Entrevista a Chico Bernardes: “Conhecer as figuras da música do nosso país tem outro encanto e nos dá inspiração”


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Rui de Sousa
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    O músico brasileiro Chico Bernardes chega a Portugal pela primeira vez com 20 anos. Em conversa com a TIL, conta-nos as suas referências junto do pai Maurício Pereira e irmão Tim Bernardes, a sua perspetiva na música e sonhos para o futuro.

    Chico, para começar a nossa intro preciso de saber a tua idade. Ainda tens 20 ou já fizeste 21?
    Chico Bernardes: Tenho 20. Faço 21 no dia 10 de junho…

    A sério? Sabes que 10 de junho é feriado em Portugal. Aliás, Dia de Portugal e de Camões, um dos nossos principais poetas…
    CB: Wow! Sério? O João Gilberto, da música brasileira, também faz anos nessa data. Agora essa do Camões não fazia ideia.

    Chico Bernardes encheu o Atlas Hostel, em Leiria
    Chico Bernardes encheu o Atlas Hostel, em Leiria

    É verdade. Pronto, já valeu a pena este trecho de entrevista. Mas vamos falar da tua música: as tuas músicas são super introspetivas. A questão é que tens 20 anos. Eu aos 20 era super ingénuo, não tinha capacidade para guardar assim informação e transformá-la em arte. Como foi esse processo?
    CB: Este é um disco que fala bastante de amores e de questões existenciais. Os amores eu sempre tive, as questões existenciais  eu fui começando a ter aos 14, 15 anos. Sempre fui uma pessoa de pensar muito! Sempre tive esse lado motor muito forte: por exemplo adorava coisas relacionadas com circo, como por exemplo o malabarismo. Depois por volta da mesma idade das questões existenciais, comecei a ter mais contacto com a música. Comecei a tocar violão, comecei a compor… Há músicas no disco que as escrevi com 16 anos.

    Ou seja, tens músicas que já escreveste há quatro ou cinco anos. Ainda te revês nessas letras?
    CB: Sim, elas às vezes voltam para a minha sombra (risos).

    Aquilo que conseguiste desenvolver em tão tenra idade foi mais devido a trabalho da escrita ou ao próprio talento na música?
    CB: Isto foi surgindo. Estava a aprender a tocar violão e, às vezes, juntava uns acordes e depois foi tudo meio espontâneo. 

    Achas que esta “psicologia das palavras” que usas nas tuas canções, serve de inspiração às pessoas que as ouvem e têm dificuldade em se expressar?
    CB: Espero que sim! É um disco bem para dentro. Tem uma coisa bem pessoal, mas ao mesmo tempo as pessoas identificam-se com ele porque você fala consigo mesmo. Não se trata de nenhum evento ou ocasião especial. É uma coisa vaga e aberta, cabe a cada um sentar e analisar ao seu jeito.

    A tua música é simples: só tu e o violão.  Para quem vê pode achar até mais amador, não no mau sentido da palavra, claro…
    CB: Há uma coisa que os brasileiros dizem: “É fácil tocar violão. É dificil é tocar violão bem”!

    Era exatamente aí que queria chegar. O que cativou mais em tocar violão foi essa simplicidade?
    CB: Sim. Teve muito neste disco de coisas mais complexas que partiram de elementos mais simples. Às vezes são poucos acordes. Eu estou agora na faculdade a estudar violão e temos muito a escola brasileira de bossanova, harmonia específica. Com menos acordes, conseguimos chegar a uma melodia simples, mas muito bonita na mesma.

