Pedro Miguel: “Uma ideia que tenho dos anos 90 é uma série de punks ali em frente ao Filipes”


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Uma Cena ao Centro conta a história da música moderna da região centro pelos olhos de quem a viu de perto. Fomos conversar com o autor Pedro Miguel.

Pedro Miguel no antigo Orfeão de Leiria. Fotografias: Teresa Neto

TIL: Como é que um rapaz de Viseu chega a Leiria?
Pedro Miguel: Só nasci lá. Vim para Leiria em bebé.

TIL: O que estudou em Lisboa?
PM: Só fui lá fazer um ano. Entrei em Turismo mas depois desisti. Só mais tarde é que vim para cá tirar Comunicação Social, no Politécnico.

TIL: E como é que de Lisboa se chega a roadie dos Silence4?
PM: O meio é muito pequeno em Leiria. E continua a ser. E, para um rapaz como eu que ia habitualmente ver concertos, acho que ainda hoje isso acontece. Somos mais ou menos sempre os mesmos, então a malta conhece-se. Eu ia à Alquimia, estava lá pessoal da música, ia ao bar Opus, que o David Fonseca também frequentava, e tive uns amigos que formaram a banda Phase. Acabou por ser através deles que cheguei aos Silence4, no momento em que eles ficam com o mesmo manager. Começo a trabalhar mais com os Phase mas, como os Silence4 tinham mais concertos, o manager chama-me para trabalhar com os próprios Silence4.

TIL: Também teve uma banda, os This is a Morphine Trip…
PM: Sim, demos dois concertos. Tocava aspirador e teclados. Fazia ruídos. Tinha uma guitarra, depois aspirador e uns amigos meus tinham uns decks de cassetes para samplar, onde usávamos também uns bidons. Era uma banda muito experimental, muito ruidosa.

TIL: Neste livro, conta essa experiência como músico ou como espectador?
PM: Como espectador. Era frequentador assíduo dos concertos, sempre ali na minha. Muito cá atrás, mas sempre a observar. Era um rapaz muito calminho mas ia e sempre gostei de música. É um livro escrito sempre na ótica do observador. Pego muito nos depoimentos do arquivo do Jornal de Leiria e também em algumas coisas mais recentes da Preguiça Magazine, como por exemplo entrevistas que os meus colegas fizeram a bandas como os Silence4, que voltaram entretanto. Até de outras bandas, da Marinha Grande, que voltaram nos anos 2000. E deu para fazer entrevistas, pedindo autorização aos meus colegas e utilizando algum dos trabalhos para contextualizar e descrever como era. Porque isto foi há vinte anos, não foi há cem. Ou seja, as pessoas ainda cá estão, quase todos de boa saúde e lúcidos. Achei giro retratá-los como era há vinte anos e confrontá-los com o agora.

TIL: As pessoas eram muito diferentes?
PM: Não, antes pelo contrário. Há muitas coisas iguais. A ler textos que estão no Jornal de Leiria parece que podia ser agora: as mesmas preocupações, o problema da cultura que nem sempre é apoiada. Passados todos estes anos, a conversa é mais ou menos a mesma.

TIL: Mesmo num momento em que Leiria é considerada para Capital Europeia da Cultura,  a falta de apoio à cultura continua a ser um problema?
PM: Eu acho interessante esta coisa da Capital Europeia da Cultura porque as pessoas que a lançaram são as próprias que não acreditam que exista material suficiente e bom. Os privados e as associações já provaram que conseguem fazer coisas acontecer. As próprias instituições desconfiam disto tudo. Não há um apoio aberto e, portanto, acho que isto está torto desde que nasceu. As pessoas que estão a dinamizar esse projeto são as que não acreditam por aí além, ou pelo menos não demonstraram acreditar, nos projetos que existem. Mas estou curioso também, como todos nós… É a mesma coisa que alguém querer ser, sei lá, piloto de automóveis sem ter a carta de condução: se não tens as skills necessárias não sei porque é que te vais meter nisso. Mas, vamos ver.

TIL: O Hugo Ferreira, da Omnichord Records, é uma grande força de dinamização. Quem é que, naquela altura, se esforçava para que as coisas acontecessem?
PM: Era o Lima! Antonio Lima, será? Era um senhor que chegou a ter uma editora chamada Nova Independência e ele fazia coletâneas. Gravou as bandas todas daqui da altura! Era algo que movia as bandas: ter um CD na compilação dessa Nova Independência. Eu não sei o que é que ele faz hoje mas, na altura, era um senhor de Pombal que organizava concertos e concursos de bandas. Tinha os meios para isso e gravava as bandas que depois integravam as coletâneas que a Nova Independência lançava. A compilação um, dois, três e por aí adiante. Além de alguns privados que também organizavam concertos. Tínhamos, em Alcobaça, um bar lá no centro, que era o Bar Ben que já não existe, e que ficou conhecido a nível nacional porque organizava o concurso de Música Moderna. Passaram lá bandas como os Blasted Mechanism, na altura ainda desconhecidos, os Ska. Numa certa altura, os The Gift, ainda no começo, ficaram em segundo para uma banda aqui de Leiria de thrash metal. Na parte do metal tínhamos o Adriano Pedrosa que também tinha um programa de rádio sobre metal. Trouxe à Marinha Grande os brasileiros Ratos do Porão. Na altura ter uma banda estrangeira foi algo fora do normal. Já os punks eram mais autónomos: organizavam os próprios concertos. Com toda esta junção as coisas aconteciam.

