Entrevista com Sean Riley: “Pela primeira vez na história de uma banda, ao quinto álbum editamos um som que não tem uma única guitarra!”


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Filipa Lobo Gaspar
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Em plena contagem decrescente para o primeiro concerto em Leiria após o período de isolamento, estivemos à conversa com o músico Afonso Rodrigues, que se vai apresentar como Sean Riley na reabertura do Teatro José Lúcio da Silva.

TIL: Nós queríamos saber como é que correram estes dias de quarentena e se houve tempo para produção musical.

Sean Riley: No início não. Confesso que não estava muito com a cabeça aí! Estava demasiado preocupado e demasiado stressado com toda a situação. Não necessariamente do ponto de vista artístico, mas do ponto de vista global do que está a acontecer no mundo, da forma como esta situação vai afetar os nossos comportamentos futuros. Viagens tive que cancelar. Pessoas com quem não consigo estar, família… Portanto tudo isso me estava a afetar bastante. A forma como nós nos relacionamos com os outros agora, a energia que sentia quando ia à rua… Estava a passar uma fase de algum desconforto, por isso não me estava a ser muito útil criativamente. A partir do momento em que a situação se instalou e que, de facto, começamos a habituar-nos de alguma forma a esta realidade um pouco estranha, aí sim comecei a escrever. Não necessariamente nada que tenha a ver com o momento em que estamos a passar mas sim, comecei a escrever.

Durante esta época de isolamento participaste num live do instagram. Como é que foi essa experiência? Sabemos que é estranho estares a tocar ou fazer um concerto e depois não haver nenhuma química.

Eu só fiz um, o Festival Eu Fico em Casa. Não sou muito fã dos lives confesso, por variadíssimos motivos, acho que a nossa música não se presta muito a isso, porque acho que de repente houve um exagero absoluto de performances online constantes e isso acabou por tirar um bocadinho o brilho a esse tipo de performance e deixar que as coisas fossem especiais. De qualquer das formas, fiz uma das primeiras iniciativas que houve, uma iniciativa bastante grande, feita pelas 3 majors em Portugal (a Sony, a Universal e a Warner) e que, basicamente, para além de ser um meio para os artistas se expressarem tinha também uma mensagem muito clara que era pedir às pessoas naquela altura em concreto para ficarem em casa. Estamos a falar da primeira semana de quarentena portanto, nessa altura, pareceu-me de facto que fazia sentido associar-me a algo que tinha uma mensagem da qual eu acreditava profundamente, porque eu acreditava profundamente na importância das pessoas ficarem em casa numa primeira fase para não saturarmos o sistema nacional de saúde. Isto para Portugal não ser mais um exemplo de catástrofe à semelhança de uma Itália ou de uma Espanha, ok? Não fiz mais porque depois, como te digo, achei que muito rapidamente se começou a banalizar esse tipo de performance e não via como fazê-lo com a banda e também não tinha interesse em fazê-lo sozinho. 
Essa vez foi interessante, mas repara que foi uma novidade, foi uma coisa que fiz pela primeira vez e que no final não percebes muito bem o que aconteceu. É um bocado como quando tocas as primeiras vezes num palco onde há uma mistura de desconhecimento com adrenalina e então aquilo fica tudo uma névoa e aqui tens a vantagem que depois podes ir ver o resultado, não é?

Agora que as portas para a cultura começaram a abrir, esta sexta feira vais atuar na reabertura do Teatro José Lúcio da Silva. Ainda te lembras do último concerto que deste antes da pandemia começar?

Antes da pandemia começar o que é que eu fiz?! Acho que fiz um concerto com Mazgani talvez no final do ano. Eu não estava propriamente em ciclo de concertos, estávamos a preparar o come back com The Slowriders. Lançamos um single no inicio do ano, estávamos a gravar e a ideia era voltar a ter um single antes do início do verão e, por fim, um álbum no final do verão. Eu nesse momento não estava propriamente em ciclo de concertos e também não tinha estado a tocar com a regularidade que estaria noutros anos…

Lançaram um novo single no início de Março. É esse o tema que te estavas a referir?

