Lixo nos oceanos é o combate do Mar à Deriva para revitalizar a costa do Oeste


Durante as épocas balneares, a divulgação de toneladas de plástico encontrado nos areais e no mar tornou-se uma prática recorrente e, de certo modo, assombrosa pelas quantidades exuberantes de lixo achado na costa marítima portuguesa, incluindo em algumas das praias do distrito de Leiria. Lidia e Manuel Nascimento contam-nos a sua luta pela consciencialização de um mar mais limpo e seguro.

O dilema crónico do plástico nos mares tem sido um dos principais combates à escala mundial que consequentemente coloca em perigo milhares de espécies marítimas, ecossistemas e, deste modo, a vida humana. De acordo com a ONU (2018), ” 80% de todo o plástico descartado acaba nos oceanos”.

“Apanhamos lixo marinho há muitos anos, há mais de duas décadas“, conta-nos o casal que, em 2019, decidiu criar a página Mar à Deriva – Adrift Sea,  que conta com mais de 5000 likes no Facebook. “Começámos a partilhar o lixo que apanhamos desde abril de 2019, pois passou a aparecer muito mais lixo do que era habitual, ou seja, todas as marés cheias passaram a deixar lixo na areia e nas rochas.”

Os seus locais de ação passam um pouco por todo o território nacional e ainda além fronteiras. Sendo habitantes em Santa Cruz, Torres Vedras, é frequente deslocarem-se às praias no distrito de Leiria, como o caso da Nazaré e Peniche.” Em Peniche, além do lixo recente, existe lixo com muitos anos que estava enterrado e que com a subida do mar agora começa a aparecer. É habitual encontrarmos brindes dos gelados Rajá e Olá dos anos 60 e 70, por exemplo. Em julho encontrámos aquilo a que chamamos uma lixeira dos anos 80 pois, no espaço de cerca de 1 metro quadrado, encontrámos mais de cem embalagens dos anos 80.”, referem Lidia e Manuel Nascimento.

Resíduos dos anos 80 encontrados em Peniche

Após esta recolha massiva de lixo, foram vários os meios de comunicação social a tornar público o sucedido e diversas partilhas correram o mundo das redes sociais. O casal conta-nos que com as suas partilhas no Facebook conseguem contagiar, no bom sentido da palavra, cada vez mais pessoas a agirem contra esta problemática, “Há cada vez mais pessoas a enviarem-nos fotos e mensagens a contar o que apanharam.”.

Sacos e garrafas de plástico, cabos de pesca ou embalagens são algumas das centenas de objetos diferentes encontrados nas praias, no entanto há ainda registos de animais mortos e ossadas. “No ano passado, por exemplo, apanhámos cerca de 1 tonelada de lixo por mês, na sua maioria restos de artes de pesca.”, conta-nos o casal. No distrito de Leiria, o maior foco de lixo é encontrado na Praia do Molhe Leste, em Peniche.

Lixo recolhido na Praia do Molhe Leste em Peniche
Muitas vezes deslocam-se às praias apenas para surfar, mas mesmo assim apanham lixo a todas as praias que vão, “Infelizmente, onde há ondas há lixo, e se há lixo não conseguimos ficar indiferentes e temos de o apanhar.”.
 
Quando questionados sobre o aumento do lixo no mar nos últimos anos referem, “Cada vez há mais lixo e este ano com a agravante de também haver máscaras, quer deixadas na praia, quer trazidas pelo mar.”.
 
“Projetos de recolha de lixo marinho há bastantes, o que é necessário haver é medidas concretas e urgentes da parte dos decisores, quer políticos, quer empresariais. Essas medidas têm de ser tomadas agora, não se pode esperar mais. Para muitas espécies já é tarde demais, mas para outras ainda vamos a tempo se agirmos já.”, conclui Lidia e Manuel Nascimento.
 
Fotografias: Facebook Mar à Deriva – Adrift Sea