“Eu acho interessante esta coisa da Capital Europeia da Cultura porque as pessoas que a lançaram são as próprias que não acreditam que exista material suficiente e bom”

 

TIL: O distrito de Leiria tem muita força e muita abrangência de estilos. Na Marinha Grande, os estilos que têm mais influência são o metal e o rap.
PM: Isso é a cena da contestação. É o tecido social que molda. Mas, na altura, havia uma coisa ainda mais interessante: em Leiria, cidade, não havia quase nada! O pessoal tocava era nas freguesias à volta: Moinhos de Carvide, Juncal, Barosa… e isto acontecia porque não havia abertura. Hoje em dia é muito mais fácil chegar à Câmara Municipal. Na altura era muito mais complicado, mais burocrático. As pessoas eram muito mais emproadas. Então, como o pessoal que queria organizar coisas não conseguia falar com ninguém, ia para as sedes dos clubes recreativos aqui à volta e eram bem recebidos. Uma coisa gera a outra e o circuito fica por aí, inevitavelmente. Ninguém é masoquista! Se não consigo aqui vou onde me tratam bem.

TIL: Os Nice Weather For Ducks também começaram a dar os concertos em sedes.
PM: Sim, eles são ali da zona da Carreira. Porque aqui na cidade tínhamos o Alibi, que já morreu, mas que nos anos 90, ao sábado à noite, passava rock. Mais tarde, já com o Carlos Matos, existia a Stormzone, ali atrás do Continente. Era às sextas-feiras. Faziam umas noites chamadas Stormezone em 19981999. Já o Alibi foi em 94, 95 e 96. No Stormzone passava Joy Division e essas cenas todas. Na altura era muito fixe e era um clube de rock numa cidade onde não havia concertos. Aquela era a única safa, era como que um oásis. Ali no Terreiro era onde estavam os bares todos concentrados. O pessoal juntava-se muito ali em frente aos Filipes. Uma ideia que eu tenho dos anos 90 é uma série de punks ali em frente aos Filipes Bar, era onde a malta se juntava mas, no que tocava a concertos, era mais nos arredores. Tivemos também o Lado de Lá, um bar na praia da Vieira. Mesmo na praia e onde se faziam alguns concertos. O próprio dono do Anúbis ainda de hoje, que é o Mário Brilhante,  começou por ter um bar ali para os lados de Monte Redondo. Só depois é que veio para Leiria. Portanto, isto começou tudo nos arredores

TIL: Ou seja, o panorama ainda mudou bastante…
PM: Sim, agora já temos concertos no Teatro Miguel Franco ou no Teatro José Lúcio da Silva. Até foi notícia no jornal: os The Gift foram a primeira banda da região a actuar no José Lúcio. Lembro-me de escreverem na altura que era uma vergonha só em 1999 é que a primeira banda da região tocou naquela que é a nossa principal sala de espetáculos. Eram outros tempos, é verdade. A Câmara era mais fechada nessa altura. A título de exemplo, o Entremuralhas, que hoje é uma parceria entre a Fade In e a Câmara, seria impensável acontecer há vinte anos.

TIL: Mas, mesmo assim, ainda não existe tanta abertura como se pensa…
PM: Sim, ainda existe muito conservadorismo. A bronca que aconteceu com o espetáculo do Extramuralhas na igreja é um exemplo mas, há uns anos, era pior. Há uns não se tocava na cidade. Ponto, acabou. A ideia era: “estes gajos vêm para aqui estragar tudo!”. Não sei o que pensavam as pessoas das freguesias sobre isso mas, de facto, proporcionou-se às sedes e aos clubes recreativos abrirem portas a esse tipo de coisas: concertos de metal, punk… depois foi uma bola de neve. Ainda hoje se fala nos Moinhos de Carvide. Eu associo sempre Moinhos de Carvide ao metal porque era lá um festival de metal, que se prolongou durante uns anos. Era lá e no Juncal: o Juncal Outrage. Na Caranguejeira também existia um bar onde se faziam uns concursos, umas matinés. O Alibi também chegou a ter assim umas matinés com concertos. A Marinha Grande também chegou a ter: no Operário, no Império Marinhense, no clube da Embra e no Casal Galego. De vez em quando também havia lá umas punkalhadas. Mas pronto, na altura, em Leiria, cidade capital de distrito, era complicado.