Sim! Ou seja, nós lançamos no início de Março e íamos começar a desenrolar o novelo. Íamos lançar o single, depois promoção, depois segundo single, depois concertos, depois álbum… E levantamos o pé do acelerador porque passados 15 dias depois do lançamento o país parou, não fazia muito sentido continuar.

 Então neste próximo álbum foi colocada uma pausa ou continuaram a trabalhar à distância para a realização do mesmo?

Nós temos o disco praticamente fechado do ponto de vista criativo, precisamos de ensaiar e de alinhar algumas ideias e de voltar a estúdio para gravar mais coisas. Nenhum de nós sentiu muita vontade de ir para estúdio enquanto estivéssemos nesta situação. Acho que o estúdio tem que ser um espaço de total liberdade do ponto de vista de expressão e acho que estes condicionalismos sociais, a utilização de materiais de proteção, etc… Tudo isto criou uma frieza e um distanciamento que não é compatível com o tipo de experiência que nós temos em salas de ensaio e em estúdio. Não é a nossa energia, nós somos muito amigos, vivemos muito do contacto, muita proximidade, portanto acho que demorámos aqui algum tempo até adaptarmos-nos a esta nova realidade e a perceber como é que vamos fazer as coisas. Neste momento acho que estamos mais pacificados com a ideia e temos que encontrar soluções de trabalhar dessa forma – trabalhar à distância e online também não é uma coisa que faça muito sentido para nós, não neste tipo de projeto. Agora, durante o mês de junho vamos regressar ao trabalho, temos um espaço novo onde vamos começar, temos condições para trabalhar nesse espaço e portanto vamos tentar ver pela primeira vez se a nossa química existe com esta nova forma de viver que é muito estranha para nós e que nunca experienciamos enquanto banda. Este ano, garantidamente, vamos lançar música nova, vamos apenas reafinar um bocadinho os timings.

Pegando aí nesse ponto de estarem um bocadinho mais conformados com a situação, qual é a sensação de vocês darem os primeiros concertos agora no possível regresso aos eventos culturais?

O concerto vai ser a solo, portanto só eu ainda é que vou ter essa experiência, para já. O concerto inicialmente era para ser apenas transmitido online. Acontece que felizmente, durante esse período que estávamos a conversar com o teatro, o que aconteceu foi que as salas voltaram a ser reabertas. Tivemos a autorização do governo para voltar a abrir salas, obviamente em condições muito específicas que respeitem a segurança de todos os envolvidos para mim é essencial e prioritário, mas de qualquer das maneiras podem estar pessoas na sala. Então o TJLS achou por bem que podia manter a iniciativa do concerto ser transmitido online, mas juntando a esta nova realidade a possibilidade de ter pessoas na sala.
Inicialmente isto era um concerto cuja principal finalidade era ser transmitido online daí também a curta duração, o formato a solo etc.

Qual é a sensação de agora voltares aos palcos? Há um certo sentimento de saudade?

Sem dúvida. Acho que para mim isto divide-se em dois pontos. Por um lado, a título pessoal, tenho saudades de tocar ao vivo. É uma coisa que eu adoro fazer e que me dá imenso prazer mas muito mais importante do que isso, vendo o quadro geral das coisas, para mim este concerto é importante porque simboliza de uma forma muito tangível que estamos próximos de outra realidade, que há milhares de pessoas que neste momento não têm capacidade de trabalhar e que vão poder voltar a trabalhar – todos os músicos, técnicos, managers, agentes, precisam desesperadamente de voltar a trabalhar e ter condições para o fazer. Portanto, mais do que isto ser interessante ou não para mim, é interessante perceber que estamos já numa fase de transição e que podemos estar mais perto de voltar a algo que se pareça com a nossa antiga normalidade. De qualquer das maneiras, isso significa que é uma grande alegria perceber que há condições para as pessoas poderem levar ao público aquilo que tão importante é para as duas partes: tanto para os artistas como para o público, mas acima de tudo vai permitir também a muita gente voltar a trabalhar.

