Crítica: Bohemian Rhapsody é um ‘a kind of magic’. O lado mais mágico da vida de Freddie


Um confesso fã de Queen foi assistir à estreia do filme Bohemian Rhapsody. Foi com altas expectativas. Não saiu desapontado mas também não lhe preencheu totalmente as medidas.

Desde que me lembro da minha existência, julgo nunca ter estado tão entusiasmado com a estreia de um filme. Pudera! Há anos que se imaginava um filme sobre os Queen, sobre Freddie Mercury, mas tal nunca tinha passado disso mesmo: imaginação. Mas, finalmente, com dez anos de análises, e com o esforço feito da produção executiva de Brian May (guitarrista  da banda), saiu do papel para a tela.

Bohemian Rhapsody retrata a história e o lado musical dos Queen, focando-se no seu principal e mais vistoso membro: Freddie Mercury.
Ele é interpretado por Rami Malek (Mr. Robot). Ainda com os seus bem guardados 37 anos, o ator tinha aqui, muito provavelmente, o papel mais importante da carreira. E não desiludiu. Durante as mais de duas horas de filme, Malek abraça a “persona” de Mercury, copia-lhe os movimentos, emprega-lhe a mesma performance ao piano. O jeito está todo lá, vê-se algumas vezes que foi mais treinado do que natural, mas também por isso temos de lhe dar o mérito, já que Freddie Mercury era uma pessoa tão singular.

Quanto aos outros membros da banda, todos os atores escolhidos estão claramente parecidos (Rami Malek acaba mesmo por ser o menos fisicamente idêntico ao original). Mas, sinceramente, era escusado dar tanta relevância às qualificações dos músicos (duas vezes faladas) onde se vê a milhas o dedinho da produção.

Uma das cenas icónicas da película está diretamente direcionada com o título do filme. Isto aquando os Queen, acabados de gravar o segundo álbum, debatem com o produtor musical qual deveria ser o single. Todos os membros votam Bohemian Rhapsody, argumentando que a mistura experimental de rock e ópera daquela música será um hit, além de uma obra-prima. O produtor musical não aceita e diz que uma música de seis minutos nunca fará sucesso nem poderá entrar numa rádio nacional. Apesar de não ter sido aceite, no fim descobrimos que essa insistência da banda deu ao público, mais tarde, uma das músicas mais consagradas da história.

De invejar também a qualidade de som. A música era o ponto mais fácil, não fossem os Queen uma banda com duas dezenas de hits (as cenas da criação e produção das músicas nos estúdios também são de destacar!). Vê-se perfeitamente que houve trabalho redobrado na edição, misturando a voz de Malek aos grandes (e únicos!) agudos de Freddie Mercury. A atuação no espetáculo Live Aid também fica na memória, com todo aquele uníssono incrível dos 100 mil espectadores em Wembley, que agita até o mais calmo. Fica a ideia que também estamos dentro daquele espetáculo, que voltamos mais de 30 anos atrás.

O guarda-roupa também merece um breve comentário (e também ele muito positivo). Ali estavam todas as roupas boémias de Freddie Mercury ao longo do tempo, o belo bigode e tudo mais. Essa recriação ficou impecável e até as vestes evoluem em escala, exatamente aos estilos que se usavam dos anos 70 para os anos 80.

Principal problema do filme: a modestidade. Seria impossível fazer uma versão mais clean deste Freddie Mercury. É do conhecimento público, há já vários anos, o historial de sexo e drogas relacionado com o cantor. Esse lado mais negro do artista é replicado apenas em pequenos frames de garrafas vazias em cima do piano, linhas de cocaína deixadas em cima da mesa ou a voz mais rouca. Nada mais do que isso. As próprias cenas de sexo, que acabam por estar, e muito, relacionadas com a morte (causada pela SIDA) são inexistentes no filme. Tudo bem que há cenas de beijos homossexuais, algumas festividades em sua casa mas nunca nada de concreto. Os membros da banda parecem ter feito um esforço atento para dar ao espectador o lado bom da estrela Mercury. Provavelmente foi por isto que Sasha Baron Cohen (Ali G, Borat), o primeiro escolhido para o papel, entrou em divergências criativas com Brian May e acabou por deixar o lugar para Rami Malek.

Bohemian Rhapsody tem cenas intensas que deveriam ser sobre a vida privada de Freddie Mercury. Mas o verdadeiro sabor está na música, nos espetáculos, na interpretação, no a kind of magic no palco. E também não há mal nenhum nisso. Bom para quem quer conhecer a banda através do filme, menos bom para quem é fã assíduo do artista e conhece detalhadamente a sua história.

Classificação TIL: 8/10