Crítica: Terra Franca – Uma etnografia contemporânea


Crítica do realizador Bruno Carnide

Gosto de ver um filme a saber pouco ou nada sobre ele. Com “Terra Franca” sabia que falava sobre um pescador do Tejo e tinha visto um pequeno teaser, há uns meses, que nada acrescentava ao que pudesse desvendar do filme.

Podia, então, dizer que estava apto para ver o filme como gosto. E, assim, fui para o Cinema City de Leiria.

Da realizadora, Leonor Teles, conhecia as curtas, aliás passaram por cá todas no Leiria Film Fest, e estava curioso para perceber se a mesma linguagem se aguentava 80 minutos em “Terra Franca”, ou se iria mudar algo.

E mudou tudo. Desde logo a história deixou de se focar nas vivências da realizadora – não que não esteja de certa forma ligada a ela – mas já não aborda temas que lhe são directamente pessoais e aí vemos uma grande mudança. Leonor Teles deixa de ser um personagem presente no filme, como acontecia nas curtas, e passa a ser apenas o espectador, o olho, a câmara, o silêncio.

O filme começa lento, mas a cada minuto vai agarrando o espectador. A família Lobo, da qual retrata o filme, ganha-nos a confiança e vai-se abrindo cada vez mais a cada estação que passa. Os seus medos e frustrações são-nos expostos como se fizéssemos parte deles, como se fossemos mais um dos Lobo, até que no final somos, finalmente, convidados a fazer parte daquela família, num momento que lhes toca e que os faz voltar à tranquilidade.

Terra Franca é um bom documentário, mas será um ainda melhor documento etnográfico daqui a alguns anos. Urge registar a vida de hoje, que parece tão efémera como um “story”. Urge reflectir sobre isso, e valha-nos a Leonor, e mais alguns, claro, que volta e meia nos brindam com estes verdadeiros documentos históricos da vida moderna.

 

Classificação: 7/10

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