O que podemos esperar desse concerto? Já percebemos que vai ter uma duração mais curta, vais ser apenas tu. O que é que podemos esperar no que toca a singles novos, não só do que já saiu em Março mas talvez  alguma coisa mais recente e, depois o que é que podemos em, última instância, esperar do próprio álbum, o que é que já podes revelar?

Bom, relativamente ao concerto eu normalmente decido o alinhamento dos concertos muito em cima da hora, normalmente é no próprio dia que eu fecho às vezes até há decisões que tomo na hora quando tou em palco, em função da forma como me estou a sentir ou como o público reage ou o que quer que seja. Em primeiro lugar vai-me apetecer cristalizar algumas músicas do California, que foi o último disco que lancei a solo e que faz todo o sentido tocar neste tipo de concerto. Mas eu também gosto sempre quando toco sozinho de colocar no meio do alinhamento algumas canções de The SlowRiders porque acabam por ser canções que na sua maioria também são escritas por mim e depois é capaz de acontecer um bocadinho de tudo aquilo que explicaste. É provável que passe pelo novo single de The SlowRiders, por uma outra canção que eu esteja a trabalhar neste momento e que vá para o disco que ainda não esteja gravado… Vamos andar a navegar um bocadinho por aí, entre aquilo que foi fechado com Sean Riley no California e aquilo que é um bocadinho o momento atual de The Slowriders, também.
Relativamente ao álbum, como ainda não está fechado é difícil tirar grandes conclusões, mas eu acho que mais uma vez vamos tentar fazer aquilo que fizemos sempre: sem comprometer o sítio de onde vimos, apontar para novas direções, sem perder a nossa identidade. É importante conseguir encontrar algo fresco e novo que seja entusiasmante, não só para os que acompanham há alguns anos, mas também para nós, que nos dê prazer fazer. Acho que o single que saiu é uma amostra disso. É uma música, pela primeira vez na história de uma banda, que ao quinto álbum editam um som que não tem uma única guitarra! Acho que aí já tens um bocadinho o levantar do véu da direção das coisas que nós estamos a fazer.

Queria saber se tens alguma história caricata de estrada ou de algum concerto que querias partilhar connosco…

Ui! (risos) Nem saberia por onde começar. Nós somos uma banda com uma certa propensão para esse tipo de histórias míticas e portanto ao longo dos anos foram acontecendo muitas coisas, mas não saberia por onde é que havia de começar…

E já agora, falando nessa questão de estrada, qual é que foi para ti o melhor concerto que já deste e também o pior? Tens ideia de algum que tenha corrido muito mal?

