Enola Holmes – Quem disse que não podíamos fazer parte da família Holmes?


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Quando eu acho que a Netflix já não consegue surpreender-me, coloca a Millie Bobby Brown na frente do ecrã e a falar diretamente para mim (vá, para todos nós)!

E deixem-me começar por aqui e por aquilo que considero ser de longe o melhor de Enola Holmes: Millie Bobby Brown já não é Eleven de Stranger Things.

Eu sou daquele grupo que, desde a primeira vez que viu Millie em Stranger Things, acreditou que ela iria tornar-se numa estrela. E sem querer meter as minhas mãos no fogo, acho que está no ótimo caminho. É que, até aqui, não conseguia tirar Eleven da cabeça sempre que via a Millie no ecrã. E apesar de achar que faz um belíssimo trabalho em Stranger Things, para mim não chega para a considerar uma boa atriz, porque pode ser só uma personagem que encaixa bem nela.

Mas agora, já não tenho muito medo de me queimar. Se antes havia dúvidas, em Enola Holmes deixam de existir. A atriz de 16 anos provou-me ter uma incrível versatilidade e uma capacidade de alcance emocional extremamente competente! Para além disso, nota-se perfeitamente o seu crescimento numa atuação mais madura, confiante e divertida. Está no ponto! Não há melhor maneira possível para descrever Millie como Enola.

 

A segunda coisa que mais gostei do filme e que ajudou bastante no trabalho de Millie, foi o facto de não existir uma parede que nos separa da personagem principal, ou seja, uma quarta parede. Passo a explicar:

Nós, espectadores, estamos do lado de fora do ecrã apenas para ver as histórias das personagens, certo? Certo. Somos um elemento exterior que existe apenas para reagir ao que está a acontecer, como se fossemos o vizinho cusco que se põe à janela para ouvir as discussões do casal ao lado.

Mas em Enola Holmes, a personagem principal fala para nós. Sim, as aventuras começam e no meio de algumas delas, Enola reage e comenta connosco tudo o que está a acontecer.

A inexistência desta parede, se for muito bem aproveitada, dá-nos instantaneamente a sensação de que estamos a fazer parte do filme. E não sei quanto aos espectadores que viram o filme, mas eu sinto que fui tanto personagem principal como foi Millie! Senti-me outra irmã de Sherlock.

E também não é uma novidade para o realizador Harry Bradbeer. Foi o realizador da série Fleabag, vencedora de Emmy em 2019 (e totalmente recomendada!!), onde também utilizou esta técnica de aproximação da personagem ao público. Não, não foi ele que criou, mas admito que foi com ele que conheci e acho que foi ele quem popularizou.

Há uma cena maravilhosa, logo nos primeiros minutos do filme, em que vemos Enola na bicicleta a caminho de casa e a contar-nos quem é. Não nos conta só sobre ela, também nos fala da mãe, Eudoria Holmes, interpretada por Helena Bonham Carter e os irmãos Sherlock e Mycroft Holmes, trazidos por Henry Cavill e Sam Claflin.

Com todo este entusiamo ainda nem vos contei um pouco sobre o filme. Lamento, mas quando há aspetos muito bons devem ser logo mencionados. E a verdade é que não há muito que possa ser dito sobre o que vais ver no filme. Se viste o trailer estás bem preparado. Se não, cá vão uns pequenos parágrafos para te abrir o apetite:

Enola é a irmã mais nova de Mycroft Holmes e Sherlock Holmes (o investigador privado mais conhecido do mundo? Exatamente!), que mora com a mãe Eudoria. Cresceu só na companhia da mãe e foi ela que a educou em casa. Foi criada cercada de livros, mas com tempo para aulas de lutas marciais e experiências químicas.

Até que, um dia, Enola acorda e não encontra a mãe. Eudoria desapareceu e Enola passa a ser responsabilidade dos irmãos. A decisão deles foi colocar Enola num colégio interno liderado pela diretora Harrison (brilhantemente interpretada por Fiona Shaw), para que aprendesse a ser uma mulher educado e com postura. Bem, a decisão foi só do irmão mais velho, Mycroft, que é bastante arrogante. Restou o irmão do meio, Sherlock, que ficou encarregue de descobrir a mãe deles.

Bom, obviamente, não é nada disto que acontece. Enola foge e segue a sua nova aventura para encontrar a mãe. No meio dessa descoberta, conhece algumas pessoas que vão mudar a sua trajetória e influenciar aquela que seria a única e principal missão.

Com isto, temos também direito a uma boa clássica história de amor entre dois jovens corajosos destinados a mudar o mundo. Sim, Enola apaixona-se. É dos maiores clichés desta história, mas vá, são os dois fofinhos!

Harry Bradbeer e Jack Thorne trazem um argumento refrescante das histórias do famoso Sherlock Holmes, que até aqui estava habituado a ser o foco principal. A cinematografia de Giles Nuttgens em conjunto com a banda sonora de Daniel Pemberton contribuem para inúmeras cenas inesquecíveis e divertidas que ajudam Millie na tarefa de nos cativar, enquanto a acompanhamos num diálogo de análise a tudo o que acontece.

O ponto menos positivo, diria ser o argumento. Ok, é refrescante porque é uma nova perspetiva e uma nova personagem principal, mas é um argumento baseado no livro de Nancy Springer e precisava de construir um mistério maior em torno do grande caso.

Faltou construção de mistério e surpresa. Já não é fácil ser original na história, agora temos mais exemplos de originais a contar uma história. Mas estamos a falar do calibre de Sherlock Holmes, para mim faltou inteligência.

Em suma, Millie Bobby Brown parece que nasceu para ser Enola Holmes e eu estou a torcer por uma segunda parte. Sinto que a história tem muito mais para contar. Não há uma conclusão, aliás, há várias pontas que podem evoluir numa outra aventura de Enola.

Mas vou ser sincera, mesmo que existisse uma conclusão no final deste filme, tenho a certeza que já se considera uma segunda parte. Funcionou tão bem, era uma pena não existir mais!

Classificação TIL: 7/10

 

Texto: Sofia Correia