    "Astronauta" é um dos temas mais conhecidos de Chico Bernardes
    “Astronauta” é um dos temas mais conhecidos de Chico Bernardes

    As tuas músicas têm sempre entradas muito fortes. Os primeiros versos ficam na cabeça de tal forma que faz parecer o jornalismo em que também somos obrigados a escrever entradas fortes para agarrar os nossos leitores…
    CB: A verdade é que pensei nisso, tanto na letra como no próprio instrumento. Testei e vi o que poderia funcionar melhor. Ao início até havia músicas demasiado parecidas com outras e tive de remisturá-las. Porque apesar de ser um disco só de voz e violão, tem de ter o seu diferencial. Cada música tem a sua maneira de existir. Quando comecei a tocar nos primeiros shows, as pessoas falavam que as músicas eram parecidas e não conseguiam distinguir umas das outras. Quando fui montar os arranjos, pensei nisso e desenvolvi esse diferencial.

    Indo da música aos teus sonhos em pequeno: já alguma vez tinhas pensado em ser astronauta?
    CB:  Quando era pequeno fiquei muito chocado quando a minha avó morreu. Fiquei muito triste, principalmente porque sabia que ela tinha morrido sem nunca ter ido ao espaço. Deveria ter uns 6 ou 7 anos! Sempre gostei dessas figuras: por exemplo o Buzz Lightyear. Quando comecei a escrever essa música foi a soma disso tudo.

    Na tua música também tens a parte familiar?
    CB: Sim, um lado afetivo muito grande.

    E pela tua família estar muito ligada à música, também tinhas essa vontade de ser artista?
    CB: Eu falava que não ia ser músico. Já tinha gente a mais na família e preferia outra coisa. Apesar da música nunca ter ficado ausente da minha vida. Ela sempre foi comigo para todo o lado.

    Lembras-te de ir em pequeno a concertos com o teu pai ou até a concertos do teu pai? Que memórias tens?
    CB: Eu ia muito, com esta avó que faleceu, aos concertos do meu pai. Ela deixava-me lá num cantinho estratégico e assistia assim aos shows do meu pai. Outra lembrança quando era muito pequeno, devia ter uns 3 anos, era que o meu pai tinha um disco de marchas de carnaval brasileiro. E eles tocaram exatamente na escola onde eu estava – foi assim um primeiro contacto com a música do meu pai artista. Toda a banda com as camisas floridas, ali no centro de São Paulo. Nunca mais me esqueci.

    E fora a família quais são outras referências que tens na música?
    CB: De brasileiros, adoro o Caetano Veloso. Na música brasileira também tenho de destacar o Gil e o Milton – esse trio merece destaque. Mas só apenas quando entrei na faculdade é que levei mais a música deles comigo. Até à faculdade, ouvia coisas como Bob Dylan, Neil Young, Joni Mitchel.  Mas conhecer as figuras da música do nosso país tem outro encanto e nos dá inspiração. Eles fazem parte da história do lugar que agora tá ocupando. Ver eles como a geração nova que já tá velha e nós, como jovens que ocupam agora essa nova geração.

    Apesar de estar mais à vontade com o "violão", Chico Bernardes também usa por vezes o piano
    Apesar de estar mais à vontade com o “violão”, Chico Bernardes também usa por vezes o piano

    Tens outro estilo musical que aprecies e (ainda) não toques? Ou então que te inspire de alguma forma?
    CB: Gosto muito de piano clássico. De Debussy, de Ravel. Estudei muito o movimento impressionista francês, que tem uma delicadeza de tocar notas de piano – eles tocam notas muito baixas e depois ter essa capacidade de crescer. Acho isso inspirador. Apesar de ser diferente do que eu toco. Mas de alguma forma os gestos são parecidos!

    E há alguma forma de num futuro próximo podermos ouvir um single que tem como protagonistas os filhos Chico, Tim e o pai Maurício?
    CB: Eu gostava. O meu pai lançou um disco há pouco tempo chamado “Outono no Sudeste”, onde nós os três – eu, o Tim e a minha irmã fizemos os coros desse disco. Depois no disco de apresentação cantamos todos essas músicas ao vivo.

    E gostaram da experiência de estarem unidos como família?
    CB: Foi uma experiência interessante, sim (risos)!

