Me and My Brain: “Temos de estar ali no limite da pressão para fazer. Somos portugueses.”


Nuno Dionísio (Twin Transistors) e Rui Seiça são os Me and My Brain. O dinamic duo já se conhece há muitos anos e desde cedo que tocam juntos, mas só recentemente criaram os Me and My Brain.

É na zona de Reixida que encontramos o local de ensaios dos Me and My Brain, numa junção de esforços de várias bandas da zona. O encontro com a dupla estava marcado para as 21h, chegámos pouco depois mas ainda antes de Rui e Nuno, com os trabalhos diários que se prolongaram. Depois dos cumprimentos entrámos para a sala de ensaios da dupla, arranjada e decorada pelos próprios com umas mesas que suportavam uns korgs, uma caixa de ritmos, um PA e outros apetrechos.

Nuno Dionísio (esquerda) Rui Seiça (direita)

 

Como é que vocês se conheceram e chegaram a este duo?

Rui Seiça: Já somos amigos há bué.

Nuno Dionísio: Sim, há muito que tocamos juntos naquela do lazer de fins de dia, de desbundar no fim de semana, juntar uma série de amigos e levar uma porrada de instrumentos não sei para onde, não sei quantos quilómetros para montar o que quer que seja. Depois chegámos a uma conclusão: se calhar estávamos mais perto de fazer coisas do que continuar numa desbunda desenfreada que nunca mais acaba, uma coisa infinita.

 

E como é que se chega a esse ponto de “já chega de divagar, vamos pegar nisto e produzir algo concreto”?

RS: Pegámos pela simplificação. No momento em que estávamos era mais fácil sermos dois do que cinco, se calhar.

ND: Antes tocávamos com bué pessoas, não aquelas todas que gostávamos de ter tocado mas tocámos com algumas pessoas. Com as falhas e com as vitórias, uma pessoa tira sempre aprendizagens mas também começa a perceber com quem é que consegue trabalhar melhor e onde é que a comunicação é mais fácil ou mais difícil. É um bocado por aí. Mas sem saber muito bem com quem é que poderemos vir a tocar. (Risos)

 

E o vosso nome? De onde surge o nome Me and My Brain?

ND: Nós fomos motivados a juntar-nos  e a fazer alguma coisa pelo Guilherme Garrido, para tocar n’A Porta, e como aquilo foi tudo muito rápido, de repente tivemos de fazer algumas músicas.

RS: Quando aceitámos ainda nem sequer tocávamos juntos nem estávamos com muito tempo.

ND: (Risos) Juntamo-nos duas ou três vezes, sacámos umas gravações de iPhone e, quando as mostrámos, ele [Guilherme Garrido] disse “junta o Seiça e vais tocar n’A Porta”. Depois o nome também surgiu por aí, da necessidade de ter um nome, de escrever alguma coisa sobre nós.

RS: E foi a primeira música que fizemos assim mais a sério.

ND: Quer dizer o “a sério” aqui é entre aspas. Era uma das músicas que andávamos a trabalhar e chamava-se Me and My Brain. Portanto a banda tem o nome de uma música. Parece que é Me and My Brain porque eu sou o brain e ele o me ou o contrário… mas aqui é um devaneio.

RS: Aqui foi a música que fez a banda.

ND: Isto é giro porque a música não tem nada a ver com ser um o brain do outro ou o que quer que seja.

RS: Sim isso não tem uma ligação em concreto com nada. Foi simplesmente fazer sem pensar.

ND: Sem pensar não é bem assim, mas foi o ter de fazer as coisas mais ou menos apressadas e isto é o que está em cima da mesa. “O que é que achas disto? Está fixe? Então, siga! Não vamos pensar muito nisto que não temos muito tempo, temos de nos despachar com o que temos.”

RS:  Sim foi um bocado tu [Nuno] aceitares um concerto e, passados dois dias, dizes-me (risos): “Tens de vir cá a casa que eu aceitei o concerto. Como é que é? Cancelo ou avançamos”. Aceitámos porque, no fundo, os dois tínhamos vontade e, às vezes, temos de estar ali no limite da pressão para te fazer mexer ou não.

ND: Somos portugueses.

 

Este vosso projeto é puramente eletrónico.

ND: Até agora…

 

E dentro da música eletrónica qual é a vertente com que se identificam mais?

ND: Eu sou terrível em classificar.

 

Eu também não gosto de fazer esta pergunta, de classificar, de etiquetar, mas acho que é preciso para vos percebermos melhor.

ND:  Acho que ambos gostamos bué de rock psicadélico, ponto.

