Salvador Martinha: “Não sei se hoje em dia o meu tipo de stand-up é para toda a família”


Estivemos à conversa com o humorista Salvador Martinha, depois do seu show em Alcobaça. Ele que segue em altas nesta temporada 2018/2019 com o seu novo solo Cabeça Ausente (atua em Leiria e Caldas da Rainha ainda este ano). Falou-nos do seu défice de atenção, a evolução do humor e alguns dos projetos pessoais.

 

Porquê o nome Cabeça Ausente para o teu espetáculo? Surgiu naturalmente ou tem um pouco a ver com a tua própria distração?

Sim, eu sempre fui distraído e está relacionada com isso. Há ideias que já me acompanham há algum tempo. Por exemplo: o “Défice de Atenção” (nome do antigo solo de stand-up) era uma delas. Tive no outro dia no psicólogo e ele disse-me que eu tinha défice de atenção, o que é natural porque tenho muita dificuldade em concentrar-me. A questão é que quando estou distraído, eu não estou a pensar em branco.  No fundo este espetáculo é aquilo que eu estou a pensar quando aparentemente estou distraído.

 

Que acontece também quando estás a comunicar diretamente com o teu público…

Acontece, claro. Fui pesquisar o termo “Défice de Atenção” no Google, fui dar a um site brasileiro, que dizia que o significado era “Cabeça de Viajante”. Depois decidi alterar o “viajante” pelo “ausente” porque muitas pessoas dizem que eu sou muito ausente, que é uma característica minha. Pessoas diferentes que nem se conhecem entre si, dizem várias vezes que eu sou ausente.

 

Ausente mas tens estado em todo o lado com este teu solo.  Depois deste espetáculo em Alcobaça, ainda vais a mais dois locais do distrito (Leiria e Caldas da Rainha). Corrige-me se estiver enganado: fizeste todas as tours nestas cidades, certo?

Leiria e Caldas da Rainha sempre. Alcobaça é que com esta foi apenas a segunda vez.

 

E sentes alguma diferença deste público do Oeste e centro do país?

Em relação ao Oeste, acho Caldas e Alcobaça um bom público. Por exemplo, ainda hoje (dia 15 dezembro) trouxe alguns temas arrojados e não houve um “eiiiiii” de quem ficasse ou se sentisse minimamente ofendido.

 

Mas já sentiste isso em outros pontos do país? 

O público do Norte é naturalmente mais solto. Mas, sinceramente, acho que cada vez mais o público está a ficar mais “à Norte”. E também cabe ao humorista transformar um público bom, depende sempre de ti. Nunca digo que o espetáculo correu mal por causa do público. Posso, no máximo, dizer que “hoje o público não estava forte”. Nada mais que isso…

Salvador Martinha é um dos expoentes máximos do humor em Portugal

Senti, durante o teu espetáculo, que as pessoas que vêm propositadamente aqui não estão viradas para as cedências do politicamente correto. Concordas?

Claro! Tu ao pagares bilhete já vens com essa predisposição. Não dizes: “Vou pagar 12 euros para não me rir”. Eu acho que as pessoas sabem ao que vêm, isso é a vantagem de seres comediante há algum tempo. As pessoas conhecem e já sabem que vêm rir.

 

E sentes que o teu próprio stand-up também evoluiu com isso?

Este espetáculo é um bocado diferente dos outros, é mais denso. Os temas são diferentes. Não sei se hoje em dia este tipo de stand-up é para toda a família. Se colocares o meu texto a um humorista mais pesado, se calhar as pessoas vão achar as piadas mais pesadas, também.  Eu tenho esta cara meio fofinha e às vezes digo as piadas e “AHAH” (na minha cabeça). Ninguém riu mas lancei a “bojarda”! Gosto de estar nesse limite.

 

Pois, agora o teu espetáculo até é para +16…

Sim, exatamente esta questão que te falei. Mas trazias um miúdo de 14? Depende sempre mas provavelmente também conseguiria assimilar estas piadas.

 

O que achaste do Prós e Contras sobre os Limites do Humor. Tens alguma opinião sobre o tema?

Se agora estivesse na rádio colocava uma música por cima. Para mim é um tema repetido. Por exemplo, se eu de comboio todos os dias para chegar ao trabalho, não me convidem para andar de comboio. É por aí! Acho que os humoristas verdadeiros têm todos a mesma opinião. Não gosto de crescer do meu trabalho à conta de polémicas, entrevistas, etc. Prefiro genuinamente conquistar as 200 pessoas que estavam aqui hoje, do que 8000 no Prós e Contras por uma coisa que eu digo todos os dias. Não quero esse doping!

 

Preferes ter o teu espaço para dizer as coisas à tua maneira, não é? Foi também por isso que criaste o teu podcast “Ar Livre”?

Sim, exatamente. Essa é a minha verdadeira resposta! Viste a quantidade de pessoas em Alcobaça que conheciam o podcast? Para aí 25%, é uma boa fatia. Quanto ao podcast é algo que eu gosto muito de fazer. O que me custa mais é a regularidade. E não me importo de o fazer gratuitamente até porque é o que costumo dizer: se a malta não vem aos meus espetáculos, eu não preciso de patrocínios. Só me quero preocupar em fazer mais e melhor! Agora aquilo tem a sua limitação que também é a sua maior força: como não tem imagem acaba por ser a limitação para crescer mas no fundo também é a grande força do podcast.

 

Li que também vais voltar com o teu programa de youtube “Sou Menino Para Ir”…

Sim, vamos para a Fox Comedy. Digam às pessoas para lançarem desafios. Aliás, que a própria TIL lance um desafio. Quem sabe se ainda não apareço por cá.