    Sobre o Brasil, Portugal tem estado atento às atualizações e do estado político do vosso país. Achas que esse panorama político atual influencia de alguma forma como o artista pode criar?
    CB: Com certeza. Como falou em influenciar concordo, se fosse incentivar já era outra questão. A influência que o governo atual tem e que cria dos artistas, e o  facto de não incentivarem a cultura, ter essa negação. É um governo que traz uma face conservadora e está mostrando isso cortando algumas coisas, quase a fazer coisas parecidas com a ditadura de 1964. Este (Bolsonaro) é um presidente que se mostra inspirado com o que aconteceu lá atrás. Por outro lado, isso gera resistência!  Se olharmos para trás, nos momentos em que os governos eram mais opressores, era também quando a arte mostrava mais destreza.

    Por outro lado, achas que há algum medo? Receio da repercussão de falar em temas políticos, por exemplo?
    CB: É. O meu disco fala até de temas mais introspetivos, então são colocadas como forma de resistência e protesto. Você pode ter pessoas da comunidade LGBT que podem usar a voz da música para protestar e reclamar os seus direitos, então isso já é uma forma de movimento muito forte. Por exemplo, quando Bolsonaro foi eleito, houve uma onda de ódio muito forte e as mulheres tiveram um medo grande de se pronunciar, mesmo sabendo que isso era o necessário. A abordagem contrária estava demasiado agressiva. Felizmente as coisas têm melhorado, pelo menos apaziguado nesse sentido.

    E já tens amigos teus que tenham emigrado do Brasil por não se reverem nesse sistema político?
    CB: Sim, um grande amigo meu foi para a Austrália. A casa dele foi assaltada de uma forma muito agressiva, que toda a família decidiu sair do Brasil. Cansaram-se do país e foram à procura de algo melhor. E quem sai é porque não está muito concordando com o que está a acontecer no país e essa insegurança faz as pessoas saírem do seu próprio país.

    Com 20 anos vais conhecendo muitos artistas, alguns até da tua geração ou da própria faculdade. Queres dar alguns nomes brasileiros que ainda não chegaram a Portugal mas merecem ser ouvidos?
    CB: Um nome que tá muito em destaque e é, também, uma amiga, é Ana Frango Eléctrico. Ela tem letras muito interessantes! E tem também outra amiga nossa chamada Sophia Chablau. Gosto muito desses pequenos artistas, como eu, que estão ligados a esta editora chamada Selo.

    E de artistas portugueses algumas referências?
    CB: Pelo meu irmão, fiquei a conhecer o Salvador Sobral e os Capitão Fausto com quem ele fez algumas sessões. Mais antigo, lembro-me de ouvir o Carlos Paredes, assim mais clássico – o meu pai tinha um disco dele. Mais recente lembro do fado da Ana Moura ou o pop da Márcia.

    E sobre o nosso Portugal, pediram-te ou recomendaram-te alguma coisa?
    CB: Dizem sempre para levar ginja. Falam para comer bacalhau e aproveitar toda a comida daqui.

    Chico Bernardes, tal como ele próprio
    Chico Bernardes, tal como ele próprio

    Grandes artistas brasileiros como a Mallu Magalhães ou o Cícero estão a viver em Portugal já há algum tempo. Era também um país onde te imaginavas a viver?
    CB: Tenho interesse, até já pensei nisso. E agora, ao estar aqui, e ver isto tudo tão lindo, até estou com ainda mais vontade de ficar. O Cícero vai estar a ver o meu show no Porto, curiosamente. Ele agora está vivendo lá.

    Por fim, o que o Chico se vê estar a fazer com 30 anos?
    CB: Além da música, tenho muito interesse em trabalhar em trilha sonora. Trabalhar, por exemplo, a sonoplastia de filmes. Às vezes a música independente pode não ser um sustento e a trilha parece ser uma coisa mais viável. Poder pegar e captar a sensibilidade do filme acho muito interessante.