RS: E fazemos música eletrónica. (Risos)

ND: Nós gostamos bué da cena espacial e andar por aí e desbundar um bocado com o contra tempo e com aquele quase limiar do fora de tempo, mais os efeitos, mais o brincar com as máquinas, mesmo que não saibas dominá-las. Mas estás ali confiante que consegues dominá-las. Quando não eram teclados era ele na guitarra e eu nos teclados. Como disse há pouco eu toquei anos e anos com ele e ele era só guitarra e pedais. Era raro ele pegar nos teclados mas já tocava, quando era mais miúdo já tocava teclados.

RS: Sim, fiz órgão mágico. (Risos) Foi aí que começou a minha aventura nos teclados, tinha aí 12 ou 14 anos. Ali nos Marinheiros.

 

Formação musical: têm ou foram aprendendo?

ND: Eu quando era pequenino tive a Claudina dos Marinheiros, também. Mas quando faziam a festa de final de ano, em que se toca o que se aprende, eu só me ria nos concertos. Um dia a minha mãe perguntou-me se eu realmente queria aquilo porque ela gastava muito dinheiro com aquilo. Eu disse-lhe, então, que “estou só aqui para brincar” e depois nunca mais tive formação. Só muito mais tarde é que peguei num teclado.

 

Mas não era só de instrumento, também havia teórica, certo?

ND: Tinha as duas coisas.

RS: Solfejo.

ND: Sim. Eu quis começar a tocar guitarra e disseram que tinha os dedos muito pequeninos e que tinha de tocar piano.

RS: Então o que é que disseram dos meus.

ND: Se eu soubesse o que sei hoje tinha dito: “então mas há guitarras mais pequenitas”, porque há e era por aí. Depois fui para o piano e, por acaso, até curto, curto bué. Curto bué teclas e adorava guitarra, mas adoro teclas.

 

Isso é por causa dos dedos?

ND: (Risos) Sei lá eu! Epá não sei, gosto mais. Aquilo é assim (finge tocar piano) não é assim (finge tocar guitarra). Perceber bem onde é que é o Dó, o Ré. Porque é tudo seguido e na guitarra não é seguido, tens de andar aos pulos. Por várias escalas, que ainda é mais difícil. Eu acho que a guitarra é mais complicada.

Me and My Brain a mostrar um dos seus originais

Falando um pouco sobre o futuro. Vocês vão tocar agora na Stereogun, com os Boogarins. Onde é que vos vamos poder ver mais? 

ND: Para já vamos bombar bué neste concerto e ver se os agentes estão atentos e nos metem a tocar. (Risos)

RS: Os agentes da polícia. (Risos) Não sei, acho que isso vai ser como até agora. Até agora acho que no fundo até temos tido alguma sorte, não sei se é isso realmente mas a verdade é que as pessoas vão gostando de nós, mesmo não tocando muito bem, não é?

ND: Ou não tocando muito.

RS: Sim mas vão aparecendo assim alguns desafios e se nunca esperámos muito e foram acontecendo coisas, acho que alguma coisa vai surgir. Pelo menos é assim que nós gostamos de ver a coisa.

 

E dentro dessas coisas que podem surgir vislumbra-se algo editado? EP? CD?

ND: Sim, acho que sim. Se conseguirmos pôr aqui uma dúzia ou um bocadito mais de músicas a funcionar vamos ter vontade de fazer e dentro daquilo que hoje existe.

RS: Sim e, hoje em dia, gravar não é uma coisa nada impossível.

ND: E não vamos ser céticos. Vamos tentar ser realistas. Vamos tentar fazer aquilo que nós percebemos que, no meio, funciona. Mas, e eu falo por mim, por uma questão de tocar, simplesmente tocar. Tocar em sítios que gosto como espectador e que gostaria de lá estar como músico e por aí adiante.

RS: Sim é mais isso.

 

Ou seja, agora ainda não existe nada dos Me and My Brain disponível para ouvir.

ND: As únicas gravações que temos é de telemóveis, se quiseres ouvir levas com o nosso ensaio (Risos)

RS: Ou ouves na quarta no Stereogun. Isso ainda é melhor.

 

Após a entrevista, o Nuno e o Rui presentearam-nos com um tema que deixou muita água na boca, tanto para o concerto de quarta-feira como para as próximas atuações. Se aguçámos a curiosidade do leitor, não deixe passar a oportunidade de ver um dos raros concertos dos Me and My Brain numa noite que ainda tem Boogarins.

 

Fotografias: Teresa Neto