Crítica: Glenn Close e a arte de não precisar de dizer nada


A Mulher é um filme que mede bem a força de vontade e os medos conjugados numa vida sofrida, no sexo feminino. E Glenn Close sabe utilizar cada pó do requintado talento. Quem sabe se não é desta que ganha o Óscar de Melhor Atriz.

Glenn Close já anda nestas andanças de Hollywood há demasiado tempo. Tanto tempo que percebe que os Óscares estão e muito associados ao marketing. E por vezes, mesmo que estejamos ao nível Meryl Streep, não a vencemos, não é verdade? Mas isso não faz desistir a Mrs. Close. A cada ano que passa escolhe pormenorizadamente os filmes em que vai participar (por isso é tão difícil escolher um na história que lhe tenha corrido mal).

Em A Mulher, Glenn Close interpreta Joan, esposa do conceituado escritor Joe Castleman (interpretado por Jonathan Pryce). Numa manhã, Joe recebe uma chamada com uma feliz notícia: ele foi o vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Juntamente com o filho David (Max Irons) viajam até à capital da Suécia, Estocolmo, onde não só a vida de Joe vai mudar.

Durante o filme acontecem vários flashbacks que nos ajudam a perceber como esta relação amorosa dura há quarenta anos. Tudo começou em 1956. Joan sonhava ser autora literária e era aluna de Joe, na altura professor universitário mas ainda um escritor pouco conhecido. Na altura já casado e pai de família, Joe apaixona-se por Joan e abandona tudo o que tinha até então.
Joan sente que não tem talento suficiente para escrever (no século XX as mulheres não tinham o mesmo crédito dos homens) e entrega-se por completo ao marido e às suas sucessivas conquistas no mundo literário.

Nestes sucessivos pingue-pongues entre o passado e o presente, percebemos que Joe é um homem atrevido, de coração fácil e que se apaixona por muitas mulheres. Já Joan preserva diariamente estes quarenta anos de relacionamento, apesar de saber de tudo o que se passa na vida do marido (não fosse A Mulher!).

O espaço, os lugares e os personagens fazem-nos lembrar os anos 90 e um pouco o lado do #metoo . Aqui não há violação, nem assédios mas existe uma nítida vontade de mostrar como muitas mulheres fizeram os maridos grandes personalidades em todo o mundo, quando o verdadeiro talento estava do lado feminino.

Glenn Close é uma artista invejável. A escolha do realizador sueco Björn Rungenão foi ao acaso. Glenn teria que ser a atriz escolhida para este papel, porque é das poucas com a arte de falar sem precisar de dizer nada. No filme, a cada comentário da personagem interpretada por Jonathan Pryce, Glenn Close dá-nos todos os sentimentos possíveis. Ora está triste, ora está frustrada, ora magoada, ora tensa.
O ecrã fica pequeno para tamanha interpretação. Interpretação essa que só está ao nível dos melhores atores, porque expressões não vêm nos guiões.

Quanto ao argumento, este é um pouco óbvio. O espetador fica à espera de um twist mas é sempre remado o sentido mais comum, sem que haja uma evolução da própria história.

A realização não surpreende mas também não desilude. A verdade é que deixar as duas principais personagens com grandes planos acabou por ser a opção mais correta.

A Mulher merece ser vista e Glenn Close interpreta um dos melhores papéis da sua vida. Foi três vezes a votações para Melhor Atriz: perdeu sempre. Será que à quarta é de vez? Porque certamente estará nas nomeadas ao galardão, em 2019.

 

Classificação TIL: 6,5 / 10