Crítica: Afinal quantas histórias existem em “O Irlandês”?


Martin Scorsese parte do filme de gangsters para nos falar de mortalidade, arrependimento e do impacto das escolhas erradas no futuro das personagens.

“O Irlandês” é um épico sobre o submundo da máfia, com três horas e meia de duração, uma improbabilidade nesta era em que o espectro de atenção da maioria das pessoas se encurtou, devido ao excesso de hiperligações e redes sociais. E até já se publicaram artigos sobre como dividir o último filme de Martin Scorsese para ser visto como uma mini-série.

Além disso, um filme sobre mafiosos, pode parecer fora de moda, uma obra que não se estranharia ter “saído” nas três últimas décadas do século XX, quando Coppola, Leone ou o próprio Scorsese estavam a realizar os títulos que definiram este género. Mas com a sua temática alargada, que aborda questões como a história dos Estados Unidos entre os anos 40 e 80, as relações do poder político e sindical com o submundo do crime, e temas como a mortalidade, o arrependimento e a culpa, acaba por se revelar uma nova abordagem a este género de cinema.

A personagem que dá título ao filme é Frank Sheeran (Robert DeNiro), um criminoso reformado que vive num lar de idosos e nos conta a sua história na primeira pessoa, através de flashbacks. Com a idade, Frank parece ter descoberto a sua consciência, que lhe começa a pesar com questões morais. Pede às enfermeiras que não lhe fechem a porta do quarto, pois tem medo de morrer sozinho e quando fala do seu funeral, diz que prefere ser cremado “porque é menos definitivo”. Há quem diga que o único animal com consciência da sua própria mortalidade é o ser humano e Sheeran tem um especial conhecimento sobre o assunto, visto que se especializou no departamento de homicídio durante a sua carreira como membro da máfia de Filadélfia.

Frank é um veterano do exército americano que na Segunda Guerra Mundial ganhou um especial gosto por matar.  Quando acaba a sua comissão, regressa a Filadélfia para trabalhar como camionista. É então que  conhece Russell Bufalino (Joe Pesci), o chefe da máfia da cidade, que o convida para fazer pequenos trabalhos, rapidamente passando de mero “empregado” a protegido do patrão.

É a partir desta altura que as personagens do filme passam a ser apresentadas através de legendas do tipo: “Phil Testa – assassinado por uma bomba de pregos colocada debaixo da sua varanda”, documentando a ascensão de Frank no submundo do crime, que culmina no convite de Bufalino para ser guarda-costas de Jimmy Hoffa (Al Pacino), o presidente do sindicato dos camionistas americanos.

Hoffa era uma das pessoas mais importantes dos Estados Unidos durante os anos 50 e 60, altura em que os camionistas, através de sucessivas greves, conseguiram “parar” o país mais de uma vez e o “polvo” da máfia abraçava sindicatos e políticos com a mesma força com que era retribuído. É nesta teia de promiscuidade que vamos assistindo ao desenvolvimento de uma relação de amizade entre Frank e Hoffa, ao mesmo tempo que acompanhamos a eleição de John Kennedy com o apoio da Cosa Nostra, ou à tentativa de invasão de Cuba pelos Estados Unidos a partir de Miami, com armas entregues por Frank.

De Niro está muito bem no seu retrato de um gangster que aceita ordens com estoicismo, alguém com personalidade psicopata que raramente levanta a voz e frequentemente gagueja, servindo de ótimo contraponto à personagem de Al Pacino, um sindicalista intempestivo a quem o poder subiu à cabeça. Mas possivelmente a melhor interpretação do filme é de Joe Pesci, que um insistente Scorsese convenceu a representar dez anos após o seu último trabalho, interpretando um chefe da máfia discreto, que gere uma organização homicida com a tranquilidade e a leveza de alguém que trabalha numa florista. Outra personagem que merece destaque é Peggy Sheeran (Anna Paquin), a filha de Frank que viu demasiado, conhece os segredos do pai e quase não fala durante o filme; a sua presença representa a consciência e moral do progenitor, que questiona com os seus olhos confrontativos e interrogadores.

Muito se tem falado sobre as técnicas de rejuvenescimento através de manipulação digital do elenco de “O Irlandês” e a verdade é que se pode tornar confuso ver DeNiro, que tem 76 anos, interpretar o Frank Sheeran trintão do início do filme, além de ser notória a linguagem corporal e falta de destreza do trio de atores principais nos trechos de juventude das suas personagens. Mas estes pormenores não tiram valor ao elenco e uma solução que passasse por encontrar substitutos mais jovens para metade do filme, criaria o mesmo “ruído”. Além disso, dá gosto voltar a ver Pacino, DeNiro e Joe Pesci de volta a papéis fortes.

“O Irlandês” é um filme de gangsters atípico, incomparável com outros filmes que Scorsese tenha feito sobre este “meio”. Em “Tudo Bons Rapazes”, por exemplo, Joe Pesci interpretava o intempestivo e nervoso Tommy DeVito; e é curioso como o tom de cada filme transparece para ambas as personagens interpretadas por Pesci – “Tudo Bons Rapazes” é um filme a jato, com uma cadência infernal, enquanto “O Irlandês” é uma reflexão por vezes melancólica sobre escolhas, arrependimento, lealdade e sobre o fato de não conseguirmos fugir à morte. Quem melhor do que um trio de atores septuagenários para interpretar esta história?

Classificação Til – 7,5/10

Fotografias/Vídeo: DR