Crítica: “Um Pequeno Favor”, o thriller cómico que veio para ficar… sem pedir licença


Duas mães, segredos, mistério e comédia. Tudo parece não bater certo mas são estes os ingredientes de Um Pequeno Favor” o filme mais peculiar, sexy e surpreendente do ano.

Adaptado da obra de estreia da norte-americana Darcey Bell, Um Pequeno Favor junta Anna Kendrick e Blake Lively na história de Stephanie Smothers (Kendrick) e Emily Nelson (Lively), duas mães que, depois de se conhecerem graças à amizade dos filhos, passam a ser melhores amigas. Stephanie é vlogger, proativa e inteiramente dedicada ao filho Miles desde a morte do esposo. Emily, relações-públicas de sucesso e mãe de Nicky, é “um belo fantasma” presente mas distante, perigosa e com um (grande) à vontade com a f-word.

Depois de pedir a Stephanie que fique com o seu filho depois da escola, Emily desaparece e tudo começa a mudar, sem paragens. Uma morte, traições, incesto e até crianças com mau palavreado são exemplos da panóplia vivida no filme que chega esta quinta-feira, 20 de setembro, às salas de cinema portuguesas. O realizador Paul Feig, nome forte da comédia norte-americana em séries e filmes de grande sucesso, arrisca aqui num género pouco habitual mas com o potencial de abranger um público vasto..

Apesar de não ser o filme óbvio para prémios da indústria, Anna Kendrick e Blake Lively arriscam-se a ficar na memória de um público mais maduro do que o que já se habituou aos papéis leves e não tão complexos como os que aqui interpretam. Kendrick, figura já reconhecida e conceituada da nova geração de atrizes cómicas – e não só, tendo sido nomeada para o Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo filme de 2009 Up In The Air – apresenta-nos uma personagem inocente mas que rápido se apercebe que as aparências iludem, numa interpretação borbulhante e perspicaz. Lively, mundialmente conhecida por ter dado vida a Serena van der Woodsen na série de culto Gossip Girl, teve um novo fôlego na sua carreira com o filme The Shallows, em 2016, numa performance arrepiante que alertou tudo e todos para as skills dramáticas da jovem atriz – uma verdadeira dentada de tubarão. Com Um Pequeno Favor é percetível que o percurso para um currículo mais ambicioso continua a ser caminhado com elegância e requinte por parte de Lively.

Parece desconcertante mas as duas horas de voltas e reviravoltas, irreverentes e humoradas deixam qualquer um – uma sala inteira, na verdade – a rir nos momentos mais inusitados e sem saber o que esperar no próximo minuto. Quase como um Gone Girl que se encontra com um comediante num bar para um martini. Talvez a influência cómica da filmografia de Paul Feig tenha desequilibrado um pouco a balança dramática, desafiando o público para uma dança constante entre tensão e gargalhadas. Ainda assim, respira-se suspense, grandes doses de humor e protagonistas seguras numa história inquietante.

Um simples gesto pode mudar vidas. A autora Darcey Bell tem agora oportunidade de continuar o seu sucesso debutante com novas obras e, esperemos, mais horas de cinema desconcertante e provocador como Um Pequeno Favor.

Classificação: 8,5 (de 0 a 10)

Em exibição no Cineplace LeiriaShopping

14h00; 16h30; 19h00; 21h30; 00h00 (sextas e sábados)

 

Texto: Diogo Fernandes