Os concertos são bons ou maus por variadíssimas razões e felizmente tivemos bastantes momentos altos nos últimos anos e ao longo de todo o nosso percurso e momentos maus. Diria que foram poucos os que foram maus – maus por serem engraçados, não necessariamente por serem maus de uma forma negativa ou que nos afetasse por aí além. No sentido das histórias, lembro-me, por exemplo, de um concerto que poderia ser integrado nos maus apesar de nos termos divertido imenso. Uma vez fomos a Espanha porque o Bruno tinha um amigo a viver lá que nos foi vendido como “Rei de Compostela” e marcou-nos um concerto. Nós já tínhamos outros concertos em Vigo e então fomos fazer esse concerto – quando chegamos lá começamos a fazer o ensaio de som e rapidamente percebemos que aquilo era uma receita para o desastre porque na verdade o concerto foi marcado para uma discoteca! Imagina um edifício isolado onde não há passagem de pessoas, onde as pessoas que vão definitivamente porque há um evento lá, ok? O concerto estava marcado para o final da tarde, início de noite, tendo em conta qu o horário habitual de funcionamento daquele club é tipo uma da manhã para cima e não existe qualquer promoção do nosso concerto pela cidade… Nós estávamos isolados a tocar num edifício onde ninguém sabia que estava um concerto a acontecer. Tocamos para uma pessoa que estava a passar por acaso e ouviu o barulho e decidiu entrar para perceber o que é que estava a acontecer. Nós tocamos num sitio que não tinha público! Foi assim uma situação completamente surreal e fartamos-nos de rir com aquilo na prática porque, enfim, foi como lhe chamamos: um ensaio com sistemas de luz e com som. Mas foi engraçado, foi uma experiência diferente!
Do lado das experiências mais positivas, há milhares delas. Honestamente, nós tivemos muita sorte até agora. Acho que pisamos todos os palcos mais importantes do país, seja em festivais, seja em salas e coliseus. Felizmente as coisas correram-nos sempre bem. Destaco o primeiro concerto que nós demos que foi no Teatro Académico de Gil Vicente (Coimbra) esgotado e que foi um momento incrível – foi a primeira vez que nós metemos aquelas músicas num palco, ainda nem nós mesmos sabíamos muito bem o que é que estava a acontecer. Convidaram-nos para fazer a primeira parte de um artista internacional e acho que tivemos 3 dias para preparar o concerto. Quando chegamos lá, estavam 700 pessoas para ver o Ernesto. Obviamente que não era para nos verem a nós, mas foi uma sensação absolutamente indescritível! Quando acabas de tocar a primeira canção e está tudo às escuras e só vês uma avalanche de aplausos a virem ter contigo, quase que te mandam ao chão. Foi uma experiência que eu nunca esquecerei e que foi a que definiu todo o resto do percurso.

Para finalizar, gostaríamos de saber se tens algum tipo de recomendação musical, literária ou até mesmo um filme que te tenha marcado durante esta quarentena?

Li um livro chamado Os Vagabundos do Dharma, de Jack Kerouac. Já tinha lido há muitos anos mas em inglês. Em português foi a primeira vez e achei bastante interessante. Tenho uma memória muito curta e os livros, filmes e essas coisas têm um impacto muito grande no momento mas depois passam-me completamente ao lado, deixam de estar registados. Portanto acabou por ser muito interessante reler aquele livro, porque é um livro que fala bastante sobre uma coisa que por coincidência tem sido uma ideia que tem estado muito presente na minha cabeça durante o período de quarentena que é a nossa comunhão com a natureza e o facto de conseguirmos tirar grande prazer de estar a sós com a natureza e de compreender a grandiosidade e a beleza da natureza. Há dias, estava a pensar que nos últimos tempos valorizo muito as pessoas que valorizam a natureza, parece-me de uma sensibilidade, de uma inteligência maior tu perceberes o que é a natureza e o quão interessante pode ser tu sentares-te num jardim a olhar para uma árvore em vez de estares uma hora a olhar para o Instagram.
No ponto de vista da música, obviamente tenho ouvido coisas novas e coisas soltas, mas provavelmente a coisa que eu mais ouvi não sei muito bem porquê mas voltei ao Kurt Vile, que eu já tinha ouvido bastante.
Eu sou um geek de carros, sempre gostei desde miúdo. O meu pai sempre teve ligações a carros. Gosto de carros antigos e vi um documentário sobre um tipo que para mim é absolutamente incontornável no universo pela forma como pensava e como sempre levou a vida dele que foi o Ayrton Senna. Acho que talvez foi a coisa mais interessante que eu vi na quarentena – um documentário recente que está na Netlfix. Além do Tiger King que toda a gente viu, não é? (risos). Ayrton Senna e Tiger King, acho que é um bom mix (risos).

 

Entrevista realizada por: Filipa Lobo Gaspar e Pedro Dinis Ferreira
Foto: Miguel Pereira/global Imagens