazer a revisão do ano de 2019 e já nem sei, o Pedro falou de 20 e tal concertos e lá está só começamos a dar concertos assim mais no verão e foi mesmo bom. Desde setembro até agora é que foi mesmo a loucura, nós tivemos imensos fins de semana ocupados.

 

E para 2020, o que pretendes alcançar?
BM: Para já queríamos lançar um álbum com mais canções. Também temos outra surpresa, em princípio se tudo correr bem, e mais concertos. Já estamos a tratar disso por outras zonas do país, queremos descentralizar e não fazer só concertos em Lisboa. O norte é sem dúvida uma área a explorar, a industria musical lá em cima é completamente diferente. Até porque a maioria dos concertos em 2019 foi tudo lá em cima, quase. Também temos outros sítios em mente como Castelo Branco e até no Alentejo.

Falando do distrito de Leiria, consideras que tem os componentes necessários e legítimos para ser a futura Capital Europeia da Cultura em 2027?
BM: Há dias estava a falar com uns colegas que concordavam muito que é isso. Desde há uns anos para cá que eu me lembro que Leiria era assim muito parada, não havia assim um grande mercado lá no que toca à música e que, ultimamente, tem tido um crescimento brutal. Muitas coisas a acontecer, concertos, exposições e de música mesmo muito variada e acho que se continuaram a fazer, ou seja, o trabalho nesse sentido acho que pode ser. É possível.

 

Já que estamos no final do ano, quais foram os artistas ou bandas que te inspiraram no decorrer de 2019?
BM: Cristina Branco, que para mim é uma grande referência. Foi durante 2018 e 2019, que eu comecei a explorar o trabalho todo dela e a ouvir mesmo alguns antigos.  Portanto, foi uma grande inspiração. Houve alguns artistas que eu conheci este ano, também, por causa do álbum da Fnac “Novos Talentos”. Por exemplo, o Afonso Cabral, que lançou este ano o álbum dele “Morada” e, depois também, há um artista não muito conhecido, mas que tem música muito boa, que é o João Berhan e, por acaso, já o conhecia porque o meu guitarrista já me tinha falado dele, mas nunca tinha explorado o trabalho dele assim a fundo e, este ano, foi um ano para ouvir mais música e descobrir outras coisas e, pronto, fiquei mesmo apaixonada pelas coisas que ele faz.

 

E em termos de álbuns?
BM: Eu escolhia o “Morada”, do Afonso Cabral. Eu gosto mesmo muito. Houve um álbum, também, muito bom que é a Lívia Nestrovski com o pai, que é o “Pós Você e Eu” e é mesmo muito bonito. É só guitarra e voz e é incrível. E também adoro o da Luísa Sobral que é o “Rosa”.

 

Fotografia/Vídeo: DR