TIL: Uma iniciativa como o Há Música na Cidade era impensável?
PM: Sim. Mas os meios também são outros. Quer queiramos quer não, as pessoas mudaram. Não estou a falar do partido A ou B. O facto é que a sociedade mudou e era só o que faltava ficarmos agarrados aos outros tempos. Até a tecnologia mudou e isso ajudou: os equipamentos de som ficaram mais baratos. Porque, na altura, alugar um equipamento de som e luz para um concerto, ficava super caro. Agora também não é barato, mas é mais barato do que na altura. Tudo isso mudou, não foram só as pessoas.

TIL: Uma pessoa daqui quer ver e absorver, mas também mostrar?
PM: Sim. A cultura sempre foi uma arma de arremesso, porque fica bem apoiar mas ao mesmo tempo não se apoia assim tanto como se diz. Sempre foi um território bastante disputado pela política. Sempre assim foi e sempre será, porque fica bem. Fica bem apoiar a cultura, mas quando é para ser a sério, o pessoal já fica mais relutante. Mas isso é aqui e em todo o lado. Vemos isso no orçamento de Estado. Estão uns zero vírgula qualquer coisa para a cultura. Lembro-me de uma pessoa, que agora não está muito nas graças, o ex-ministro [Manuel Maria] Carrilho. Na altura teve um dinheiro a mais para investir e renovou teatros pelo País com uma série de equipamentos e isso foi muito importante. Isso quer dizer que, com um pouco mais de investimento…  não a fundo perdido, porque dinheiro gera dinheiro e já se provou que se é capaz de fazer isso, mas continua a não haver vontade política.

TIL: Isso vai na ideia da mentalidade dos punks: “se queres, faz, mostra”. Continuamos a ser todos um bocadinho punks?
PM: Sim, ao fim ao cabo, seja hip-hop ou outro estilo, somos todos um bocadinho punks, ainda naquela ideia do do it yourself. Na altura era igual. Na altura essa era a única maneira. Só depois dos Silence4 rebentarem é que a Câmara começou a olhar com outros olhos e a ter uma abertura maior. Só depois de as coisas estarem feitas, porque o caminho foi desbravado muito pelos próprios. E também dava mais gozo, porque era mais difícil, a conquista era maior.

TIL: Voltando ao livro, qual foi a maior motivação para escrever?
PM: Com esta nova vaga da Surma, dos First Breath After Coma, dos Nice Weather For Ducks, achei por bem mostrar como é que foi a primeira. Já foi mas não foi assim há tanto tempo, o pessoal ainda aí anda, de boa saúde, lúcidos e alguns deles que pertenceram à primeira vaga continuam hoje ligados ao ramo. O Carlos Matos, e também o Hugo [Ferreira], eram um bocado como eu, também iam a concertos. Mesmo na Fade In há o [Luís] Lacerda que também fez parte dos Paranóia, a tal banda que ganhou aos The Gift, na altura. Portanto, o pessoal continua a andar por aí, outros nem tanto porque seguiram outros caminhos, uns emigraram e assim. O rapaz que me paginou o livro, o João Diogo, fazia parte dos Dramafall, uma banda muito importante do metal, portanto alguma da malta conseguiu, de alguma forma, continuar ligada às atividades recreativas. E foi uma época que marcou uma geração que ainda hoje tem expressão através, por exemplo, da Fade In. Na altura não havia Facebook nem a internet como existe hoje. Então, quis fazer um registo.

TIL: Que conselhos deixa a quem está a fazer o que o Pedro e outros fizeram na altura?
PM: Façam mais pressão. O que eu vejo nesta segunda vaga é que há pessoas muito talentosas, mas muito viradas para si próprias. Os First Breath After Coma têm a Casota Collective, que fazem um belíssimo trabalho. Mas o que eu vejo é que a maior parte das pessoas não se quer chatear. Podiam usar desse estatuto que têm e envolverem-se mais em determinadas lutas, nomeadamente, a esta coisa da Capital Europeia da Cultura e a esta coisa da censura que foi feita ao Extramuralhas e à Fade In. Podiam falar mais, envolver-se mais na nossa comunidade, porque os políticos ligam muito à má publicidade, ligam mesmo, e ficam preocupados. E se forem pessoas de agora, com alguma visibilidade, que até vão às televisões e falam nas rádios nacionais, se eles [os políticos] virem que essa malta anda a falar mal de Leiria, eles mudam e passam a ver as coisas de outra maneira. Porque só acusam o toque quando são pressionados e acho que esta geração mais nova devia pressionar mais. Têm feito um excelente trabalho mas faz falta uma intervenção cívica mais vincada. É este o conselho que deixo às gerações mais novas.